terça-feira, 30 de novembro de 2010

Algumas reflexões (in)oportunas sobre o sistema CAPES



Por que se matam os lemmingues? Ou, será possível salvar os lemmingues deles próprios?

peguei aqui: 


"O suicídio da Universidade"

Nos últimos anos, temos observado que os campos e métodos da pesquisa

universitária têm sido cada vez mais pautados pelas agências de

financiamento, comandadas pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de

Pessoal do Ensino Superior) e dirigidas pelo governo federal. Tudo, na

rotina universitária, passa por essas agências, que operam como uma espécie

de FMI do mundo acadêmico: a definição das linhas de pesquisa e das próprias

"areas de concentração", os seminários internos de pesquisa, os colóquios e

simpósios (nacionais e "internacionais"), as publicações, as disciplinas

ministradas e até mesmo a ocupação do espaço físico.


Tal situação gera uma mentalidade de gincana, em que predomina, do ponto de

vista institucional, o "eventismo" (a multiplicação virótica de "eventos

científicos", cada vez mais inchados e improdutivos) e, do ponto de vista da

produção individual, a publicação requentada de artigos antigos ou a mera

colcha de retalhos de citações e auto-citações, produzidos, muitas vezes,

por pessoas que não têm rigorosamente nada a dizer, mas são obrigados a

"tornar públicas suas reflexões", para continuar a receber suas bolsas e

dotações suplementares.


Muitos dos chamados "grupos de pesquisa" se organizam como pequenas seitas,

em que recém-doutores embevecidos com seus títulos, sentem-se autorizados (e

quiçá obrigados) a forjar continuamente novos conceitos e metodos, mesmo que

ainda não tenham conseguido dar conta das idéias que pretendem superar.

Basta analisar a bibliografia adotada pelos participantes de um desses

grupos para se ter idéia de sua homogeneidade intelectual e do centralismo

"metodológico" exercido por boa parte das supostas lideranças acadêmicas.


O teor das pesquisas, teses e dissertações é um problema à parte: anos após

o famoso "caso Sokal", vemos multiplicarem-se aqui, especialmente nas áreas

de artes, letras e ciências humanas, verdadeiros casos de delírio

intelectual, sempre justificados pelo progresso intrínseco da "produção do

conhecimento", mas incapazes de distinguir a ousadia do mero deslumbramento.

Quando não é este o caso, trata-se de exercícios de empirismo bem

intencionado e politicamente correto, a favor de qualquer tipo de "inclusão

social" ditada pelas ONGs ou pelo Estado (que se parece cada vez mais com

uma ONG). Os trabalhos de qualidade são raros. Os que possuem, além da

qualidade, elegância e sobriedade são raríssimos.


Chega a ser constrangedor verificar o zelo com que todo um exército de

pesquisadores (com seus batalhões de bolsistas, da Iniciação Científica ao

Pós-Doutorado) preenche, incansável, todos os relatórios que lhe pedem,

respeitando prazos arbitrários e se submetendo a formulários nem sempre

muito inteligentes. Esses operários do saber passam a maior parte do seu

tempo atualizando o famigerado Currículo Lattes (triste homenagem ao grande

César...) ou produzindo material ad hoc para preenchê-lo, sem deixar passar

nem mesmo o bate-papo informal, devidamente transformado em "palestra" ou

"trabalho de orientação".


Os Programas de Pós-Graduação, por sua vez, vivem em função de um senhor

virtual, sua majestade "o Relatório (da CAPES)", procurando obsessivamente

cumprir não só as exigências da agência, mas até mesmo as expectativas

apenas insinuadas por ela. É possível mesmo dizer que muitos deles se

programam a partir de tais expectativas, chegando a farejar no ar os temas

que agradarão aos comitês científicos ou atenderão às prioridades

proclamadas pelo governo vigente, em nome dos "interesses nacionais" ou

"sociais", conforme o caso.


No governo anterior, o tripé ensino-pesquisa-extensão favoreceu claramente a

"pesquisa", possibilitando a constituição de uma verdadeira aristocracia de

professores-bolsistas, que soube muito bem defender seus interesses e barrar

o caminho ao baixo clero universitário, relegado ao trabalho pesado das

aulas e da administração acadêmica. No governo atual, a balança pende

fortemente para o lado da extensão, entendida de modo assistencialista e até

mesmo demagógico. No primeiro período, até a própria extensão foi travestida

de pesquisa; no segundo, é a vez da pesquisa disfarçar-se em projetos de

extensão. Nos dois contextos, o ensino viveu praticamente abandonado, como

um primo pobre, solenemente abandonado às cotas e à educação à distância,

apresentada como grande panacéia.


Contudo, há quem pondere que não deveríamos tratar a CAPES como um agente

externo, pois, afinal, são os próprios professores-pesquisadores que compõem

os seus quadros. Mas não passa despercebido a ninguém o fato de que a

maioria dos chamados "representantes das áreas (de conhecimento) na CAPES",

muito rapidamente se transformam em representantes da CAPES nas diversas

áreas de conhecimento, atuando como verdadeiros feitores, que não deixam de

ser recompensados por sua conveniente subserviência. De qualquer modo, não

há como negar que tais agentes, muitas vezes mais realistas que o rei, fazem

parte da chamada "comunidade universitária".


Por isso, quando a Universidade chegar ao esgotamento total de sua força

criativa, quando perder de vez seu melhor material humano, quando

transformar-se completamente numa fábrica de tabelas e relatórios e, de

fato, "morrer", teremos que admitir que isto não aconteceu por obra de

forças hostis ou devido a causas naturais, mas por suicídio premeditado.




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