segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ainda o Tempo. Sempre o Tempo...

                                                   KRONOS

Do tempo dos antigos, que perceberam a rotina de morte e vida do Sol pelo arco celeste, passando pela percepção da fertilidade e decadência dos campos até o chegar ao óbvio dedutivo de que estamos dominados por um prazo de validade de existência, foi um pulo.
E desde então nunca mais paramos de olhar o tempo, e num espirro, o relógio. Primeiro o relógio fora, a máquina e os tempos de resposta as demandas.  Depois o relógio interior, não o biológico, mas o cultural, quando o relógio passa a ser cada indivíduo.
Dos Gregos a Newton, de Ainstein a Castells, passando pelo Coelho de Alice todo mundo dá seu pitaco sobre o tempo. Minha relação é estranhada com o tempo, pois prefiro o ócio. Não o ócio criativo de Domenico De Masi, esse serve muito bem à Fiat e à Google, prefiro o repertório de Macunaíma "o herói sem nenhum caráter" (isso é lindo!): a rede, o gozo, a preguiça e nada mais. Desconfio severamente de quem diz acreditar e defende outras coisas. Entendo, entendo a necessidade... também faço coisas movido pelo tempo. Esperança: o Brasil ainda vai salvar o mundo da adoração do tempo. I hope so...

Segue uma crônica interessante a respeito do tempo.
Peguei aqui: http://www.artilhariacultural.com/2010/11/26/tempo-improdutivo/#more-9232

SOBRE O TEMPO


Alice.



Sempre me diziam – talvez esperassem que eu ouvisse – para tornar meu tempo livre produtivo. Isso é algo meio contraditório. Tempo ocupado, em tese, é o tempo gasto com produtividade. Tempo livre é o tempo em que você deve se sentir culpado por não estar sendo produtivo. Apesar da recomendação, e talvez também em razão da recomendação, eu nunca soube distinguir com clareza um tempo do outro. E, com a confusão entre tempo e produtividade, acabei optando por ignorar ambos. Isso certamente não é uma recomendação.
Lembrando do que me aconselhavam, até o tempo gasto com cultura deveria ser bem aproveitado. Deveria selecionar cuidadosamente as músicas que ouviria, os livros que leria e os filmes com que desperdiçaria noites. Não é tão difícil se você pensar nesse tempo como sendo de tanta produtividade como o tempo em que você supostamente estaria ocupado com tarefas relevantes. Olha… Eu selecionei. E por isso estava hoje, sem a menor culpa, ouvindo Cobra Starship e lendo Pedro Bandeira. Obviamente todos conhecem Pedro Bandeira dos livros recomendados na terceira ou quarta série; Cobra Starship é uma banda para cuja existência ainda não se encontrou nenhuma explicação convincente. O processo de ocupação de tempo que presumi ser livre seguia muito bem até alguém parar em frente ao aposento caótico que chamo de quarto e perguntar “Mas o que houve com Mozart?”
Pois bem, eu vou lhes contar o que houve com Mozart. Mozart cansou. Bach também cansa. Chico Buarque também cansa. Machado de Assis também cansa. Aliás, Machado de Assis quer um tempo separado de seu tempo para ouvir duetos entre um cara que faz cosplay de Restart* e uma atriz de Gossip Girl, escrever errado quando lhe convier e ler Sidney Sheldon, se assim quiser. Machado de Assis também se cansa e acha, sim, muito produtivo discernir rendimento intelectual de descanso mental. Cervantes, da mesma forma. Cervantes encararia algumas horas de sertanejo numa boa, e talvez até lesse Paulo Coelho para refrescar a cabeça. Isaac Newton adoraria passar a noite assistindo comédias românticas. Não, espera, Isaac Newton não.
Ninguém passa vinte e cinco horas por dia discutindo cinema francês, apreciando música clássica ou lendo poesias complexas. E, se você o faz, meu caro, sua vida deve inspirar piedade aos que são capazes de tirar o nariz das páginas poeirentas e respirar ar puro de vez em quando. Nenhuma cultura é inútil, desde que se saiba usá-la a favor próprio.
(*Embora tenha acontecido o contrário.)


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