quarta-feira, 30 de março de 2011

A Conferir: A MONTANHA (filme)



Filme de Vicente Ferraz faz justiça com temática tão negligenciada pelo cinema nacional, a participação, agonias, agruras e bravura dos pracinhas brasileiros da FEB na Segunda Guerra Mundial entre 1944 e 1945. O filme lança um olhar sobre a batalha de Monte Castello, e pelo teaser divulgado, nos oferecerá uma composição imagética espetacular, repleta da beleza e dignidade solene que o tema aspira. A conferir!

Quer saber mais? Link para matéria legal sobre o filme: Aqui.

Dica do meu amigo (e cientista), Doido.

Ódio + racismo + preconceito = FACISMO!


Pra quem acha que, 1º) o racismo está superado na Brasil, 2º) nosso maior problema é a eleição de políticos sem formação superior (ouço isso sempre referindo-se a Tiririca, mas já ouvi bastante em relação a Lula), 3º a cordialidade brasileira não seria afeita ao facismo, sugiro a leitura da matéria abaixo de "Vi O Mundo:  o que você não vê na mídia" sobre a "Polêmica Jair Bolsonaro". É antes de tudo, um alerta, não apenas sobre a existência de idéias facistas no Brasil, mas sua propagação e estímulo a partir de nossos próprios representantes.

