quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

PLANETA TERRA 2010: ou a geração Y agora faz as regras.

Apresentação circense do Of Montreal. Bem no clima do Teatro Mágico. Por sinal, só faltaram eles por lá...


Estive presente ao Festival Planeta Terra, São Paulo, em 2009 e 2010. 
Considero um momento interessante pra curtir várias bandas com relativa projeção e algumas que curto bastante.


Aproveito para divulgar uma análise bacana sobre o evento do ano passado. Menos pelo evento em si, mais pela identificação de algumas tendências fortes que o pop-rock e seu público tem apresentado recentemente e que grande festivais, como o Planeta Terra, reproduzem.


Na minha opinião, Vladimir Cunha pegou o "espírito do tempo" da coisa. Além de tudo, o Terra foi um laboratório das tendências do pop no final desta primeira década.


Sinto uma estranheza, um desconforto, as coisas estão adolescentes demais, ou pior, infantis demais, mas são o que são. E eu estou envelhecendo. Deveria estar em casa vendo Tv a cabo ao invés de ir pra festivais de rock?...

Por outro lado, pensando bem, que venha o saudosismo do rei Leão, Pequena Sereia e... Harry Potter nos PlayCenter da vida! 

Antes tudo isso que "Ô Alaíde!", "Vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa não" e a banda mais "massa" de todos os tempos, Bikini Cavadão (quem foi ao último Reveillon em Fortaleza viu como é fácil enganar um público, hã, digamos, pouco exigente)

Ou estarei enganado e será que já não está tudo no mesmo saco pra geração Y (Ou, geração Danoninho, aquele que vale por um bifinho)?

Serão necessárias mais observações de campo? 
Com certeza! Estarei lá em 2011 pra ver Ladytron e Strokes (minhas apostas pro frontline) hehehe

fonte: AQUI


Hip-Hip-Hipster


Vladimir Cunha


Se você tem mais de 30 anos você aprendeu a segmentar informação. Rock é rock, pop é pop, bicha é bicha. É o que separa você, que cresceu nos anos 70 e 80, da tal Geração Y, que floresceu sob uma nuvem de consumo pleno e saturação sensorial. E é, ao mesmo tempo, a glória e a ruína de quem tem 20 e poucos anos em 2010.
Porque faz todo o sentido que o cantor Mika tenha feito um dos melhores shows do Planeta Terra 2010 e que, justo ele, represente o que a música desse começo de milênio tem de mais descartável, confusa e (porque não?) fascinante.
Ele prova que qualquer convicção ideológica ou artística pode ser minada por uma pós-modernidade turbinada, capaz de permitir que fragmentos diversos de cultura pop possam ser usados e recombinados em nome da diversão. A reação é instintiva e não cerebral, talvez porque um show como esse aborte qualquer tipo de reflexão ou porque não exista mais espaço para a reflexão nos anos 00. Mika é Glee e Elton John, é Fred Mercury e Donna Summer, um musical da Broadway itinerante, pansexual e chapado para fãs saudosistas de O Rei Leão e A Pequena Sereia.
A figura do cantor libanês é o ponto onde se encontram todos os aspectos da cultura gay que, aqui e ali, permaneciam dispersos nas horas iniciais do Planeta Terra. O homossexualismo infantilizado do Of Montreal, a platéia obcecada por moda, os signos e dress-codes que remetem às festas hipster do Glória e aos bares mais tolerantes do Baixo Augusta. Ainda assim, a informação aqui não é mais segmentada, pois todos nós aceitamos que Mika possa ser rock, disco, gay, hétero, animação da Disney e pornografia softcore.
Só que, por mais que a sua alegria sinceramente alienada seja cativante, ninguém usaria uma camiseta com a cara de Mika ou de Thomas Mars estampada, muito embora garotos ostentando com orgulho camisetas de Kurt Cobain e Axl Rose ainda possam ser encontrados aos montes por aí. Mesmo que Mika saiba como comandar uma multidão e que Mars tenha se jogado em um crowd surfing digno dos anos de glória de Eddie Veder, quando todos nós éramos grunges, machistas e cheios de testosterona e problemas de auto-afirmação.
É quando fica claro pra mim que a música pop pode ter se tornado mais gregária e menos individualista, mais orientada para a celebração coletiva do que para o culto à figura do artista como o centro do espetáculo. Não à toa, os dois grandes fiascos musicais do ano – Los Hermanos no SWU e Smashing Pumpkins no Terra – surgiram justamente desse modelo, dessa proposta auto-indulgente de distanciamento do público e pouco caso com as regras da nova música pop.
Pois no mundo não há mais espaço para os solos de bateria do Smashing Pumpkins e nem para que Billy Corgan saia do armário e assuma que sempre foi um metaleiro enrustido. Melhor fez Stephen Malkmus, que entendeu o espírito da coisa e caiu na farra, tocando todos os hits que os fãs queriam que ele tocasse sem se importar com o fato de que há 11 anos a sua banda não lança uma música inédita.
Não se trata de pedir que o rock seja enterrado de uma vez por todas. O nó cultural ultra-pós-moderno do Planeta Terra tornou-se tão difícil de desatar que até os vovozinhos indies do Pavement se jogaram na pista ao invés de ficar em um canto da sala olhando a molecada se divertir. A diferença é que, ao contrário de Billy Corgan, eles eliminaram a tensão estática que separa a sua geração da geração que foi em massa ao festival no último sábado. Numa seqüência que começou com o som avant-garde do Hurtmold e se completou com Of Montreal, Phoenix, Mika e Pavement, “querer rock” não significava mais do que um gesto caricato, como o forrozeiro Zenilton em sua atrapalhada intervenção em Puteiro em João Pessoa. Segmentar informação pode servir como ferramenta saudosista ou processo de auto-afirmação. Por outro lado, cogitar todas as possibilidades pode ser a única maneira de sobreviver ao futuro.


Momento representativo do zeitgeist desse início de século


O que foi ignorado (ou ultrapassado). Sequer encontrei um vídeo decente da apresentação dos senhores do HOT CHIP no YouTube!




Agradecimento ao amigo Lenildo pelo envio do texto de Vladimir Cunha.

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