sexta-feira, 1 de abril de 2011

Fraude Acadêmica em tempos de Google: existe um limite?



Quando dava aulas numa recém criada faculdade particular em Fortaleza uma parte (pequena) dos professores começou a perceber e a se escandalizar com o crescente número de papers de disciplinas, e mesmo Trabalhos de Conclusão de Curso com graus variados de plágio oriundo da internet. Infelizmente a cultura do control-C+control-V diz mais sobre nosso tempo do que gostaria de admitir (já comentei alguma coisa nesse blog sobre as redes sociais e comunicações instantâneas via MSN e afins), tempos líquidos diria Bauman e tempos de cara lisa, onde tudo parece um amálgama confuso sem as pretensas definições de limites que outro momento passado parecia trazer. Sem nenhuma amarra, no qual tudo e qualquer informação é dada, escancarada, perscrutada como condição de pertencimento e aceitação, e nem mesmo a intimidade é resguardada, nada mais lógico do que um cultura da cópia. Compreensível, no sentido weberiano do termo? Sim. Tolerado? Nunca! Mas o que fazer com o volume crescente de papers, TCCs, dissertações e teses para serem corrigidos e avaliados? Na verdade uma avalanche que acompanha o número crescente de alunos por turma. Quanto tempo um professor e/ou avaliador precisa ficar na internet qual Sherlock Holmes cibernético para ter a consciência tranqüila que não está sendo lesado? Dilemas de tempos de Facebook. Os desdobramentos disso, o tempo dirá.


Bem, mas em tempos de cópias, coisas cada vez mais assustadoras tendem a aparecer. E o que poderia ser pior do que um pesquisador nível 1A junto ao CNPq acusado de fraudar onze artigos científicos internacionais?... Se verdade, pensem que ele deveria dar o exemplo!...


FONTE: Folha Online

31/03/2011 - 11h32

Químico da Unicamp é acusado de fraudar 11 estudos científicos


RICARDO MIOTO
DE SÃO PAULO
REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA




Uma investigação internacional apontou fraude em 11 artigos científicos de um respeitado professor titular de química da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
Tudo indica que se trata da denúncia mais séria de má conduta científica da história da ciência brasileira, apesar da escassez de levantamentos sobre o tema. Em geral, os casos envolvem plágio, e não invenção de resultados.
Os trabalhos que conteriam fraude saíram em várias revistas científicas da Elsevier, multinacional que é a maior editora de periódicos acadêmicos do mundo.
Os estudos da Unicamp foram retratados (ou seja, "despublicados", não tendo mais validade para a comunidade científica). A Elsevier afirmou que os sinais de manipulação são "conclusivos".
Claudio Airoldi, de 68 anos, é um dos pesquisadores mais experientes da Unicamp: está na universidade paulista desde 1968.


NO TOPO


Na classificação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, principal órgão federal a financiar ciência no país), ele é bolsista de produtividade nível 1A, o mais elevado, e membro da Academia Brasileira de Ciências. É o associado nº 17 da Sociedade Brasileira de Química.
Airoldi teria falsificado imagens de ressonância magnética que servem para estudar características de novas moléculas. Um dos artigos dizia que uma delas delas, por exemplo, tinha uma estrutura que serviria para absorver metais tóxicos da água.
Os trabalhos foram publicados entre 2008 e 2010 em colaboração com um aluno de pós-graduação, Denis Guerra, hoje professor adjunto na Universidade Federal de Mato Grosso.
A Elsevier diz que o procedimento de investigação envolveu três cientistas revisores independentes, e que todos eles concluíram que "estava claro que os resultados tinham sido manipulados". A editora diz ter pedido e recebido uma defesa dos cientistas brasileiros, mas, segundo ela, o material enviado não prova nada.
"Estava previsto que algo assim ia acontecer. Ia ser muito difícil segurar isso porque a pressão para publicar é muito grande e existe leniência em relação a esse comportamento", diz Sílvio Salinas, físico da USP que segue de perto os casos de má conduta científica no país.
De fato, diferentemente dos Estados Unidos, que contam com uma agência federal para investigar casos assim, o Brasil deixa o acompanhamento dos casos e possíveis punições nas mãos das instituições onde ocorrem.
Não existem estatísticas consolidadas sobre o tema por aqui. Mas, num clima de competição científica acirrada e globalizada, com pesquisadores cada vez mais pressionados para mostrar sua produção em números, mais casos são esperados.
Nos próprios EUA, em 16 anos as fraudes científicas cresceram 161%. Em países como China e Brasil, onde a publicação bruta de artigos científicos tem crescido muito sem que a qualidade acompanhe esse ritmo, o fenômeno deve aparecer mais.
"As universidades e as agências de fomento precisam tomar providências quanto a isso. Nunca tinha tido conhecimento sobre algo dessa dimensão no Brasil. A ordem de grandeza é similar a casos de fraude que ocorrem na China", diz Salinas.
A Unicamp instaurou uma sindicância interna para apurar o caso. Segundo a universidade, ela deve ser concluída em 30 dias.


OUTRO LADO


Procurado pela Folha, Airoldi desligou o telefone assim que a reportagem se apresentou, dizendo não ter tempo para falar. Ele foi contatado também por e-mail, mas não respondeu até o fechamento desta edição.
Guerra disse já ter entrado em contato com a Elsevier. "Mandamos toda uma defesa dos trabalhos, apresentando provas de que as imagens são verdadeiras, mas não recebemos nenhuma posição."
Ele diz que a retratação da Elsevier "incomoda seriamente". "Pode acontecer de você nunca mais conseguir publicar um trabalho. Um editor vê uma coisa dessas e vai pensar o quê? Somos do Terceiro Mundo, a verdade é essa, sem dúvida nenhuma contra pesquisadores do Primeiro Mundo a crítica teria uma peso menor."

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