fonte: Aqui

30 de março de 2011 às 15:58

A polêmica Jair Bolsonaro

Em entrevista ao programa CQC, segunda-feira à noite, o deputado federal  Jair Bolsonaro (PP-RJ), fez várias declarações polêmicas, ofensivas, que podem lhe custar até o mandato.
Ao ser perguntado sobre a hipótese de ter um filho gay, respondeu: “Isso nem passa pela minha cabeça, eu dei uma boa educação, fui pai presente, não corro esse risco.”
Questionado por que é contra as cotas raciais, disse: “Eu não entraria em um avião pilotado por um cotista nem aceitaria ser operado por um médico cotista.”
Indagado pela cantora Preta Gil sobre o que ele faria se um filho dele se apaixonasse por uma negra, respondeu: “Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados. Não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu.”
Preta Gil vai processar Bolsonaro: “Racismo é crime! E ele assume que o é!”, escreveu no Twitter, ao anunciar o processo. “Não farei somente por mim e pela minha família, que foi ofendida e caluniada por ele, mas também por todos os negros e gays deste país”.
O presidente da Ordem dos Advogados no Brasil (OAB)- seção Rio de Janeiro, Wadih Damous, oficializou  abertura imediata de processo por quebra de decoro parlamentar conta o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ). Para Damous, as declarações do deputado são inaceitavelmente ofensivas, pois tem cunho racista e homofóbico, comportamento incompatível com as tradições parlamentares brasileiras.
Também nessa terça-feira, 29, deputados protocolaram, representação para que o deputado Jair Bolsonaro seja investigado pela Corregedoria da Câmara por quebra de decoro parlamentar. Os deputados acusam Bolsonaro de ter feito comentários racistas feitos durante o programa CQC, da TV Bandeirantes, exibido na segunda-feira (28).
A representação, assinada por 20 deputados, pede ainda que Bolsonaro seja destituído da Comissão de Direitos Humanos pelo seu partido. “Não cabe uma pessoa que não defenda esses direitos atuar em uma comissão voltada para esse fim”, disse a presidente da Comissão, deputada Manuela d’Ávila (PCdoB-RS).
Íntegra da representação dos deputados contra Bolsonaro
Os parlamentares infra-assinados vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência representar contra o deputado JAIR BOLSONARO pelas razões de fato e de direito na seguinte:
REPRESENTAÇÃO DOS FATOS
Na noite de 28 de março de 2011 foi ao ar o programa da TV Bandeirantes entitulado CQC – Custe o Que Custar, no qual foi veiculada uma entrevista com o Deputado Jair Bolsonaro no quadro do CQC denominado “O povo quer saber”.  No decorrer da entrevista, o referido parlamentar, ao ser indagado pela artista e promotora Preta Gil “se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?” Eis a resposta literal do entrevistado: “ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja, eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o seu” (!).
Esta resposta caracterizada por evidente cunho racista culminava uma série de afirmações em desapreço a diversos grupos sociais e em apologia a graves violações de direitos humanos, no decorrer de toda a referida entrevista.
Na realidade tem sido recorrentes as manifestações de cunho racista proferidas pelo Sr. Jair Bolsonaro nesta Casa e fora dela, contra diversos grupos sociais e organizações defensoras de direitos humanos, dentre as quais a própria Comissão de Direitos Humanos e Minorias, da qual ele é membro suplente por designação do partido a que é filiado, o PP.
DO DIREITO
A difusão de conteúdos ideológicos por meio da mídia eletrônica é de conhecido poder de multiplicação, principalmente quando se trata de programa que conta com significativa audiência, como o CQC.  O Sr. Jair Bolsonaro ao utilizar-se de um espaço midiático para propagar atos que configuram crimes, extrapola a liberdade de expressão para ofender a dignidade, a autoestima e a imagem não só da pessoa que fez a pergunta naquele momento, mas de toda a sociedade, uma vez que os direitos e princípios constitucionais ofendidos pertencem à toda a sociedade.
A Lei 7.716, de janeiro de 1989, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, inclui, no seu Art. 20, “que praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional” é crime passível de reclusão de um a três anos e multa.
Essa Lei decorre de tratados internacionais de que o Brasil é signatário. A Constituição Cidadã é explícita ao repudiar o racismo como prática social, considerando-o como crime imprescritível e inafiançável.  O Art. 1º da Carta Magna, que define como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil “III – a dignidade da pessoa humana.”
O Art. 3º, que enumera os objetivos fundamentais da República, contempla “IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Já o Art. 4º , que estabelece os princípios pelos quais se regem as relações internacionais do país, VIII – repúdio ao terrorismo e ao racismo (…).
O Art. 5º da Constituição Cidadã, por sua vez, define que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (…). O mesmo Artº 5º, em seu Inciso XLII, prevê que “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei.
A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, com base no Recurso Especial 157805/DF, prevê que “Incitar, consoante a melhor doutrina é instigar, provocar ou estimular e o elemento subjetivo consubstancia-se em ter o agente vontade consciente dirigida a estimular a discriminação ou preconceito racial. Para a configuração do delito, sob esse prisma basta que o agente saiba que pode vir a causá-lo ou assumir o risco de produzi-lo (dolo direto ou eventual).”
Por sua vez, o Código Penal, define o crime de injúria no Art. 140, estabelecendo que se trata de injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro. O § 3º da mesma lei,estabelece que “se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência, a pena é de reclusão de um a três anos e multa.
Ante o exposto, requerem os representantes se digne V. Excelência determinar, em respeito aos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Carta Magna de 1988 e da Lei vigente, a instauração do devido procedimento contra o Deputado JAIR BOLSONARO, para que seja:
1)    Avaliada se a conduta do Deputado Jair Bolsonaro configura efetivamente a prática do crime de racismo;
2)    Determinadas providências para requisição de vídeo tape do programa CQC à TV Bandeirantes exibido na noite de 28 de março de 2011 para melhor exame do caso;
3)    Determinadas providências para requisição de transcrições de discursos do referido deputado nos quais se demonstram as práticas recorrentes de injúrias, ofensas à dignidade e incitação da discriminação e preconceitos, inclusive contra a Comissão de Direitos Humanos e Minorias;
4)    Encaminhe à Corregedoria e, posteriormente, ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar abertura de processo sobre eventual quebra de decoro parlamentar.
Brasília(DF), 29 de março de 2011
Manuela d’Ávila (PCdoB-RS) – presidenta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias
Brizola Neto (PDT-RJ)
Chico Alencar (PSol-RJ)
Domingos Dutra (PT-MA)
Édson Santos (PT-RJ)
Emiliano José (PT-BA)
Érika Kokay (PT-DF)
Fernando Ferro (PT-PE)
Ivan Valente (PSol-SP)
Jandira Feghali (PCdoB-RJ)
Jean Wyllys (PSol-RJ)
Luiz Alberto (PT-BA)
Luiz Couto (PT-PB)
Marina Santanna (PT-GO)
Perpétua Almeida (PCdoB-AC)
Para apoiar a manifestação, escreva para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara: cdh@camara.gov.br
Diante da forte repercussão das declarações ao CQC, Bolsonaro alegou ter se equivocado na resposta. Disse ter entendido que a pergunta era se seu filho namorasse uma pessoa do mesmo sexo.
“Foi um mal-entendido, eu errei. Como veio uma sucessão de perguntas, eu não ouvi que era aquela pergunta, foi um equívoco. Entendi que a pergunta era se meu filho tivesse um relacionamento com gay, por isso respondi daquela forma”, disse. “Na verdade, quando eu vi a cara da Preta Gil eu respondi sem prestar atenção.”
Questionado sobre qual seria sua resposta à pergunta feita pela cantora, o deputado voltou ao ataque: “Eu responderia que aceito meu filho ter relacionamento com qualquer mulher, menos com a Preta Gil.”
Jair Bolsonaro divulgou esta nota de esclarecimento.
A respeito de minha resposta à cantora Preta Gil, veiculada no Programa CQC, da TV Bandeirantes, na noite do dia 28/03/2011, são oportunos alguns esclarecimentos.
A resposta dada deve-se a errado entendimento da pergunta – percebida, equivocadamente, como questionamento a eventual namoro de meu filho com um gay.
Daí a resposta: “Não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu.”
Todos aqueles que assistam, integralmente, a minha participação no programa, poderão constatar que, em nenhum momento, manifestei qualquer expressão de racismo. Ao responder por que sou contra cotas raciais, afirmei ser contrário a qualquer cota e justifiquei explicando que não viajaria em um avião pilotado por cotista nem gostaria de ser operado por médico cotista, sem me referir a cor.
O próprio apresentador, Marcelo Tas, ao comentar a entrevista, manifestou-se no sentido de que eu não deveria ter entendido a pergunta, o que realmente aconteceu.
Reitero que não sou apologista do homossexualismo, por entender que tal prática não seja motivo de orgulho. Entretanto, não sou homofóbico e respeito as posições de cada um; com relação ao racismo, meus inúmeros amigos e funcionários afrodescendentes podem responder por mim.
Atenciosamente
JAIR BOLSONARO
Aqui, está o vídeo. Avalie você mesmo as declarações de Bolsonaro.



