segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Além da delinquência e da brincadeira: os riscos da onda de raiva neoconservadora



Desde antes da campanha presidencial que vem se fazendo lugar comum nas redes sociais e mesmo na mídia tradicional a presença de mensagens de intolerância e mesmo de ódio (a maioria das vezes absolutamente gratuito e vazio) contra a presidente Dilma Rousseff, a Lula e a todo o quadro de mudanças sociais consistentes e progressitas que ambos realizaram e à expectativa de sua continuidade.

A virulência e alcance das mensagens pode ser tomada por muitos, sobretudo por serristas inconformados, como apenas uma espécie de "malcriação" de jovens online (portando de classe sociais mais favorecidas), sem nada na cabeça e superalimentada por formadores de opinião e intelectuais embalados na era Lula. Alguns desses descontentes com o momento Dilma-Lula, certamente irão dizer que sequer é representativo em termos quantitativos (e aja apego ao rigor metodológico) a quantidade de mensagens postadas no Twitter e nas demais redes sociais pedindo a morte de Dilma por um franco-atirador durante sua posse. Ou antes, que o nordestinos que votaram em Dilma morressem afogados.

Bem, pra quem acha que a mídia não influencia nada, sobretudo o ódio no campo político e que o Brasil além de ser um terra abençoada por Deus e, portanto, sem desastres naturais e também sem chances de ser seduzida pelo facismo por nosso povo ser todo gente boa,  reproduzo artigo postado no Vi O Mundo: Robert Kennedy Jr.: Quando a mídia ajuda a matar (FONTE).
Claro, nossa realidade é bem diferente da Norte-Americana, mas não custa pensar nas possibilidades de tanta gente "desmiolada" (pelo menos pra ser tão apegada a esse tipo de "brincadeira")  e tão enfurecida deixar a brincadeira e partir pra ação. Num futuro próximo...


Sugiro também a leitura dos links postados pelo autor no final do texto.



