domingo, 20 de fevereiro de 2011

MST, mídia e opinião pública: porque não veremos a reforma agrária no Brasil pela TV


Como professor na universidade de uma cadeira que trabalha com a temática dos Movimentos Sociais abordados a partir da sociologia é fundamental uma discussão a respeito do Movimento Social Sem Terra. Frequentemente deparo-me no geral, com as referências espontâneas trazidas pelos meus alunos repletas de muita desinformação ou informação extremamente enviesada, tanto pelo registro legalista favorável à manutenção dos latifúndios, quanto pela criminalização do movimento como um todo. A partir de atos criminosos de indivíduos, a grande mídia, sobretudo a Rede Globo, generaliza o caráter criminoso a toda a massa de trabalhadores sem terra organizados do país recusando-se a abordar a temática com a mínima criticidade. E é esse tipo de informação que construiu o imaginário de suspeição em relação ao MST no país durante as últimas décadas. O texto abaixo ajuda a refletir um pouco sobre a invisibilidade imputada pelo PIG (partito da Imprensa Golpista) aos Movimentos Sociais que, contrariando todos os decretos dos editorialistas dos grandes telejornais,  não desapareceram depois da onda neoliberal e nem tão pouco se reduziram a meros protestos organizados de consumidores disso ou daquilo.
Seu título parodia o documentário "A revolução Não Será Televisionada" sobre a mobilização popular que impediu o golpe de Estado na Venezuela em abril de 2002 que, com apoio dos Estados Unidos tentou derrubar o presidente Hugo Chávez. Neste episódio, nenhuma linha sobre a intensidade e dimensão dessa mobilização ou a sobre a evidente participação dos EUA foi noticiado na grande mídia brasileira. Ou seja, quem só tem acesso à televisão ou, por costume só acessa os grandes portais de informação, ficou por fora de um movimento democrático e anti neoliberal extremamente relevante dos nosso vizinhos de cima.

Fonte: Portal do MST


No Fantástico, a Reforma Agrária não será televisionada

18 de fevereiro de 2011

Noite de 13 de fevereiro. Assistia distraidamente o Fantástico, programa de maior audiência do fim de domingo da televisão. Entre amenidades diversas, de repente começa uma matéria que duraria longos minutos com o objetivo exclusivo de  criminalizar os sem-terra.  A reportagem usou como mote o estado do Mato Grosso. Várias autoridades, como delegado de polícia e membro do Ministério Público, foram escolhidas como fontes para atacar o movimento de luta pela reforma agrária.
A partir da postura criminosa de dois ditos líderes de camponeses pegos em flagrante delito o programa tentou generalizar de forma pejorativa a postura dos sem-terra no estado. Bandidos existem em todo lugar, ou como tenta nos convencer o programa, bandidagem seria monopólio dos pobres? Imagens dos acampamentos com lona preta foram mostradas de forma a imputar ação criminosa a esses camponeses que lutam para ter um pedaço de terra.
Mato Grosso é dos estados brasileiros talvez o que concentra o maior número de latifundiários. Em 2009, o próprio presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho (APROSOJA), Glauber Silveira, revelou que 90% dos produtores do Mato Grosso estão irregulares e 50% poderão por conta disso perder as terras.
Além disso, o Brasil é o único país de dimensões continentais que não fez a reforma agrária. O mesmo programa que tenta criminalizar os sem-terra omite a ação dos latifundiários no estado. Mais do que isso, a reportagem dá fala a fazendeiros, mas não entrevista uma liderança nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para que o telespectador possa ter uma outra visão sobre o episódio. São atitudes nada inocente como essa da grande mídia que perpetuam o poder dos latifundiários no país.
A sociedade é a grande vitima desse tipo de política responsável pelo inchaço nas grandes cidades. Além disso, os grandes fazendeiros praticam a monocultura voltada para exportação. Propriedade de poucas famílias, os latifúndios pouco têm a oferecer ao país.
Já a reforma agrária, prevista na Constituição Federal, assentaria milhares de famílias no campo. Poderiam, com apoio dos governos, aumentar em muito a produção de alimentos. Hoje já são responsáveis por mais da metade dos alimentos que frequentam diariamente a mesa dos brasileiros.
A mídia deveria entrar em nossos lares para explicar o que é o latifúndio e a reforma agrária. Infelizmente, o que nós assistimos na telinha da Globo e de todas as emissoras comerciais são ataques ferozes ao que lutam por uma sociedade justa e igualitária, como fazem os trabalhadores sem-terra. Sem a necessária e urgente democratização dos meios de comunicação, a reforma agrária não será televisionada!
Por Emanuel Cancella, diretor do Sindipetro-RJ

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