domingo, 27 de março de 2011

Let's Rock? The Heavy


Final de tarde de domingo. Preguiça, uma banda de rock britânica e duas palavras sobre ela: Impressionante e ouça!





sábado, 26 de março de 2011

Doces Bárbaros: uma lembrança, uma homenagem






No início dos anos 1970 Caetano, Gil, Gal e Maria Bethânia, por inspiração desta, se reuniram em torno do que chamaríamos hoje de "projeto" Doces Bárbaros. 
Envolvidos num clima celebrativo pelos 10 anos de carreira do grupo, o "projeto" resultou em um dos shows antológicos da música brasileira, além do disco homônimo de 1976, considerado uma das obras primas de nossa música.


Anárquico, intenso, sensível, doce, orgiástico, bárbaro! Não tem jeito, assumo, minha alma é tropicalista! Por falar em tropicalismo, pensando um pouco sobre, acho que uma boa metáfora pra ele é o Big Bang, sua força avassaladora, faz mover as mais diversas e distantes galáxias até hoje, além de ter produzido um indefectível "ruído de fundo", que está em tudo, onde menos se suspeita.


Me lembro de uma tarde qualquer de sábado onde vi pela primeira vez o show na TV, deitando no chão, com um céu azul de amaralina (como diria Caetano) pela janela e muitos sonhos na cabeça.


Só posso dizer que naquela tarde queria me transportar para aquele momento, sabia que estava, definitivamente, fora do tempo.


Hoje, uma manhã ensolarada de sábado, uma homenagem há tantas coisas que a percepção e passagem do tempo e alguns (bons) sons podem fazer pela gente em um sábado de um 26 de março...
Curtam!

