sábado, 30 de outubro de 2010

DE AREIAS AO VENTO AO DRAGÃO DO MAR: UM PERCURSO VISUAL DE RECONHECIMENTOS E ESTRANHAMENTOS EM FORTALEZA





Texto publicado no jornal O Povo em 13/04/10 por ocasião das comemorações dos 283 anos da cidade de Fortaleza.


Vancarder Brito Sousa

Nas comemorações do aniversário de Fortaleza, começo este texto falando um pouco do que me move a escrever essas poucas linhas sobre os sentidos da visão em relação à nossa “loura desposada do sol”. Ou seria melhor dizer, morena, qual Iracema de Alencar? Bem, apesar da plena sintonia da questão das madeixas com o tema e a abordagem do olhar sobre o que se vê e o que se esconde em Fortaleza, este debate fica pra outra oportunidade.
Mas qual minha condição de articulador de reflexão a tamanhas questões que me foram sugeridas para participar desta homenagem? Antes de tudo esclareço as questões: “Como traduzir Fortaleza em imagens?” “O que a cidade aparenta ser?” e “Qual a análise da imagem do espaço urbano de Fortaleza?” Considero importante o leitor saber de onde falo e qual percurso que seguirei para recompor a minha cidade natal enquanto mosaico de vivências pessoais e coletivas ao longo desses últimos 40 e poucos anos nos quais em parte, testemunho seu vertiginoso crescimento e transmutar de formas e sentidos.
Neste momento escrevo de João Pessoa-PB, cidade onde moro e trabalho. Cidade bem menor que Fortaleza em população, porém ainda com certo charme bucólico de progresso com notas e ritmos mais humanizados, meio ambiente mais vigoroso e preservado e uma gente mais tranqüila no ir e vir, que aparentemente ainda não se importa em andar de carro com os vidros abaixados, diferente de Fortaleza.
Esta pequena digressão sobre outra localidade não é sem motivo. Não há como desvincular o olhar, do trabalho da memória e do esquecimento. Olhar é uma atitude, um posicionamento. Não acredito haver um olhar neutro sobre nada. É seleção afetiva. Nesse enlace entre memória e olhar percebo Fortaleza como aquela parte de mim que carrego sempre, me atravessa e se faz lente través da qual leio mundo.
Neste exercício de lembrar para escrever, estabeleço como qualquer visitante que chega a cidade um roteiro, e roteiros são feitos de tempo e espaço. Percorrer a cidade é um exercício de ver, olhar, perder-se e encontrar-se em tudo que ela é capaz de dizer simultaneamente. E Fortaleza, quinta metrópole brasileira em população guarda algumas imagens e sentidos particularmente intrigantes a quem se demora um pouco a pensar seus signos.
Quando propus elaborar um roteiro pessoal-emotivo para remontar esse mosaico, o fiz por entender que, me inspirando em Ítalo Calvino, uma cidade são sempre muitas e seus diversos nomes falam intimamente, portanto de diferentes maneiras a cada um que a lê.
Como dizia, chegando a cidade é impossível escapar às imagens de seus cartões postais, ou mais atual, das imagens digitais belíssimas que enchem as “áreas de trabalho” dos computadores e os álbuns fotográficos virtuais na internet. É desta forma, que eu, o sempre visitante de minha própria cidade, começo meu roteiro me deparando com os arranha-céus da Beira-Mar. Curiosa e estranha composição de concreto e cimento formando uma muralha para o Atlântico.
Uns os acham lindos, expressão de nosso progresso, outros apontam a ingerência ambiental e a insensibilidade daqueles que permitiram que tal bloqueio dos ventos e do horizonte se desse. Mas para qualquer um de nós fortalezenses que aceite o exercício de estranhar um pouco o superconhecido para exergá-lo de outra forma, pode-se compreender parte do sentido do porquê de suas existências. É preciso ver Fortaleza como aquela criança que durante a maior parte de sua existência foi muito tímida e reservada, pouco tinha pra mostrar as suas congêneres mais velhas e desenvolvidas, daí seu deslumbre com o novo e espetacular.
Se hoje nos espantamos e ou, nos admiramos com as torres que fecham os céus em Meireles, Mucuripe, Aldeota, Papicú, é preciso lembrar que pouco mais de 60 anos atrás, tudo era praticamente dunas, cajueiros, sítios e praias de pescadores ou desertas. Como mudou, e mudou rápido em uma escala de tempo urbana. Mas não foi só isso que mudou Fortaleza sempre ensaiou se abrir para mundo.
