domingo, 20 de março de 2011

Áudio Visual no Ceará: além da linha de produção fordista de mercado


Muito boa a sacada Lenildo Gomes em sua análise sobre a criação , formação e mercado cinematográfico, em especial, voltada para a realidade cearense. O autor percebe a inevitável dimensão pós-industrial da produção cinematográfica no esforço continuo (em boa medida bem sucedido) em manter viva em solos alencarinos. Em outras palavras,  a linha de montagem cinematográfica parece não ser, mesmo, a única resposta para realidade cearense de áudio-visual, apesar de ter sido tão veementemente defendida e buscada por tanto tempo (vide por exemplo a proposta inicial do Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Áudio-Visual). Não obstante, a busca de alternativas mais rizomáticas ou complexas parece ter colocado a viabilidade na ordem do dia. E isso, é seguir criando, que outra coisa poderia identificar melhor o espírito da realização fílmica?

Fonte: O Povo


Formação, criação e mercado




Lenildo Gomes
ESPECIAL PARA O POVO


A consolidação do cinema como linguagem artística na transição do século XIX para o século XX se deu em um momento crucial na afirmação (ou confirmação) do capitalismo como forma hegemônica de produção econômica, circulação de bens e construção de ideias que atuassem como forma de sustentação do próprio sistema. As consequências da Revolução Industrial e das perspectivas imperialistas advindas de tais modelos apontavam também para uma utilização da técnica (entendida aqui como maneira de concretização dos processos produtivos) como forma de multiplicação das obras de arte.


Assim, o cinema aparecia em um período onde a indústria ditava o ritmo e as formas de vida nas cidades de vários lugares do mundo. Nesse primeiro momento, vimos a primeira reflexão acerca da condição do cinema enquanto obra de arte ou produto industrial. O amadurecimento de uma linguagem cinematográfica ao longo do século XX e todas as particularidades e as especificidades advindas disso se deram em permanente tensão relacionada à reflexão aqui apontada.

Partindo da compreensão desse contexto referente ao “nascimento” do cinema, torna-se fundamental afirmar que há uma discussão pautada em vários campos de circulação de ideias e obras audiovisuais que remete ao sentido da formação audiovisual. Afinal, as ONGs, as universidades e os equipamentos públicos que promovem cursos e oficinas voltadas para formar realizadores em audiovisual, estariam vislumbrando que tipo de relação com a indústria ou o mercado de cinema, TV ou qualquer forma de produção e circulação? Noutras palavras, o que se questiona aqui é qual seria o papel da formação e como isso pode se relacionar com a pesquisa e a experimentação da linguagem.

Para que se possa refletir acerca dessas questões, no caso específico da cena na cidade de Fortaleza, torna-se importante olhar para os caminhos percorridos pelos principais espaços de formação constituídos nas duas últimas décadas. Entre meados e o fim dos anos 90, a cidade viu nascer e se consolidar três importantes alternativas para quem buscava cursos na área de cinema e audiovisual. O Instituto Dragão do Mar e a Casa Amarela Eusélio Oliveira foram responsáveis pelo surgimento de uma nova geração de realizadores e pessoas ligadas ao campo da comunicação e das artes.

Tais pessoas acabaram criando ONGs que se constituíram na terceira opção de que falamos acima. Evidentemente, cada uma das opções oferecidas por essas instituições tinha uma característica e um recorte que lhe era singular. Algumas viam a formação do artista como principal caminho a ser seguido. Outras percebiam a utilização da linguagem como meio, como ideia a ser adotada com a finalidade de promover formas diferenciadas de olhar e se colocar diante das relações sociais estabelecidas. De uma forma ou de outra, a cidade despertava para um momento de intensa agitação. A partir dali, as ideias e ações no que diz respeito ao audiovisual cearense nunca mais foram as mesmas.

O Instituto Dragão do Mar acabou, os ONGs se multiplicaram, e a Casa Amarela manteve o seu percurso de formação. A partir daí, o que vimos acontecer foi um intenso crescimento na produção local. A política de editais públicos como forma de financiamento impulsionou e criou possibilidades de concretização das ideias que surgiam nesses espaços de formação. Novos realizadores foram aparecendo e, daquele grupo, oriundo principalmente do Instituto, novos projetos foram pensados e se tornaram reais, dentre eles, a Escola Pública de Audiovisual da Vila das Artes, equipamento ligado à Prefeitura Municipal de Fortaleza, e o Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Ceará (UFC), só para citar dois dos mais importantes.

Podemos apontar como principal característica comum aos cursos oferecidos pela Vila e pela UFC o recorte metodológico que prioriza, ao contrário das formações de caráter exclusivamente tecnicista, a valorização do trabalho coletivo, o constante pensar sobre a linguagem e as possibilidades narrativas, além do diálogo permanente com outras formas de manifestações artísticas. Nesse sentido, o que vimos surgir é toda uma produção onde o leque criativo entra em choque com a realização que tem como matriz as premissas da indústria e as intenções de um determinado segmento do mercado de circulação. Assim o tripé, caro ao audiovisual, que inclui formação, realização e circulação adquire outro sentido que cinde experimentação na linguagem e estética de massa.

Para Cezar Migliorin, em artigo publicado na revista eletrônica Cinetica, “o cinema industrial é pautado pela lógica da linha de montagem. Fotógrafo fotografa, diretor dirige, e assim por diante. O cinema pós-industrial se constitui com uma outra estética do set e das produtoras. Grupos e coletivos substituem as produtoras hierarquizadas, com pouca ou nenhuma separação entre os que pensam e os que executam. O que temos visto nos filmes reflete novas organizações de trabalho já distantes do modelo industrial”.

Dessa forma, tal segmento da cena audiovisual local assume o risco de procurar outros formatos de diálogo com o mercado, outras possibilidades de circulação para a sua produção e outras relações entre a técnica e a estética. Não se trata aqui de pensar numa oposição entre tais modelos ou de se imaginar uma ruptura com o mercado. A busca é por outros caminhos, outras linguagens e outras opções de fruição da criatividade. Nesse sentido, o mercado deixa de ser pensado como caminho hegemônico e assume a condição de opção para quem tenha interesse em seguir as tendências relacionadas ao cinema narrativo e ao circuito tradicional.

Fortaleza, dessa forma, alinha-se ao pensamento de outros realizadores do Brasil, localizados principalmente em Belo Horizonte, Recife, Rio e São Paulo. Há um cenário que se constrói em direção ao futuro do audiovisual. Há, essencialmente, um presente que opta pela aventura, pelo desconhecido e pelo prazer coletivo de se fazer filmes.

Lenildo Gomes é coordenador da Escola Pública de Audiovisual da Vila das Artes.

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