Os Mais Doces Bárbaros

Doces Barbaros

Composição : Caetano Veloso
Com amor no coração
Preparamos a invasão
Cheios de felicidade
Entramos na cidade amada
Peixe Espada, peixe luz
Doce bárbaro Jesus
Sabe bem quem né otário
Peixe do aquário nada
Alto astral, altas transas, lindas canções
Afoxés, astronaves, aves, cordões
Avançando através dos grossos portões
Nossos planos são muito bons
Com a espada de Ogum
E a benção de Olorum
Como um raio de Iansã
Rasgamos a manhã vermelha
Tudo ainda é tal e qual
E no entanto nada igual
Nós cantamos de verdade
E é sempre outra cidade velha
Alto astral, altas transas, lindas canções
Afoxés, astronaves, aves, cordões
Avançando através dos grossos portões
Nossos planos são muito bons.








terça-feira, 22 de março de 2011

Pessoal do Ceará 3: Montage e o Jardim das Horas (ex Quarto das Cinzas)



Uma brincadeira com o título da primeira geração de artistas cearenses que ganharam o mass media brasileiro a partir do Rio e São Paulo na década de 1970. Agora é a vez de uma nova geração conquistar outros brasis a partir de outras mídias.





segunda-feira, 21 de março de 2011

Let's Rock? Kings of Leon (Only By The Night/ 2008)


Stone Rock de primeira, Kings of Leon pra fechar o dia!



Poesia 17: Nua

Eva Green - Dreamers


NUA

Era a noite mais escura,
E era sonho a matéria em minhas mãos.
Talvez fosse a maior escuridão já existente,
Onde só tua brancura nua
Poderia nos salvar,
Poderia nos perder.
Onde só o caminho reto apontado pelos teus peitos,
Seguia ao lugar até hoje nenhum,
De minha vida sem volta.
Cascatas de desejos antigos meus dedos tocam,
E toda uma vida de espera explode,
Em turbilhões de fragmentos e cores.
Dolentemente sussurrando brisas de prazer e dor,
Pois de tão além do narrável,
Nada se habilita a tocar,
Suas matas encrespadas, alvas
Curvas, reentrâncias
Cavidades e espaços.
Nada se habilitava, pois onde o desvairo espreita,
Numa noite desesperada,
Ouve-se um grito final.

                                                          Vancarder

2001 Uma Odisséia no Espaço: Danúbio Azul - duas leituras



Cá estou de volta, com o icônico, 2001 - Uma Odisséia No Espaço. Agora, pra rever a cena da acoplagem na estação espacial ao som de Danúbio Azul, de Johann Strauss. Impressionante? Com absoluta certeza, não menos do que isso! De plasticidade, ritmo, luzes e sons ímpares, a cena garantiu um espaço permanente junto as grandes cenas da história do cinema. Arriscaria como fã, a colocá-la quase como um arquétipo, no imaginário áudio-visual de nossa era. Tanto o é, que mereceu um releitura e "homenagem" de Matt Groening nos Simpsons hehehe... esse sujeito é do ramo. Curtam!


Link para a versão original (infelizmente desabilitado para incorporação): 2001 Space Odissey


De Quando se Escrevia Cartas 2: novamente Caio Fernando Abreu


A propósito de um outro texto Sobre o tema (AQUI), retomo algumas reflexões sobre os tempos de escrita rápida no MSN. De ideias fluindo em micro compartimentos de sentido, latas de sardinha da palavra, dando vazão a urgência de comunicação do nosso tempo líquido. Quantas pessoas online simultaneamente no MSN quatro, cinco, dez? E todas as conversas fluindo... A discussão com o namorado, o flerte com o paquera, notícias para primo distante, o aluno que tira dúvida do trabalho da faculdade, a última fofoca dos colegas, a cobrança do chefe etc. Ninguém do outro lado sabe, ou interessa saber com quantos contatos seu interlocutor tecla simultaneamente, alguns inclusive amigos comuns. É da dinâmica (ultra acelerada) dos contatos que não se veem, pois em circuitos paralelos e, mesmo assim, imbricados, de comunicação em rede. Que significa o delay nas respostas, alguém se importa? Tempo pra pensar? Muitas solicitações? Trabalhos paralelos sendo executados? Resposta do equipamento/rede? Só um incauto vindo de um tempo de cartas faria tantas considerações sobre o tempo da comunicação instantânea, ou a falta de tempo das coisas só serem, aonde eles podem ser apreciadas por um tempo mais generoso e menos dado a atropelos do digitar apressado de palavras. Porque tudo precisa ser tão corrido? Como seria Caio Fernado Abreu em tempos de MSN?... Fiquei pensando nessas coisas, e daí esse texto. Mas antes de terminar, qualquer comunicação é bem-vinda, o silêncio e a solidão são os piores e mais frios dos abismos...