Se em sua belle-époque se mostrava com ares parisienses, era porque de fato, Paris estava logo ali, a algumas semanas de vapor pego ao largo do Viaduto Moreira da Rocha (a Ponte Metálica) na Praia de Iracema. Para nosso passeio imagético pela cidade, a sua belle-époque nos legou o Passeio Público, então ponto alto do lazer ostentatório de uma elite oligárquica que crescia com a exportação de algodão na virada do século XIX para o século XX.
Do seu terraço mais alto distintas senhoras de sociedade passeavam de mãos dadas com seus destacados consortes em passos quase rituais, devidamente ornados para o evento social de se apresentar publicamente. O Passeio público carrega consigo esse traço visual marcante da cidade que não deixará de sensibilizar o visitante mais atento e um pouco mais curioso, sua rigorosa estratificação social. Na qual do Passeio o fortalezense de posses mirava os navios ao largo, ansiando o progresso que viria por mar, enquanto nos patamares situados mais abaixo os populares e serviçais talvez só desejassem subir para os níveis mais altos.
Deste quadro do passado só a parte alta e melhor cuidada ficou. Porém distante, quase como uma pintura, vazia no interior de suas cercas. Seria hoje um “não-lugar”? De certo que não. A noite, seu entorno é marcado pela indefectível presença de garotas que se esforçam pra tocar a vida vendendo prazer e companhia fugazes. Disso todos sabem, quase todos os citadinos rejeitam e fingem esquecer... Os “contra-usos” sempre permitem a emergência daqueles que o discurso da ordem tenta esconder.
O Passeio público foi concebido como uma elaborada aquarela, produto da não tão distante belle-époque, legado de uma geração marcada por noções de civilidade baseadas no higienismo social urbano e que hoje, ironicamente, esta mesma memória convive com as surpreendentes novas usuárias.
Como anunciei antes, a cidade é mudança, sua imagem são formas e conteúdos em transformação, apropriação por seus cidadãos, aceitação-negação, dialética subjetiva e coletiva, enfim uma negociação de sentidos sempre aberta. A imagem urbana não é uma obra fechada, está se fazendo. Porém, como em uma receita gastronômica de um banquete antropofágico de imagens para nosso passante,  reservemos o contexto imagético da estratificação do passeio público, como a cereja-referência de um delicioso sundae: esta diz muito sobre quase tudo que talvez componha a essência do que existe de mais significativo nessa cidade apartada.
   Continuemos o roteiro. Quem passa de Grande Circular apressado para pegar cedo o batente, talvez pouco possa intuir sobre esses e outros conteúdos, o tempo é pouco, em suas mentes pulsa um relógio e a cidade se acelera. O passado é o presente, e o tempo da contemplação é um item raro e mais do que tempo é preciso inspiração. Mas o que pode inspirar a parafernália de outdoors e toda a poluição visual comercial que gerações de gestores se recusam a atacar de forma decisiva?
Como dito por Kandinsky, “ver é estar doente dos olhos”. Contemplar uma cidade e se dedicar às bricolagens de seus quebra cabeças é um exercício exasperante, os olhos adoecem na tensão entre o belo e feio, frente às injustiças, frente ao abandono e indiferença. Adoecem quando não conseguem respostas efetivas para perguntas como: mas quem tem o poder de dizer o que é belo na cidade? Ainda nessa linha, seriam belos nossos arranha-céus? E o nosso céu frequentemente azul sem nuvens, quem repara nele? Quem consegue reparar nele? Talvez apenas os visitantes de outras latitudes, que chegam em cada vez maior quantidade, oxalá, com olhares mais abertos e sensíveis.
Fortaleza parece se esforçar muito em se descolar de uma imagem ligada às belezas naturais e de seu passado. Repito, pois fundamental, não distante passado de vila assentada sobre um areal escaldante açoitada por fortes ventos vindo do mar. Fora dos roteiros comerciais até o ciclo do algodão, de navegação litorânea difícil, literalmente um ermo que assustava e ao mesmo tempo intrigava os cronistas viajantes: _ “Como poderia se viver assim tão longe de tudo? Que povo é esse tão afeito ao sono em redes depois do almoço? É o mormaço, difícil escapar a ele”. Lembrar Fortaleza é sentir calor, com sorte, amainado por uma brisa que escapa ao paliteiro de prédios de sua porção rica e próspera.
