quarta-feira, 13 de outubro de 2010

LUX AETERNA

- Professor, o senhor acredita em Deus?

Assim, na cara, sem titubeios em meio a uma acalorada discussão sobre os rumos do segundo turno e diante de um grupo de estudantes universitários, na sua maioria, advindos de uma classe média oriunda da periferia da cidade.
Nessa discussão falávamos sobre possibilidades de pensar utopias pós-socialistas e, por que não, dito de outra forma, eco e sócio sustentáveis.
De um momento para o outro encontramo-nos envolvidos não apenas em um debate além dos rumos do atual pleito para a presidência (e da grande desconfiança de muitos no PT e qualquer coisa associada), mas em uma refrega sobre crer ou não crer em mudanças sociais, e nestas, quem seriam seus sujeitos: os movimentos sociais, os partidos, as "pessoas", o mercado... quem afinal, operaria as mudanças (se possíveis fossem)? É possível ter fé em mudanças quando tudo parece decididamente corrompido? Era esta, mais ou menos, a posição da maioria na sala. Situação difícil a do professor, como defender qualquer movimento social frente as evidencias "contundentes" postas por alguém que diz que conhece a fundo pessoas que faziam parte de algum movimento social e o abandonaram por não concordarem com a corrupção e desvirtuamento do mesmo?
Nesse intervalo tudo que se encontra na agenda social e política mais avançada no mundo já havia sido tragado por um dilúvio de preconceito e moralismo: aborto, legalização da maconha, movimento pela reforma agrária... água, bebê, bacia, tudo junto E no desespero saí com essa: - Gente, mas é preciso acreditar em alguma coisa! (eita, eu disse isso?!)

E na sequência veio a pergunta que destaco no início do texto.

Silenciei meu verbo inútil por dois segundos, e de uma forma ou de outra fui parar no berço da minha real indiferença frente a essa questão. Aliás não bem indiferença, pois pra mim essa não é uma questão com a qual costume perder nenhum tempo. Mas me vi diante da tela do cinema vendo (e ouvindo 2001: uma odisséia no espaço). Acho que como o astronauta David Bowman, fui tragado nesses dois segundo para dentro do Monólito Negro e vi o passado e o futuro, e a resposta: - as vezes penso acreditar que é preciso acreditar (em algo).

E me veio a mente o lampejo sonoro do coro de 16 vozes da peça Lux Aeterna, do húngaro György Ligeti nas cenas em que homens e homens-macaco encontram-se com o monólito. Ah, como queria que nesse momento cada uma daquelas cabeças dividisse comigo o som daquele maravilhoso caos em que a humanidade se percebe uma coisa ridicularmente pequena frente a sua origem e seu destino. Assim, sem nenhum favorecimento, sem pistolões. De forma pura e cristalina "sem parentes importantes e vindo do interior". Claro que sei que viajei demais, mas o favor da dúvida sobre a fé na esperança de uma mudança humana, nesse caso, precisa existir e não virá dos céus, mas talvez, com um coro de 16 vozes... O que mudaria no mundo se todos vissem 2001: uma Odisséia no Espaço com 8 anos de idade, e brincassem de módulo espacial atracando na estação espacial hehehe Esperança que algo mudaria...


E pra finalizar o pacote, 2001 A Space Odyssey Opening:









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