terça-feira, 5 de julho de 2011

Trainspotting (1996)


"Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família.
Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadoras, carros, CD players e abridores de latas elétricos.
Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário.
Escolha uma hipoteca a juros fixos. Escolha sua primeira casa.
Escolha seus amigos. Escolha roupas esporte e malas combinando.
Escolha um terno numa variedade de tecidos.
Escolha fazer consertos em casa e pensar na vida domingo de manhã.
Escolha sentar-se no sofá e ficar vendo game shows chatos na TV, comendo porcaria.
Escolha apodrecer no final, beber num lar que envergonha, os filhos egoístas que pôs no mundo para substituí-lo.
Escolha o seu futuro. Escolha viver. Mas por que eu iria querer isso?
Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. E os motivos...
Não há motivos".


                                                                                    Trainspotting


Essa noite passei pelo Nerd Somos Nozes (aqui) e vi um artigo que tocava na questão das possibilidades de escolhas e de liberdade na Sociedade de Consumo. Muito Baudrillard, Morin e Adorno, claro. Deu saudade de quando esses caras realmente faziam importância e explicavam tanta coisa, ou pelo menos, traziam uma certeza que mesmo a maior incerteza trazia uma lógica possível. Era possível dormir tranquilo com a certeza da incerteza. Bons tempos, encher o saco da turma que acreditava em revolução pós-muro de Berlim.
Mas o motivo do post não é tecer uma crítica sobre o artigo citado, nem tão pouco me desdobrar em mais locubrações sobre a construção do destino em meio "À Sombra das Maiorias Silenciosas".
Me tocou sobremaneira a citação do filme Trainspotting. A sensação ao sair do cinema à época com uma ideia na cabeça, que a coisa toda tá errada e é no erro, sempre nele e por ele que seguimos, o acerto não passaria de uma ideologia, algo feito pelo locutor pra dar esperança à galera na prorrogação do segundo tempo. A ideologia do acerto é quase uma religião, e como qualquer dogma, não pode ser contestado. Interessante contrapor isso à máxima "errar é humano". Pois é, no duro, não parece.
Próximo à ideologia do acerto infinito, segue a da felicidade, também infinita, baseada fundamentalmente nas coisas listadas lá em cima pelo filme. Nossa, como nos ensinam coisas erradas! E como é fácil acreditar nos motivos. Ah, os motivos... nossos queridos motivos, nós os temos pra tudo, mesmo que, sabendo de forma inconfessável, não encontremos nada ao terminarmos de puxar a linha.
O filme de Danny Boyle, retalha tudo isso e  as várias possibilidades de percepção de uma forma crua e incisiva, com riscos precisos de uma navalha estética bem afiada em algum recanto obscuro e úmido, onde as boas intenções não costumam fazer praça. Sensação igual, só teria em 1999 com "Clube da Luta", mas ai já é uma outra história. Ou a mesma, só que diferente.

Vale a pena (re)ver! Bem como (re)ouvir a trilha sonora, tão antológica quanto demolidora.

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