Nesta cidade que se acelera, e pouco se atém a olhar pra trás, as imagens do passado estão quase sempre escondidas ou fora dos roteiros visuais e das atenções mais elitizadas dos formadores de opinião, da classe média e de sua burguesia branca fortemente inspirada em novos ares, agora vindos não mais de Paris, mas de Miami ou de São Paulo.
Alguns estudiosos arriscam dizer que parte desse sentimento se dá por não termos vivido um vibrante passado colonial como Olinda, Recife ou a mais próxima João Pessoa. De fato, em termos arquitetônicos, desta época localizamos com mais facilidade a Fortaleza de Nossa Assunção (a 10ª região Militar), e já com um pouco mais de dificuldade, pois bem escondida atrás da Praça General Tiburcio (a Praça dos Leões), a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (1730) e o palácio da Luz (final do século XVIII), pouca coisa além...
À luz desta memória urbana relativamente recente parece que Fortaleza se esforça pra esquecer seu humilde passado. Fortaleza é uma cidade sem memória? Com que facilidade colocou-se abaixo quase todo o casario do final do final do século XIX e das primeiras décadas do século passado! A “destruição criativa” se acelera, as imagens do novo se sobrepõem sempre mais rapidamente, dificultando a elaboração de sínteses pelo observador. Além de tudo, já são as casas de classe média e mansões dos anos 1970 que desaparecem para ceder lugar a novos e “indevassáveis” arranha-céus. _“É a violência!” Todos respondem unânimes para justificar as mudanças, e nosso quadro ganha contornos definidos por muros instransponíveis, cercas eletrificadas, câmeras remotas e sensores de movimento.
Os cartões postais e panfletos turísticos atraem o olhar, as imagens seduzem, já o concreto assusta, o cotidiano anda tenso, conflitivo, “há perigo nas ruas”! A sensação de medo grassa.
Hoje a imagem de Fortaleza se compõe de um jogo de mostrar e esconder. Ela não mostra mais o interior dos condomínios, onde “fechados” ganhou um sentido literal. Das casas remanescentes, pelo menos de quem pode pagar, só se vê os telhados. No espaço público os mais ricos ou os remediados apenas se “encontram” enquanto condutores de veículos, por trás de cada vez mais escuras películas de proteção. A nova leitura de espaço público para os que ditam os rumos desta jovem cidade são shoppings e praias cada vez mais distantes e exclusivas.
Assim os carros de nossa “aldeia-aldeota” exigem cada vez mais duplicações de ruas e avenidas, novos e absurdos viadutos, vias expressas que matam mecanicamente quem não porta a proteção de aço e se interpõem desavisadamente frente às máquinas. Fortaleza impressiona pela sua voracidade por mais asfalto e mais soluções de trânsito para os carros, mas o fato de desumanização de seu trafego não parece ser importante para o motorista no panorama confuso e lento dos engarrafamentos, o que importa é chegar. Fortaleza é uma meta, um compromisso agendado, uma venda, um cliente, a faculdade, enfim, tudo está à venda. É um grande negócio imobiliário, disputa mercado contra outras cidades, e a luta é encarniçada, e o filão, é a nova demanda nacional e internacional de lazer e entretenimento – o sucesso de sua imagem refletida nas vitrines do image-making.
Fortaleza mal teve tempo pra deixar de ser apenas a capital de um estado eminentemente agrário e marcado pelas secas para se tornar industrial com os incentivos oriundos da criação da SUDENE (1958), BNB (1952). Este processo se deu pelos idos dos anos 1960 e 1970 com a consolidação de seu distrito industrial em Maracanaú na região metropolitana, concomitantemente à construção dos grandes conjuntos habitacionais como o Conjunto Ceará e o Prefeito José Walter, entre outros.
Nestes conjuntos habitacionais, convenientemente afastados do centro, sujeitos ao urbanismo elitista da época, via-se os mais pobres longe do centro da cidade e de seus lugares de trabalho para os quais tiveram que se acostumar às intermináveis horas de apertos em escassos coletivos.
