sábado, 12 de fevereiro de 2011

Nascido Rico (Born Rich) - 2003

Há pouco escrevi aqui sobre o documentário "Um Lugar ao Sol" de Gabriel Mascaro, no qual, de forma rara, uma pequena parte do imaginário dos ricos brasileiros que moram em coberturas luxuosas é revelado através de um discurso absolutamente estranho ao universo das pessoas, hã... digamos assim... não tão afortunadas ou "abençoadas por Deus" (pra quem crê que Ele é que manda a riqueza). 
Um outro documentário, esse mais antigo, também toca frontalmente o imaginário dos aviltantemente ricos, Born Rich (Nascido Rico), de 2003. Mais impressionante, porque feito por alguém de dentro dos círculos extremamente restritos da riqueza absoluta, e não poderia ser diferente, dado a necessidade de segurança que seus severos códigos de conduta exigem. 
O Herói, ou tolo, que quebrou os votos de confiança de seus pares para expor o que eles achavam sobre ser tão ricos sem nunca ter feito nada para merecê-lo é James Johnson, herdeiro do império Johnson & Johnson. O coitadinho só descobriu aos dez anos que era milionário porque um coleguinha de classe mostrou que o nome do pai dele estava entre os mais ricos dos Estados Unidos! Dá uma pena.
Bem, uma lição: fica mais evidente de onde vem o hábito socialmente difundido de não falar sobre quanto se ganha. Vem de cima, James Johnson foi seriamente repreendido por seu grupo por ter quebrado os códigos de confiança. Alguns pararam de falar com ele, outros, até o ameaçaram fisicamente. Como disse, um herói, ou um tolo...


FONTE: Aqui

José Eduardo Barella

Fotos AP
CONSELHO INÚTILJames Johnson, de 23 anos, bisneto do fundador da Johnson & Johnson, diz que os milionários não gostam de falar do próprio dinheiro, e por isso decidiu fazer um documentário. Nesta cena de Born Rich, ele cobra do pai, James Loring Johnson, por que a família jamais discutiu o assunto e pede conselhos sobre a profissão que deveria seguir. Hesitante, o pai, que nunca trabalhou, sugere a Johnson colecionar documentos e mapas históricos.

Entre as vantagens de nascer numa família de bilionários, a que mais causa inveja é a chance de viver livre das preocupações que atormentam a maioria dos mortais – como a obrigação de trabalhar para pagar as contas ou planejar o futuro. Pelo menos essa é a impressão que se tem dessa turma do cifrão. A possibilidade de fazer o que der na telha e gastar à vontade sempre alimentou a curiosidade em torno dos hábitos dos endinheirados. Mas é sabido que os multimilionários têm ojeriza a expor detalhes de sua intimidade. Uma rara oportunidade de espiar a vida real dos nascidos em berço de ouro está em Born Rich (Rico de Nascença, em tradução livre), documentário idealizado e dirigido pelo americano Jamie Johnson, de 23 anos. Ele é bisneto do fundador da Johnson & Johnson – e, portanto, um desses ricaços. O filme consiste basicamente em entrevistas com dez jovens herdeiros de fortunas superiores a 1 bilhão de dólares nos Estados Unidos. Por estranho que pareça, a maior dificuldade do diretor foi superar o temor que os ricos têm de falar do próprio dinheiro. Johnson quebra esse tabu ao explicar didaticamente a escandalosa disputa judicial pela herança da própria família. Antes de morrer, há vinte anos, seu avô alterou o testamento, deserdou os seis filhos e transferiu seus 500 milhões de dólares para a terceira mulher – uma ex-cozinheira. No fim, um acordo na Justiça redistribuiu a dinheirama.

RIQUEZA DE MAIS INCOMODAIvanka Trump, filha do empreendedor imobiliário Donald Trump, diz que às vezes se sente incomodada por ser muito rica. O pai acumula uma fortuna de 2,5 bilhões de dólares. "As pessoas são mais exigentes comigo, ficam esperando que eu cometa algum deslize", comenta Ivanka. Modelo bissexta, ela cursa administração na conceituada Wharton School e pretende trabalhar com o pai no futuro.

Johnson revela que só percebeu que era milionário aos 10 anos de idade, quando um colega de classe viu seu sobrenome incluído na lista das 400 famílias mais ricas dos Estados Unidos. A explicação meio descabida para tanta ingenuidade é a seguinte: como só vivia entre ricaços, achava que o normal é ser endinheirado. Outro problema recorrente nas grandes fortunas parece ser o de auto-afirmação diante do enorme poder do patriarca. Georgina Bloomberg, 20 anos, diz que seu sobrenome "fede" – uma indelicadeza para quem vai herdar 4,9 bilhões de dólares do pai, o empresário Michael Bloomberg, prefeito de Nova York. Já Ivanka Trump, filha do empreendedor Donald Trump (fortuna de 2,5 bilhões de dólares), faz elogios ao "heroísmo e perseverança" do pai. Mas não consegue evitar a demagogia barata ao compará-lo aos sem-teto que dormem nas calçadas dos prédios erguidos por papai Donald: "Pelo menos eles não devem bilhões de dólares a credores". Os sem-teto certamente ficariam felizes com a troca.
Para os que acham que a vida dessa turma é só festa e gastança, saibam que nascer em berço de ouro, em alguns casos, apenas reforça a obrigação de alcançar sucesso pessoal – uma das marcas do capitalismo americano. Ou seja: não basta ser herdeiro, é preciso fazer por merecer a herança. "Minha família tem 20 bilhões de dólares, mas, se você não erguer nada com esforço próprio, não recebe um tostão", garante Samuel Irving Newhouse IV, 23 anos, herdeiro do império de comunicação Condé Nast. Há também o outro lado da moeda – os que buscam fazer algo produtivo mesmo que a família nada cobre deles. Josiah Hornblower, descendente de duas das mais tradicionais famílias americanas (Vanderbilt e Whitney), revela que sua maior experiência de vida ocorreu quando, por conta própria, interrompeu os estudos por dois anos para fazer trabalhos braçais em campos de petróleo no Texas. Na prática, os jovens herdeiros demonstram as mesmas angústias e dúvidas em relação ao futuro que qualquer pessoa de sua idade. A diferença é o saldo bancário.