Só pra ilustrar um pouco do tempo que falo, o das cartas, um trechinho da missiva que segue mais a frente: 

"E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor".

Carta ao Zézim
Caio Fernando Abreu

Porto, 22 de dezembro de 1979


Zézim,


cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tUa carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quietO e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portantO, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.

Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace ai anda”.

Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.

Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.

Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.

Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação:um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na CultUra, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.

Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/ e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.

Pausa.

Quanto a mim, te falava desses dias na praia. Pois olha, acordava às seis, sete da manhã, ia pra praia, corria uns quatro quilômetros, fazia exercícios, lá pelas dez voltava, ia cozinhar meu arroz. Comia, descansava um pouco, depois sentava e escrevia. Ficava exausto. Fiquei exausto. Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se Morangos mofados, vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra deStrawberry fields forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma — real — é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio — porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas.

Aí tomei notas, muitas notas, pra outras coisas. A cabeça ferve. Que bom, Zézim, que bom, a coisa não morreu, e é só isso que eu quero, vou pedir demissão de todos os empregos pela vida afora quando sentir que isso, a literatura, que é só o que tenho, estiver sendo ameaçada como estava, naNova.

E li. Descobri que ADORO DALTON TREVISAN. Menino, fiquei dando gritos enquanto lia A faca no coração, tem uns contos incríveis, e tão absolutamente lapidados, reduzidos ao essencial cintilante, sobretudo um, chamado "Mulher em chamas". Li quase todo o Ivan Ângelo, também gosto muito, principalmente de O verdadeiro filho da puta, mas aí o conto-título começou a me dar sono e parei. Mas ele tem um texto, ah se tem. E como. Mas o melhor que li nesses dias não foi ficção. Foi um pequeno artigo de Nirlando Beirão na última IstoÉ (do dia 19 de dezembro, please, leia), chamado "O recomeço do sonho". Li várias vezes. Na primeira, chorei de pura emoção - porque ele reabilita todas as vivências que eu tive nesta década. Claro que ele fala de uma geração inteira, mas daí saquei, meu Deus, como sou típico, como sou estereótipo da minha geração. Termina com uma alegria total: reinstaurando o sonho. É lindo demais. É atrevido demais. É novo, sadio. Deu uma luz na minha cabeça, sabe quando a coisa te ilumina? Assim como se ele formulasse o que eu, confusamente, estava apenas tateando. Leia, me diga
o que acha. Eu não me segurei e escrevi uma carta a ele dizendo isso. Não sou amigo dele, só conhecido, mas acho que a gente deve dizer.

Escrevendo, eu falo pra caralho, não é?

Aqui em casa tá bom. É sempre um grande astral, não adianta eu criticar. O astral ótimo deles independe da opinião que eu possa ter a respeito, não é fantástico? A casa tá meio em obras, Nair mandou construir uma espécie de jardim de inverno nos fundos, vai ligar com a sala. Hoje estava pUta porque o Felipe não vai mais fazer vestibular: foi reprovado novamente no 3º colegial. Minha irmã Cláudia ganhou uma Caloi 10 de Natal do noivo (Jorge, lembra?), e eu me apossei dela e hoje mesmo dei voltas incríveis pelo Menino Deus
(?). Márcia tá bonita, mais adultinha, assim com um ar meio da Mila. Zaél cozinhando, hoje faz arroz com passas para o jantar.

Povos outros, nem vi. Soube que A comunidade está em cartaz ainda e tenho granas pra receber. Amanhã acho que vou lá.

Tô tão só, Zézim. Tão eu-eu-comigo, porque o meu eu com a família é meio de raspão. Tá bom assim, não tenho mais medo nenhum de nenhuma emoção ou fantasia minha, sabe como? Os dias de solidão total na praia foram principalmente sadios.

