sábado, 20 de novembro de 2010

São Paulo - Poesia 6


São Paulo é um gigantesco clichê de si mesma, tudo que se espera dela se confirma, tudo está lá, exatamente como no roteiro. Porém não sei se posso dizer o mesmo de tudo que ela desperta em quem a experimenta. Talvez o seu diferencial seja esse, seja um clichê tão assutadoramente ampliado, que nada fica imune ao seu poder, algo hipnótico, algo catártico, que refaz a todos de forma imprevisível e indelével. São Paulo é a festa e a ressaca. É a flor solitária num vaso no terraço do prédio de uma rua escura. É um parque verde sob um céu cinza. É tom sobre tom, é furta-cor, é o cinza sobre o cinza.


POR RUAS DESERTAS


Gritos em ruas desertas
Carros largados e lixo
Exótico este presente
Talvez só um velho orgulho
Feito do nada que até agora ecoou
Fumo que circula espaços esquecidos
Fluidos antipessoais
Dissolução dos desejos no escuro
Em cinzas frias
Nos pátios úmidos de velhas grades
Centros, praças e subúrbios
Ermos de poeira
Amontoado de direções
Corrupção dos sentidos
Enfim, gritos
Em ruas desertas
E abrigo e ilusão
Em um pátio de jarros sem plantas
Onde já não incomoda a maldade
A ausência de samambaias
Sem dó de que fluidos viscosos preencham este presente
Carros jazem, jaz uma cidade
Virtude volátil esta que desce lenta
Para qualquer profundidade e,
Quisera, ao menos, ter alguma certeza disso
Nada a importunará


Vancarder






2 comentários:

  1. são paulo é solitária...
    Eugênia..

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  2. e talvez no meio da solidão e do caos ainda reste um pouco de humanidade em demasia na cidade que teima em permanecer acordada.

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