segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

De quando se escrevia cartas.



Outro dia estive em uma agência dos correios. Fui passar um fax para uma instituição bancária. Fax para um serviço de cartão de crédito?! Sim, a ideia de anacronismo salta a mente de súbito! Por que não um e-mail com o tal documento escaneado? Também me perguntei. Mas que seria da vida sem as contradições, para o bem e para o mal. Certamente, seria outra coisa, difícil de definir, pois inexistente. Reparei que na fila e entre os que eram atendidos a minha frente ninguém portava envelopes de cartas, eram serviços bancários em sua maioria e uma ou outra encomenda. Nada de pequenos envelopes brancos. Ninguém escreve mais cartas? Foi inevitável pensar. E tentei lembrar a última missiva que postei pelo correio, fazia tempo, 9 anos, para uma amiga no Acre. Desde então só e-mails, pra muitas pessoas, longos e-mails pra alguns mais íntimos. Penso no que mudou na passagem do meio físico para o virtual, qual era minha emoção ao escrever e, sobretudo, receber e abrir um envelope de longe. Tive dificuldades em reaver tais sensações. E os mais jovens a desconhecem de todo. O e-mail está aí pra quem quiser ou puder se aventurar a estender sentimentos e acontecimentos em palavras. E me dou conta que o próprio e-mail envelheceu, poucos respondem, muito menos, o fazem com algum investimento maior de tempo, fica tudo pra próxima conversa, pra próxima cerveja, pra próxima praia, pro próximo chat no MSN. Que até poderão existir, mas tudo lamentavelmente fora de contexto e de tempo que a situação original sugeria. Gosto de cartas e longos e-mails, sinto por vivê-los cada vez menos, e, ao mesmo tempo entendo, um tempo em que a comunicação está limitada às parcas linhas dos MSN da vida e às mais rarefeitas ainda, palavras do Twitter. Tivemos grandes avanços de comunicação com a escrita instantânea e econômica, concordo, mas não posso deixar assinalar o quão mais complicado parece hoje sair da superfície do padrão raso do "face a face" do MSN. As cartas estão extintas, os cartões postais também, o e-mail como substituto é tomado como anacrônico e fora de moda. Outros códigos, outros tempos, volto à questão batida: o que ganhamos, o que perdemos?

Pra esclarecer sobre a sensação à qual me refiro. Segue uma carta a moda antiga...

"tá ligado?"


Carta de Caio F. Abreu para Hilda Hilst, sobre Clarice Lispector


"29/12/1970

Hildinha, 

a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. 
Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou:
 - "Fica comigo." 
Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. 
Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir.Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro. 
Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa.
Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim – teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. 

Fico por aqui, já é muito tarde.
Um grande beijo do teu Caio"

Um comentário:

  1. E reler as cartas do Acre então, não deve ter preço. O que uma mudança não faz a pessoa encontrar hein? rsrsrs

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