Robert Kennedy Jr.: Quando a mídia ajuda a matar

[Anúncio de página inteira publicado no Dallas Morning News no dia do assassinato de JFK, em que ele é acusado de ser comunista]
Nas ondas do ódio radioativo
Após a morte de JFK, vozes do extremismo de direita se afastaram um pouco do rádio e TV. Agora voltaram, diz sobrinho de Kennedy
por Robert F. Kennedy Jr., traduzido por Terezinha Martino, no Estadão
No dia 22 de novembro de 1963, minha mãe foi me buscar na Sidwell Friends School, em Washington. Quando seguíamos para casa, em Hickory Hill, norte da Virgínia, observei que todas as bandeiras da cidade estavam a meio pau. Minha mãe disse que um homem malvado tinha atirado no tio Jack e ele tinha ido para o céu. Um amigo do meu pai, Dean Markhan, ex-companheiro do time de futebol em que ele jogava e promotor da divisão de combate ao tráfico, foi buscar meu irmãozinho David na escola Our Lady of Victory. “Por que eles mataram tio Jack?”, David perguntou a ele. Dean, ex-fuzileiro naval, veterano de combates, conhecido como um dos mais robustos atacantes do Esquadrão GI Bill — o mais forte time de futebol [americano] da história da Universidade de Harvard –, não era tão forte para enfrentar aquela pergunta. E chorou silenciosamente durante todo o caminho percorrido.
Quando cheguei em casa meu pai estava no jardim com Brumus, nosso terra-nova, e Rusty, um setter irlandês. Corremos em sua direção e o abraçamos. Todos choravam. Ele nos disse: “John teve a vida mais maravilhosa possível e jamais teve um dia triste”.
Nem Glenn Beck, Sean Hannity ou Michael Savage, nem os odiosos mercadores da Fox News e dos programas de rádio podem dizer que inventaram seu estilo.
[PS do Viomundo: O autor se refere a jornalistas-militantes da extrema-direita]
A virulência tóxica da direita dominava de tal forma as ondas de rádio desde a era McCarthy até 1963 que o presidente John Jack Kennedy, naquele ano, lançou uma campanha para implementar a Fairness Doctrine (Doutrina da Imparcialidade), que exigia exatidão e equilíbrio no rádio e na TV. Estudantes, grupos religiosos e de cidadãos registraram mais de 500 queixas na Comissão Federal de Comunicações contra extremistas de direita e apresentadores que disseminavam o ódio.
Os programas transmitidos em Dallas eram radioativos: pregadores, líderes políticos e empresários locais cuspiam a virulência extremista, inflamando as paixões de legiões de fanáticos desequilibrados. Havia alguma coisa naquela cidade — cólera ou loucura — que, conscientemente ou não, parecia preparar o terreno para o assassinato de Jack. A Voice of America, meia hora após o assassinato do presidente, descreveu Dallas como o “centro da extrema direita”. Texas era um tal caldeirão de corrupção da direita que o historiador William Manchester a retratou como a cidade que lembrava os dias finais da República de Weimar. “Coisas insanas ocorriam”, reportou Manchester. “Enormes cartazes exigiam o ‘impeachment’ de Earl Warren (presidente da Suprema Corte, responsável pelo fim da segregação nas escolas; depois presidiu a comissão Warren, que investigou o assassinato de Kennedy)”.
Lojas de judeus eram pichadas com suásticas. Jovens donas de casa se sacudiam em público ao canto “Stevenson’s going to die — his heart will stop, stop, stop and he will burn, burn, burn”(Stevenson vai morrer — e seu coração vai parar, parar, parar e ele vai queimar, queimar, queimar).
Manchester continua: “Dallas tornou-se a meca dos festivais de cura dos evangélicos da National Independence Convention, das Cruzadas Cristãs, dos Milicianos, da Sociedade John Birch e das Sociedades Patrick Henry e a sede do explorador de petróleo, de direita, H. L. Hunt e suas atividades duvidosas. O prefeito da cidade, o direitista Earl Carrol, era conhecido como ‘prefeito socialista de Dallas’ por ter mantido sua filiação no Partido Democrata”.
[Nota do Viomundo: O autor se refere, acima, a grupos da extrema-direita de então, antecessores do Tea Party]
O discurso de tio Jack em Dallas deveria ser um ataque violento contra a direita. Ele encontrou as ruas abarrotadas de democratas seus partidários, mas entre eles eram vistos os ornamentos familiares do ódio contra o presidente: bandeiras confederadas, centenas de cartazes exibindo uma foto de Jack com a inscrição “Procurado por traição”. Um homem portava uma faixa que dizia: Você um traidor (sic)”. Outras faixas o acusavam de ser comunista. Quando os alto-falantes da escola anunciaram o assassinato de Jack, alunos do quarto anos aplaudiram. Um ouvinte de rádio ligou para dizer que “qualquer branco que fez o que fez pelos negros deve ser morto a tiros”.
Quando meus irmãos e eu fomos à Casa Branca para consolar meus primos John e Caroline, um grupo desfilava diante da residência exibindo um cartaz que dizia “Deus puniu JFK”.
Jack tinha recebido uma infinidade de advertências para não visitar a cidade texana. De fato, um pressentimento tomava conta da nossa família quando ele e a tia Jackie se preparavam para a viagem. Jack fez uma visita não programa a Cape Cod para se despedir do meu avô doente. Na noite anterior à viagem, minha mãe sentiu que ele estava ausente e taciturno no jantar para os juízes da Suprema Corte.
A morte de Jack forçou um autoexame nacional. Em 1964, os americanos repudiaram as forças do ódio e da violência da direita com histórica e esmagadora vitória na eleição presidencial disputada por Lindon Johnson e Barry Goldwater. Por um tempo os promotores do extremismo de direita se afastaram do pódio público. Agora retornaram, pensando em vingança, ao rádio e à TV e a importantes posições no cenário político.
Gabrielle Giffords continua num quarto de hospital lutando pela vida. Uma garota de 9 anos e outras cinco pessoas estão mortas. Rezemos por elas e pelo nosso país e esperemos que essa tragédia leve a um novo exame de consciência.

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