quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Saudades (Clarice Lispector)

Almeida Júnior - Saudade (1899)
Andei pensando nesses dias sobre o que move as pessoas através da vida. A muito tempo tinha parado de pensar tamanha bobagem, pois cheguei à conclusão que não há sentido algum. No final do século passado Durkheim falou que estaríamos envolvidos, enredados por uma "coisa", termo muito caro a ele, chamada sociedade e que as representações oriundas desta nos preencheria de sentido, sem as quais seriamos como sacos de batata vazios, amorfos. Desta forma, família, filhos, trabalho, uma carreira, a pátria, a fé seriam coisas pelas quais valeriam a pena viver, estimularia nossa principal justificativa social pra persistir em algo eminente natural e trágico que é viver e morrer. Viver não é mole não e sentir-se motivado a tanto exige um regime de crenças poderoso. É preciso crer em muita coisa e muita gente, até em si mesmo, o que talvez mais difícil, pois nossas vontades e desejos são inconfessáveis, daí tantas neuroses e consultórios psiquiátricos e igrejas lotados. Mas quando abandonei a noção de sentido, não me desapeguei do sentimento, talvez meu erro, ou minha fragilidade maior. Como faria um bom pós-moderno, abandonei as meta narrativas e abracei-me às pequenas coisas, às vezes micro que a vida pode oferecer. Corremos tanto em direção ao desconhecido, somos pressionados à tantas condutas modulares, à disciplina do trabalho, aos valores e metas burguesas e alienamos nossas vidas ao que a sociedade espera que sejamos. Parei pra pensar nisso tudo quando vi o texto "Saudade" de Clarice Lispector, e lembrei. Lembrei como sugere o texto não apenas de coisas boas do passado mas dos futuros possíveis, perdidos. Não sabemos aonde vamos, a vida é "real e de viés" como diz Caetano. É melhor não pensar na chegada, muito menos pensar muito durante o caminho. Ter tempo pra pensar é uma atitude subversiva por esses dias, pra ter saudade então, crime capital. O trem do futuro em direção ao abismo não paga por essas coisas.

Saudades
                                                                   Clarice Lispector



Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...



Trilha sonora: Bonifrate. Já tinha postado aqui, mas acho que combina perfeitamente com saudade: "eu ouvi da estrada uma freada de bicicleta, e me lembrei de você"

2 comentários:

  1. Chorei agorinha lendo esse texto. Lembrei também que quando vi esse quadro estávamos os três juntos.

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  2. Pois é, Beatrix, as lágrimas vem fáceis se a gente se permite parar um pouco, afinal, são tantas emoções! Lembro sempre da cena final de Blade Runner quando o replicante Roy Batty diz que viu coisas que ninguém mais verá, e logo depois fecha os olhos e silencia pra sempre... por ai, cada momento é único e insubstituível...

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