segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Muitas formas de amar




Se o amor é de fato outra coisa além de tudo que possa ser  formalizado, segue um texto bacana sobre encontros e desencontros amorosos. Só pra lembrar que o amor está onde ninguém jamais esteve. E, talvez, nem lá possa ter sido encontrado (apesar de todos os relatos em contrário). 




Por Felipe Gonçalves
Poeira Levemente Mofada: http://sepia.zip.net/index.html




10/08/2010 

Fly Me to the Moon, ou dois filhos da puta.



Estávamos num barzinho super charmoso que sempre que passava
em frente me prometia entrar.

A garçonete uniformizada de preto me trouxe um menu e um sorriso.
Às minhas costas um trio tocava uma versão jazzista de Fly Me to the
Moon. Na minha frente ela me olhava com indiferença em olhos
castanhos.

UMA NOTA RÁPIDA:
Ao contrário da resposta pronta
que costuma vir a mente, o sentimento
oposto ao amor não é o ódio.
É a indiferença.

Ela pediu petiscos. 'E o que vamos beber?' Não pensei: 'Que tal vinho?' 

"Sempre tão ritualista" e olhos virados pra cima.

A garçonete pareceu confusa e olhou pra mim, respondi "Duas
Heinekens" e ela foi embora. Uns dois minutos de silêncio
constrangedor depois, as cervejas chegarem.

Rompi o silêncio em desespero.
-Isso te deixou tão confusa quanto à mim?
-Nenhum pouco. - começou a marcar a música com os dedos.
-Você acha que semana passada foi um erro?
-Não. - Mais indiferença.
Bebi. Coragem.
-Acho que podiamos dar certo, nem sei como, mas acho.
Olhos virados pra cima de novo.

E O PRÊMIO DE   'COISAS QUE MAIS ME IRRITAM'  , VAI PARA..
..O virar de olhos dela!
Nada me faz sentir tão idiota.
Nada.

-Se fossemos pra estar juntos, já estariamos há tempos.

Ponto. Pra falar a verdade - conversava comigo mesmo neste
momento-, Já esperava esse tipo de resposta, afinal você não
é o tipo ou o gênero que ela gosta, não é querido? Incrível como
foi um alívio.

(É assustador quando nossos sonhos ameaçam se concretizar.
É muito mais seguro quando eles são apenas sonhos.
E muito mais mágico.)

O clima desanuviou, ficou agradável até; bebemos, rimos, curtimos a
banda. Era outra noite como aquelas que tínhamos frequentemente.

Caminhávamos rumo ao metro, desfiando filosofias baratas e fofocas.
O dia ameaçava nascer, e ela riu gostoso; e eu a amei mais que
nunca. Sorri, e doeu. Mas foi uma dor boa no fim.

Entramos na estação.
Havia um simpático assento para gordos na plataforma, e ela sentou
ao meu lado. Disse assim:

-Você já tem que ir?
-Não. - Mas é claro que não.
-Que bom - e dentes.

Ela se aconchegou e deitou no meu ombro. Eu a aparei com meu braço. 
Ela precisou de dois minutos. Dormiu. 


Foi um turbilhão de coisas: Ela quentinha. A sensação boa de cuidar.
O frio repentino inundando as veias..

CONSTATAÇÃO DAS QUATRO E MEIA DE UM DOMINGO:
Ela nunca esteve tão perto, e tão longe.

Ela se remexeu e me tirou de devaneios.
Me perguntava se ela ainda dormia quando ela disse baixinho:
"- Sabe, adoraria te agarrar agora."
filhadaputa.
Eu expirei um sorriso.
E consegui conter todos os meus ímpetos e instinstos:
- O que você vai fazer hoje?
- Almoço com minha irmã, saída com 'aquela lá' a tarde.
- Me dá o resto do teu dia?
Risos e um olhar triste:
- Não posso, poxa.. já tá marcado.

- Cancela. Deixa elas pra lá. - E eu podia jogar poker com a cara que usei.

- Filho da puta - riu -, tá bom.

E foi uma tortura imensa agir normalmente, algo como tentar
segurar uma granada na mão. Mas sabe, eu tinha certeza
que ia valer muito a pena.
É.

Embarcamos.
Éramos dois filhos da puta. Era domingo.


Escrito por Felipe Gonçalves às 00h50

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