sábado, 16 de abril de 2011

Das Vantagens de Ser Bobo - Clarice Lispector

Cow with Sunshade. Chagall, 1946


Sou um bobo, vi esse texto de Clarice Lispector nessa madrugada e tirei todos os resquícios de dúvida que podia ainda ter sobre essa condição.


Uma das desvantagens de um dia na vida, mesmo que de soslaio, ter ousado pensar em escrever é saber que existem Clarices, que parecem já ter escrito tudo e tão bem! No máximo, posso fazer uma colagem de divagações costuradas pelo raso do conteúdo e pela inépcia da forma. Além, tagarelar um montão de coisas óbvias.


Mas voltando ao sentimento (e certeza) de ser bobo, lembrei imediatamente do "Vencedor" dos Los Hermanos. Mas pensei, por que me identificava com aquela música? Lá a letra diz "eu que já não quero mais, ser um vencedor...". A questão é: nunca quis ser um vencedor, por isso não arrisquei mais, não tentei mais, não e não tanta coisa mais... por que? Porque sou um bobo! 
Bobos vivem cem anos e não sofrem do coração, diz Clarice, parece ser verdade. 


Só sofrem com sua condição quando  olham pra si e se percebem, inexoravelmente... bobos, isso ela não não notou.


Ela diz que os bobos, como Chagall colocam vacas no espaço, claro, bobos vivem no espaço, por isso se alimentam da sorte, do que a maré traz à praia. Quando os espertos levam o que ele, como bobo, achava que lhe seria destinado, ele não não entende, pois não consegue ver os espertos como espertos, ao contrário destes que identificam o bobo com o faro, a milhas de distância.


Existem dois tipos de pessoas no mundo, os predadores e os bobos, ou, como diria H.G. Wells, os Morlocks e os Ellois.


Uns terão tudo o que querem a hora que querem, mesmo que vivendo pouco, outros viverão mais, parecerão mais jovens, colocarão vacas no espaço como Chagall (que algum esperto venderá num leilão e ficará ainda mais rico). 


A grande vantagem de ser bobo é sê-lo sem a consciência de si. A sorte e o azar do bobo é fazer todas as coisas por amor e pensar mundos possíveis numa possibilidade muito particular e acreditar no sonho que pode voar sobre as casas, como a vaca de Chagall.


Aos que se sabem bobos, pensemos nas vantagens, sempre.




DAS VANTAGENS DE SER BOBO




                                                                                                Clarice Lispector




O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. 

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. 

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. 

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" 

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! 

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

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