REVELAÇÃO INDISCRETASamuel Irving Newhouse IV, de 23 anos, é herdeiro do império de comunicações Condé Nast, que inclui as revistas Vanity Fair, New Yorker e GQ. "Não tenho dedos suficientes nas mãos para contar o número de publicações da família", diz. No filme, ele revela um segredo doméstico: que a fortuna dos Newhouse é estimada "por baixo" em 20 bilhões de dólares, valor acima do que se imaginava. Depois, arrependeu-se do que disse. "Causei constrangimentos a minha família", desculpou-se.

O caso do próprio Johnson é ilustrativo. Por determinação do fundador do império do clã, nenhum dos herdeiros pode atuar nas empresas da família. O pai dele, James Loring Johnson, nunca trabalhou na vida e é mostrado como uma pessoa alienada, que passa o dia pintando quadros. No documentário, Loring trava uma discussão surrealista com o filho sobre a profissão que este deveria seguir – o diretor é estudante de história medieval na Universidade de Nova York. Sem muita convicção, o pai sugere que Johnson poderia colecionar documentos e mapas históricos. "As escolas de elite deveriam ensinar as pessoas ricas a ser produtivas", ironiza o diretor.
Para alívio dos curiosos, o filme não deixa de retratar o lado glamoroso e repleto de cifrões no qual os jovens bilionários vivem. As tomadas feitas nas festas regadas a champanhe em clubes privés do litoral chique dos Hamptons, perto de Nova York, servem para que os entrevistados revelem algumas de suas excentricidades – apesar do esforço visível de falar do dinheiro como se fosse algo normal. Assim, Stephanie Ercklentz, de uma família de banqueiros nova-iorquinos, admite sem pudores que tem compulsão ao consumo. Por isso, nunca namorou ninguém fora de seu círculo social. "Não suportaria que um namorado qualquer me criticasse por pagar 600 dólares por uma bolsa Gucci", explica. Há os que não conseguem esconder a arrogância. Luke Weil, herdeiro do império de jogos Autotote, conta como costumava humilhar colegas de escola que vinham do interior. "Minha família pode comprar a sua", recorda, às gargalhadas. Em seguida, revela que recebia tratamento diferenciado na universidade só pelo fato de ser rico. "Fazia o que queria, nunca estudei para passar e o diretor só me bajulava."

FORTUNA DESCONHECIDAJosiah Hornblower, de 23 anos, é descendente das famílias Vanderbilt e Whitney. Os Vanderbilt ergueram um império ferroviário no século passado. Os Whitney dão nome a vários museus. Josiah, porém, teve uma infância modesta e só descobriu que era rico aos 9 anos de idade – quando um tio o levou para um passeio por Nova York. Ao entrar no saguão da Grande Estação Central, uma construção grandiosa erguida pelo clã Vanderbilt, o tio avisou: "Tudo isto é seu".

Como era previsível, Born Rich rendeu elogios da crítica e a fúria das famílias citadas, por expor alguns de seus segredos cuidadosamente guardados. Weil tentou inutilmente barrar na Justiça a estréia do filme, no Festival Sundance, no começo do ano. Newhouse, amigo de longa data do diretor, admitiu que se arrependeu de ter participado do documentário. Johnson, por sua vez, chegou a ser ameaçado de agressão depois da estréia por um bando de mauricinhos com quem esbarrou num clube exclusivo de Nova York. Born Rich foi ao ar em outubro pela TV a cabo americana e ainda não está prevista sua exibição no Brasil. Pelo jeito, a moda pegou. Dois reality shows protagonizados por herdeiros milionários estrearam recentemente na TV americana. Um deles, Rich Girls (Garotas Ricas), é estrelado por Ally Hilfiger, 18 anos – filha do estilista Tommy Hilfiger, dono de uma fortuna de meio bilhão de dólares. A cabecinha oca Ally passa o dia torrando o dinheiro do pai em compras e destilando ironias ao lado de uma amiga. O outro, The Simple Life, tem como destaque a celebridade emergente Paris Hilton, 22 anos, herdeira de 3,8 bilhões de dólares e da rede de hotéis da família. Patricinha de carteirinha, a bela Paris vive no seriado as agruras de trocar o shopping pela vida do campo no interior do Arkansas. Os dois reality shows apenas exaltam a imagem de futilidade e alienação que cerca esses jovens biliardários – para que os telespectadores possam rir deles.

Nenhum comentário:

Postar um comentário