quinta-feira, 5 de maio de 2011

ONDE SONHAM AS FORMIGAS VERDES (Where The Green Ants Dream) (1984)



Revi outro dia o filme Onde Sonham as Formigas Verdes (Wo Die Grunen Ameisen Traumen, 1984) do diretor alemão Werner Herzog. Apresentei-o para minha turma da disciplina de Antropologia Cultural na Universidade. Mesmo como atividade curricular e já sem a sensação de descoberta da primeira vez o filme me surpreendeu e emocionou. Sensação que acho, acontecerá sempre que vir o filmes de Herzog, seja Fitzcarraldo, Aguirre, Nosferatu, Kaspar Hauser... Bem, estou muito longe de ter visto todos os seus filmes, estes são apenas alguns dos mais vistos e comentados de sua vasta filmografia. Em parte também, a emoção se deu por estar mostrando-o pela primeira vez para um grupo de alunos em torno dos seus vinte e poucos anos, e que nunca ouviram falar de Herzog. Pela possibilidade das muitas apreensões de sentido que a experiência pode render, pelo menos, para alguns poucos. O que já é um alento.
Pra quem não o viu, Onde Sonham as Formigas Verdes, narra o envolvimento sob forma de choque, entre os interesses contrários de uma companhia mineradora e um grupo de aborígenes australianos. A empresa pretende escavar as terras tomadas por sagradas pelos nativos. Para estes, mais do que um ermo árido, estas terras seriam o “lar” das formigas verdes com suas centenas de formigueiros gigantes subterrâneos e local onde estas “sonhariam”, garantindo a permanência do mundo. Evidentemente, o cálculo frio e o pragmatismo programático moldados pela nossa razão se encontram longe de sensibilizar-se com a cosmonarrativa do mundo da qual as formigas verdes são parte fundamental.
Difícil não se render a uma lágrima pelo que nos tornamos, pela percepção da quase absoluta falta de meios para nos educarmos para a sensibilidade, para o outro, para as coisas do mundo que fazem alguma diferença, além de todo relógio, além de toda correria, de tudo que a última moda nos coloca referência sobre o mundo. Mundo este, árido, sem poesia.
Coisas que estão por ai a milhares de anos, a solidariedade, o sonho, a sensibilidade de ouvir o mundo. Se tomada como uma metáfora, o sonho das formigas verdes seria algum sonho não modelado por padrões sejam burgueses, consumistas, românticos, científicos e, porque não, religiosos. O sonho das formigas verdes estaria na aurora da humanidade, e guardaria algo de precioso que nossos sistemas de explicação do amor, da vida, das coisas, do além não seriam capazes de alcançar por absoluta falta de capacidade de sentir, menos do que controlar e explicar.
Acho que a lágrima pelo fim das formigas verdes é uma lágrima pela perda de um caminho que sequer sabermos mais se existiu. O sonho das formigas verdes fala sobre um tipo de amor, de doação, de paz. E sobre o como a humanidade perdeu-se calculando a velocidade do distanciamento das galáxias mais distantes no universo, motivo da conversa do geólogo Harckert Lance com um dos anciãos da tribo... _ pura besteira tudo isso! Disse este ao geólogo.
Estamos condenados a viver no Tempo que nós próprios criamos. É preciso correr, fazer coisas, pois a vida, inexoravelmente, passa e nada volta.

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