segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Fausto Fawcett: o lado B de Copa, o lado B de tudo, quando as coisas tinham um lado B...


Entre o final dos anos 1980 e início dos 1990, Fausto Fawcett foi um dos ícones do pop-underground da música brasileira. Um cenário no qual um tipo de rock inteligente e incômodo chegava com mais facilidade aos limitados canais de divulgação em massa. Coisa quase impossível nos dias de hoje com tanta gente certinha demais cantando coisas certinhas, previsíveis e vendáveis sobre amor.
Tinha-se as FMs da época tocando Katia Flávia e Básico Instinto, além de shows lotados tanto em bares do tipo zona Sul ou underground, aparição em shows de TV e até mesmo, como no caso de Fausto, um programa próprio na TV Bandeirantes, o lendário e praticamente esquecido, Básico Instinto.

Nessas esquecidas madrugadas pré-internet, Fausto Fawcett dava seu recado contracultural baudrillardiano, louvando e desconfiando de tudo que as sedutoras mensagens de um turbo-capitalismo nascente podiam oferecer. Afinal eram tempos inspirados na não menos mítica cruzada de pernas, sem calcinha, de Sharon Stone, neoliberalismo estava a pouco de anunciar que a história tinha acabado. O ciberpunk de Willian Gibson e o Blade Runner de Ridley Scott nos convencia com facilidade a desconfiar do futuro que chegara.

Em êxtase, um novíssimo público dessa novíssima hiper-mídia que se abria para todo tipo de novos produtos, pouco entendia do que chegava a seus ouvidos. Talvez essa tenha sido a brecha que permitiu o fenômeno Fausto.

Sua música descrevia num texto ruidoso, eficiente e transgressor uma nova ordem de sentidos, desordem caótico-hedonística, presente em todas as coisas tomadas como belas pela grande mídia. 
Coisas desejadas numa escala absurda, loiras estonteantes e inalcançáveis, mesmo em mil vidas: Katia Flávia, Sharon Stone, Farrah Fawcett, Angélica, Xuxa. Até mesmo morenas, como a despudorosamente bela Sívia Pfeiffer, como versão tupiniquim das novelas globais para Isabella Rosselini em Veludo Azul.

A beleza lasciva e hipnótica dos produtos e das mensagens midiáticas são desmontadas e desnudadas por Fausto. A maquinaria erótica que compõem o poder capitalista de controlar a tudo como o próprio Fausto mitológico, se encontra em seus versos construindo um ambiente decadente de uma Copacabana ao mesmo tempo real e imaginária, na qual os desejos mais sujos podem e são materializados através do dinheiro.

Como na lenda, tocado por mefistófeles, progresso e poder corrompem o espírito humano, fazendo-o desejar além de todo limite moral. Se há algum problema nisso? Para a música de Fausto, não, trata-se apenas de dar vazão e ficar atento a fúria das ruas, aos sons de Madonna, às propagandas de eletrodomésticos, às prostitutas high-tech que os incontáveis fluxos de bits transmitem a cada nano-segundo por uma atmosfera cada vez mais virtual.


SILVIA PFEIFFER








SILVIA PFEIFFER
Copacabana
Foi transformada num super gueto de capitalismo exacerbado.
Um território, paralelo à Sarney e à Teófilo Moreira,
Um vácuo financeiro e industrial dominado por gigantescas empresas transnacionais,
Gigantescas empresas armamentistas brasileiras.
Copacabana está repleta de telões, passando gigantescas imagens de tudo.
Os habitantes do super gueto capitalista, no meio da vertigem audiovisual,
Costumam concentrar seu olhar no maior telão do mundo,
Onde passam ininterruptas imagens da mais bela e sofisticada das manequins, a manequim número um:
Silvia Pfeiffer.
E o que sentem os habitantes de um super-gueto capitalista?
De tanto ver o mundo ser transformado em imagem,
De tanto ver a vida ser transformada em show de realidade patrocinada,
Eles já não sabem o que é, e o que não é real.
Não sabem se os seus sentimentos são seus mesmos
Ou se são ficção de personalidade.
Bombardeados pelo delírio das ficções comerciais e não comerciais,
Eles vivem envolvidos com mundos que só existem no desejo.
Para eles, o invisível já é uma coisa muito vulgar, o transcendental já é algo tão banal,
Devido às excessivas fotos, vídeos, filmes,
Sobre a anti-matéria, sobre os espectros microscópicos,
Devido às excessivas imagens divulgadoras do invisível.
E quando o invisível já é uma coisa muito vulgar, quando o transcendental já é algo tão banal,
Que emoção espiritual resta para os habitantes de um super gueto capitalista,
Cujos olhos estão magnetizados pela excessiva presença de gigantescos televisores?
A ultima emoção espiritual, é a fascinação.
Fascinação por imagens cada vez mais artificiais,
Imagens que os façam pensar em mundos não humanos, em universos paralelos.
E quem são as heroínas dessa fascinação espiritual?
As manequins das revistas de moda mais sofisticadas.
Incorpóreas ladies, garotas de fisionomia etérea, mestras da sedução calculada.
No meio da vertigem audio-visual, os habitantes de um super gueto capitalista
Costumam concentrar seu olhar no rosto da mais bela e sofisticada das manequins:
A manequim número um.
Mundos não humanos,
Universos paralelos,
Fascinação espiritual,
Mundos que só existem no desejo.
Sílvia
Pfeiffer


Nenhum comentário:

Postar um comentário