Este período, “industrial”, melhor qualificado pelas aspas, pois muito mais pela pretensão de alcançá-lo do que pelo fato ocorrido, além do imaginário de apartação entre a “cidade dos ricos” e a “cidade dos pobres” gerou também toda uma arquitetura pública momumetal que encheu os olhos mais deslumbrados dos anos 1960, 1970 e início dos 1980.
Desta forma, se revela em nosso roteiro imagético os símbolos de uma burocracia estatal e tecnocrática, mas que representava a este tempo a nova versão do progresso. Imagens ícones de outra época de deslumbre com as novidades têm-se o Palácio da Abolição, o prédio da Receita Federal, a sede INCRA, o DNOCS, a EMBRATEL, SERPRO, a rodoviária Engenheiro João Tomé, a sede da extinta TV Ceará Canal 2 e sua antena, qual “uma pequena torre Eiffel”.
E como o setor de serviços e comércio se consolidava na aldeota, surgia em meados da década de 1970 o seu primeiro shopping center, o incrivelmente grande para os olhares ainda um tanto provincianos e desacostumados com as novas escalas, o Center Um, o do elefantinho... Não havia dúvidas, pra onde quer que se virasse Fortaleza se modernizava, alavancada talvez menos pelo investimento industrial e mais pelo capital imobiliário e por um funcionalismo público em expansão via “milagre econômico”.
A cidade “que se vê” e que “se quer mostrar” expande-se cada vez mais ao sul, novos e grande bairros de classe média surgem de antigas fazendas e vazios. Cidade dos Funcionários, Papicu, Cidade 2000, Água Fria (atual Edson Queiroz) a reboque da primeira universidade privada da cidade – que também era ponto turístico junto com o Centro de Convenções. A Praia do Futuro e suas imensas dunas intocadas se mostrava como a grande aposta imobiliária. Tornar-se-ia algo como uma nova Barra da Tijuca?
O presente mostrou que não, pelo menos o futuro foi adiado, ninguém contava à época com a “segunda maior maresia do mundo” e tudo ficou na promessa. Pessoalmente, e por ter morado lá por mais de quinze anos em uma época de cajueiros e pés de murici abundantes, me dói o desaparecimento das dunas, seja pela construção de ricas mansões, ou pelo reverso da moeda, pelas precárias favelas.
As periferias incharam e novas e antigas favelas passaram a abrigar cada vez mais migrantes em busca da sorte.
Fortaleza enquanto coletividade não se ateve à noção de sustentabilidade social e ambiental, pouco se preserva. Hoje quase não é mais possível ver o mar das Av Dioguinho e Zezé Diogo na Praia do Futuro, impedido pelas cada vez maiores estruturas das barracas que na prática privatizam o espaço público e se sustentam sobre o discurso da demanda turística e da oferta de empregos.
O Parque do Cocó também sofre com avanços sucessivos sobre sua antiga área. Em breve as melhores e últimas imagens naturais que a cidade tem só serão vistas depois do 20º andar das torres residenciais e comerciais mais caras.
A cidade pagou um preço por seu crescimento desmesurado e em tempo tão exíguo. Nossa imagem urbana é inseparável da imagem de favelas, só muito recentemente novas políticas começam a reparar aspectos da séria injustiça fundiária e do déficit de moradia populares destas décadas em que apenas muito poucos tiveram acesso às benesses da riqueza. O novo e polêmico Plano Diretor parece um fato indiscutível, o progresso tem que ser pra todos ou não será pra ninguém, nossa nova imagem deverá ser de uma cidade de mais tolerância e generosidade.
Vivemos um tempo de novas e marcantes imagens representativas da urbanidade na terra de Iracema. O industrialismo como ideologia produtiva e urbana ficou para trás. Fortaleza se reconheceu em uma tradição de cidade de serviços e comércio. A beleza de seu litoral, o sol e sua acolhida são suas principais moedas de troca. Se poucas belezas naturais ainda há por aqui, estas são as praias. As de Meireles freqüentemente impróprias para banho. Já a leste do Mucuripe, se próprias para o banho, estão semi-privatizadas, reservadas para os freqüentadores mais abastados. O visitante e o fortalezense precisam ir mais longe para encontrar lugares mais exclusivos, tendo praias como Cumbuco, Porto das Dunas, Praia das Fontes, Jericoacoara e Canoa Quebrada capitaneado esse processo.