Ocê viu a Nova? Tá lá o seu Chico, tartamudeante, e uma foto muito engraçada de toda a redação — eu com cara de "não me comprometam, não tenho nada a ver com isso". Dê uma olhada. Falar nisso, Juan passou por aqui, eu tava na praia, falou com Nair por telefone, estava descendo de um ônibus e subindo noUtro. Deixou dito que volta dia três de janeiro ou fevereiro, Nair não lembra, pra ficar uns dias. Ficará? E nada acontecerá. Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que "desse certo", caso contrário deixaria de escrever. Pode ser. Pequenas magias. Quando terminei Morangos mofados, escrevi embaixo, sem querer, "criação é coisa sagrada”. É mais ou menos o que diz o Chico no fim daquela matéria. É misterioso, sagrado, maravilhoso

Zézim, me dê notícias, muitas, e rápido. Eu não pensei que ia sentir tanta falta docê. Não sei quanto tempo ainda fico, mas vou ficando. Quero escrever mais, voltar à praia, fazer os documentos todos. Até pensei: mais adiante, quando já estivesse chegando a hora de eu voltar, você não queria vir? A gente faria o mesmo esquema de novo, voltaríamos juntos. A família te ama perdidamente, hoje pintaram até uns salseirinhos rápidos porque todo mundo queria ler a matéria do Chico ao mesmo tempo.

Let me take you down
cause I’m going to strawberry fields
nothing is real, and nothing to get hung about
strawberry fields forever
strawberry fields forever
strawberry fields forever


Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. Let me take you: I’m going to strawberry fields.

Me conta da Adélia.

E te cuida, por favor, te cuida bem. Qualquer poço mais escuro, disque 0512-33-41-97. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro. Citando Arantes, pra terminar: "Eu quero te ver com saúde I sempre de bom humor I e de boa vontade".

Um beijo do

Caio


PS — Abraço pro Nello. Pra Ana Matos, e Nino também.

(¹) Bairro de Porro Alegre onde Caio morou com os pais. (N. do E.)

Fonte: Releituras

domingo, 20 de março de 2011

Áudio Visual no Ceará: além da linha de produção fordista de mercado


Muito boa a sacada Lenildo Gomes em sua análise sobre a criação , formação e mercado cinematográfico, em especial, voltada para a realidade cearense. O autor percebe a inevitável dimensão pós-industrial da produção cinematográfica no esforço continuo (em boa medida bem sucedido) em manter viva em solos alencarinos. Em outras palavras,  a linha de montagem cinematográfica parece não ser, mesmo, a única resposta para realidade cearense de áudio-visual, apesar de ter sido tão veementemente defendida e buscada por tanto tempo (vide por exemplo a proposta inicial do Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Áudio-Visual). Não obstante, a busca de alternativas mais rizomáticas ou complexas parece ter colocado a viabilidade na ordem do dia. E isso, é seguir criando, que outra coisa poderia identificar melhor o espírito da realização fílmica?

Fonte: O Povo


Formação, criação e mercado




Lenildo Gomes
ESPECIAL PARA O POVO


A consolidação do cinema como linguagem artística na transição do século XIX para o século XX se deu em um momento crucial na afirmação (ou confirmação) do capitalismo como forma hegemônica de produção econômica, circulação de bens e construção de ideias que atuassem como forma de sustentação do próprio sistema. As consequências da Revolução Industrial e das perspectivas imperialistas advindas de tais modelos apontavam também para uma utilização da técnica (entendida aqui como maneira de concretização dos processos produtivos) como forma de multiplicação das obras de arte.


Assim, o cinema aparecia em um período onde a indústria ditava o ritmo e as formas de vida nas cidades de vários lugares do mundo. Nesse primeiro momento, vimos a primeira reflexão acerca da condição do cinema enquanto obra de arte ou produto industrial. O amadurecimento de uma linguagem cinematográfica ao longo do século XX e todas as particularidades e as especificidades advindas disso se deram em permanente tensão relacionada à reflexão aqui apontada.

Partindo da compreensão desse contexto referente ao “nascimento” do cinema, torna-se fundamental afirmar que há uma discussão pautada em vários campos de circulação de ideias e obras audiovisuais que remete ao sentido da formação audiovisual. Afinal, as ONGs, as universidades e os equipamentos públicos que promovem cursos e oficinas voltadas para formar realizadores em audiovisual, estariam vislumbrando que tipo de relação com a indústria ou o mercado de cinema, TV ou qualquer forma de produção e circulação? Noutras palavras, o que se questiona aqui é qual seria o papel da formação e como isso pode se relacionar com a pesquisa e a experimentação da linguagem.

