domingo, 14 de agosto de 2011

Sobre Perder-se Nas Cidades



“Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução. Nesse caso, o nome das ruas deve soar para aquele que se perde como o estalar do graveto seco ao ser pisado, e as vielas do centro da cidade devem refletir as horas do dia tão nitidamente quanto um desfiladeiro. Essa arte aprendi tardiamente; ela tornou real o sonho cujos labirintos nos mata-borrões de meus cadernos foram os primeiros vestígios” (Walter Benjamin, Obras Escolhidas: Rua de Mão Única, vol. II)

Conhecer uma cidade é perder-se nela, disse certa vez Walter Benjamin. E perder-se é uma arte quase esquecida. Há GPS demais, Google Maps (e todos seus absurdos recursos de visualização de todo o entorno) demais, guias demais. Para a maioria dos viajantes hoje, a ida a um determinado local em uma cidade "estranha" já não passa da certificação de que o alvo estava onde realmente deveria estar. Assim, sem a graça de topar descuidadamente com um algo qualquer, e se permitir o perder-se poético, encantado, de Benjamin. 
A cidade se comunica, ora fala, ora sussurra, em outros momentos grita sobre o que é, ou sobre o que pretende esconder de si por conveniência. Quem sabe, para alimentar um flerte mais duradouro. Nas frases soltas de uma cidade pode ser puxado o fio de uma história ou de grandes ficções sobre si própria. Olhar diretamente nos olhos de uma cidade que se quer conhecer não é uma boa opção, assusta e o que se vê pode ser apenas um retorno ao que o próprio observador esperava encontrar, nada novo. Tento me perder nas cidades que visito pela primeira vez, ou que não minha morada. E não só geograficamente, isso é fácil! Que o diga minhas tentativas de dirigir em Recife, sempre saio milhas da rota na "cidade que não tem retornos". 
Perder-se entre os sentidos de uma cidade é um exercício difícil, me sobra medo. Mas o fazer-se em ato é um imperativo, continuarei tentando. Acredito que há uma recompensa em encontrar o que não está nos guias eletrônicos, creio que por mais que as pessoas se plastifiquem em redes e relações virtuais rasas e fugazes e se balizem por essas referências em suas vidas, a cidade que as abriga guardará uma alma que só poderá ser tocada por um tipo de magia que o Google não oferece. Basta por-se na rua, olhar e perder-se...

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