A cena da praia lotada por populares em animados rituais de curtição do sol no fim de semana, com o jogo de bola e a merenda ou almoço trazidos de casa não constam de nosso portfólio. Parece que o povo ainda não tem lugar na foto, assim como nas antigas imagens que temos acesso pelos arquivos de Nirez e Marciano Lopes, nas quais muitas vezes as ruas bem urbanizadas eram documentadas vazias ou semi vazias, como se existissem por si e para si, como obra acabada e com sentido puramente estético.
A superação do legado industrial com tons politicos do coronelismo, viu surgir novos discursos de modernidade, os jovens empresários do CIC, O fenômeno Maria Luiza, o Governo das Mudanças, a era Juraci, a virada de Luizianne Lins. Neste meio-tempo, dos anos 1990 pra cá se somou à nossa imagem-memória, a “requalificação urbana” de Fortaleza na área da Praia de Iracema. Viu-se a revitalização desta praia, sua efervescência como roteiro de diversão e sua decadência e esquecimento (de novo).
A reforma da Ponte dos Ingleses, o anúncio de um arrojado discurso de desenvolvimento econômico baseado na instalação de uma indústria cultural local e ato contínuo, Fortaleza ganhou seu ícone atual, o sob muitos aspectos bem-sucedido Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. A cidade está aprendendo a desfrutar conjuntamente os espaços públicos independente das classes sociais? Há um avanço em nossas relações sociais?
É preciso lembrar que talvez esteja se encaminhando para os capítulos finais a arrastada novela do Centro Multifuncional de Eventos e Feiras do Ceará (CDMAC), que alguém já quis construir em 20 hectares dentro mar, transferindo para isso uma comunidade inteira, o Poço da Draga. Parece que prevaleceu o bom senso e ele será mesmo em terra firme. À imagem real também se somam em nosso imaginário político e midiático as virtuais, como se realidades fossem, foi assim com o CDMAC, o Símbolo-Ícone e o Museu do Homem do Mar e nos últimos meses o Aquário da Praia de Iracema, tudo junto, ou dentro do mar.
Quando as elites fortalezenses “descobriram a praia” esta nunca mais saiu da nossa auto-imagem, nos modernizamos em grande medida pelas referências que o mar nos trazia e promessas e oportunidades vindas de alhures. Mas a imagem de uma cidade é sempre superior e surpreende quem francamente busca interpretá-la. As surpresas podem ser infinitas, desde que o viajante assim se permita. É desta forma que estamos aprendendo a nos ver na TV sudestina não apenas como referências da pobreza e do tradicionalismo, mas também pelos canais da cultura global, quando jovens do Conjunto Ceará se mostram vanguarda da onda cosplay por aqui. Aprendendo japonês uns com os outros e se comunicando e jogando via net em tempo real com outros garotos da terra lá na terra do Sol Nascente. Ou quando um grupo musical como o “Montage” vira referência na cena musical independente, dentro e fora do Brasil. Ambos os momentos trazem novas formas de vestir, de se mostrar, novas cores, maneiras de ler e viver a cidade. Reinvenções imprevisíveis de uma cidade que busca no futuro sua própria definição. Como já dizia o compositor Ednardo, em Beira-Mar:

Viva o som, velocidade
Forte praia, minha cidade
Só o meu grito nega aos quatro ventos
A verdade que eu não quero ver
                     

2 comentários:

  1. Belíssimo texto do nosso sociólogo de mão-cheia de significados, Vancarder Sousa.Com os "sons e tempos", de nossa cidade, logo vislumbra: [Assim os carros de nossa “aldeia-aldeota”], no cripto litero-poético contagiante.

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  2. Não tão jovem, não tão velho, leio o texto do Vancarder e lembro dessa Fortaleza de ontem que é a mesma de hoje (sem ser) e sinto saudade de uma Fortaleza que idealizo, que amo, que iludido sonho ("verdade que não quero ver"). Esse texto é uma viagem brilhantemente conduzida peloa olhar pertinente do autor. Vibrei.
    Jorge Ritchie

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