Para que se possa refletir acerca dessas questões, no caso específico da cena na cidade de Fortaleza, torna-se importante olhar para os caminhos percorridos pelos principais espaços de formação constituídos nas duas últimas décadas. Entre meados e o fim dos anos 90, a cidade viu nascer e se consolidar três importantes alternativas para quem buscava cursos na área de cinema e audiovisual. O Instituto Dragão do Mar e a Casa Amarela Eusélio Oliveira foram responsáveis pelo surgimento de uma nova geração de realizadores e pessoas ligadas ao campo da comunicação e das artes.

Tais pessoas acabaram criando ONGs que se constituíram na terceira opção de que falamos acima. Evidentemente, cada uma das opções oferecidas por essas instituições tinha uma característica e um recorte que lhe era singular. Algumas viam a formação do artista como principal caminho a ser seguido. Outras percebiam a utilização da linguagem como meio, como ideia a ser adotada com a finalidade de promover formas diferenciadas de olhar e se colocar diante das relações sociais estabelecidas. De uma forma ou de outra, a cidade despertava para um momento de intensa agitação. A partir dali, as ideias e ações no que diz respeito ao audiovisual cearense nunca mais foram as mesmas.

O Instituto Dragão do Mar acabou, os ONGs se multiplicaram, e a Casa Amarela manteve o seu percurso de formação. A partir daí, o que vimos acontecer foi um intenso crescimento na produção local. A política de editais públicos como forma de financiamento impulsionou e criou possibilidades de concretização das ideias que surgiam nesses espaços de formação. Novos realizadores foram aparecendo e, daquele grupo, oriundo principalmente do Instituto, novos projetos foram pensados e se tornaram reais, dentre eles, a Escola Pública de Audiovisual da Vila das Artes, equipamento ligado à Prefeitura Municipal de Fortaleza, e o Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Ceará (UFC), só para citar dois dos mais importantes.

Podemos apontar como principal característica comum aos cursos oferecidos pela Vila e pela UFC o recorte metodológico que prioriza, ao contrário das formações de caráter exclusivamente tecnicista, a valorização do trabalho coletivo, o constante pensar sobre a linguagem e as possibilidades narrativas, além do diálogo permanente com outras formas de manifestações artísticas. Nesse sentido, o que vimos surgir é toda uma produção onde o leque criativo entra em choque com a realização que tem como matriz as premissas da indústria e as intenções de um determinado segmento do mercado de circulação. Assim o tripé, caro ao audiovisual, que inclui formação, realização e circulação adquire outro sentido que cinde experimentação na linguagem e estética de massa.

Para Cezar Migliorin, em artigo publicado na revista eletrônica Cinetica, “o cinema industrial é pautado pela lógica da linha de montagem. Fotógrafo fotografa, diretor dirige, e assim por diante. O cinema pós-industrial se constitui com uma outra estética do set e das produtoras. Grupos e coletivos substituem as produtoras hierarquizadas, com pouca ou nenhuma separação entre os que pensam e os que executam. O que temos visto nos filmes reflete novas organizações de trabalho já distantes do modelo industrial”.

Dessa forma, tal segmento da cena audiovisual local assume o risco de procurar outros formatos de diálogo com o mercado, outras possibilidades de circulação para a sua produção e outras relações entre a técnica e a estética. Não se trata aqui de pensar numa oposição entre tais modelos ou de se imaginar uma ruptura com o mercado. A busca é por outros caminhos, outras linguagens e outras opções de fruição da criatividade. Nesse sentido, o mercado deixa de ser pensado como caminho hegemônico e assume a condição de opção para quem tenha interesse em seguir as tendências relacionadas ao cinema narrativo e ao circuito tradicional.

Fortaleza, dessa forma, alinha-se ao pensamento de outros realizadores do Brasil, localizados principalmente em Belo Horizonte, Recife, Rio e São Paulo. Há um cenário que se constrói em direção ao futuro do audiovisual. Há, essencialmente, um presente que opta pela aventura, pelo desconhecido e pelo prazer coletivo de se fazer filmes.

Lenildo Gomes é coordenador da Escola Pública de Audiovisual da Vila das Artes.