sábado, 31 de dezembro de 2011

Let's Rock? Del Rey (feat. Roberto Carlos) - Não Há Dinheiro que Pague


Encerrando o ano aqui no blog. Releitura legal de Roberto Carlos, Não Há Dinheiro que Pague,  por China e o pessoal do Del Rey. É isso, não há mais palavras...
FELIZ ANO NOVO!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Um Conto Curto Demais


Era uma manhã de sol. Linda, dia de verão. Pela sua janela, o ir vir das pessoas pela calçada parecia responder a toda essa energia. Ele lá, de sua janela observava, esperando lembrar uma ou outra frase que pensara na noite anterior. Tentava lembrar:
 - Precisava escrever. Dizia pra si mesmo.
Era claro que algo havia mudado profundamente, claro como aquele Sol, límpido como aquele “bom dia”. O interdito que o perseguia era a falta da voz, do tato, do cheiro ou mesmo da visão. As pessoas andando fazendo coisas não traziam respostas pra nada. Olhava o futuro que começava naquele dia e pensava como as coisas poderiam ser melhores.  Poderia ser mais umas das pessoas que passavam de lá pra cá, só isso! Mas, não. Era do tipo estranho, nunca se conformou. Nunca se conformaria.
O quadro do Sol, da rua e o frenesi do seu movimento lhe diziam de coisas por fazer.
Enfim, não esqueceu o ultimo encontro com ela, seu ultimo sorriso. Aquele que dizia:
  -  Não sairei dos seus pensamentos, jamais.
Sem adeus.
Num dia de Sol...
Parou de ouvir Cat Power e foi andar na calçada.

                                                                                                  Van
30.12.11

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Let's Rock? The Transatlantics



Banda australiana de funk, indie e soul. 
Dica: procure ouvi-la o mais rápido.
MySpace Transatlantics


Poesia 21: Madrugada


MADRUGADA 
 
A noite escorreu fina por entre os dedos,
Não a senti.
Como o ar,
Desvencilhou-se do toque,
Da percepção,
De mim.
Se foi,
E já é quase dia.
Nenhum sol virá
Que não tenha havido antes,
Mas essa noite não houve estrelas,
Nem calor nem frio,
Muito menos amor,
Que é coisa de gente e não da noite.
Como tudo que não teve
Também não teve pássaro a madrugada,
Que me alegrasse com uma canção.
É
A noite que escorreu fina se encarregou,
De me dar um teto,
Paredes,
Porta,
Janela
Pra se demorar.
E é quase dia, e um dia virá aos olhos.
Já é quase dia e me lembro,
Que posso esquecer do sonho que não tive.
Lembro,
E que, com o sol desse dia,
Pode vir uma nova manhã.

                                                             Van.
 
             
                                 

Let's Rock? Charlotte Gainsbourg e Beck: HEAVEN CAN WAIT

Pra fechar a noite.
Curtam!

sábado, 24 de dezembro de 2011

Bem, agora é Natal. Pra valer!

Anjos - Marc Chagall

Chegou o Natal, de novo! 
Acordei e corri pro computador escrever. 
Essa época do ano me deixam mais leso, bi-doente e mole. Enfim, sou previsível rs Nessa previsibilidade, frente ao Natal sempre me acho nos balanços e retrospectivas, Natal é floyd, libera esses maquinismos de pensamento com uma força durkheimiana, e percebo simplesmente que não consigo estar bêbado tanto tempo para superá-la. Então, uma hora os balanços me arrancam de alguma paz que pensei ter conquistado, através de um meticuloso projeto de hedonismo, e impõe as cenas, sensações, situações e emoções nas quais e pelas quais me engalfinhei nesses últimos 12 meses, a começar pelas próprias comemorações e balanços do ano passado. 
Nesse momento ouço Cidadão Instigado, e penso que não poderia haver nada mais inspirador em sua cearensidade, pra me fazer falar do meu débito de sempre para com meus amigos: cada conversa, telefonema, SMS, encontro, e-mail e, agora, até Facebook (pois é, tenho Facebook, o mundo está acabando, vocês não sabiam?) 
Todas os as solicitações desesperadas (ou nem tanto rs), generosa e prontamente atendidas: atenção, ajuda, dúvidas, medos, esclarecimentos, opinião, socorro. Só tendo amigos como vocês pude passar por tudo. Diante de tudo só posso agradecer pra sempre pela nossa amizade, e por tudo que nos une, e fazer votos que perdure e melhore pra sempre. 
Nesse momento meu desejo é o de dar um fortíssimo abraço e beijo em cada um, tomar uma cerveja gelada na praia nesse belo dia de Sol e rir horrores das narrativas da minhas últimas leseiras, mas... vocês precisavam estar espalhados por tantos Estados?! rsrs

Sei que 2011 foi pau pra muitos de nós em muitos momentos, e que muita coisa não deixará lá tantas saudades e, olhem que adoro saudades! Mas por outro lado, sei também e carregarei pra sempre o sorriso de vocês em tantas situações incríveis nas quais a vida parecia convencer-nos com toda facilidade que "navegar é preciso"...

Desejo um 2012 muito mais venturoso e feliz para todos vocês. E que "em um claro instante", num belo dia de dezembro do ano que se inicia possa, como sugere Rita Lee, lhes ligar "Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu"!

Obrigado!

"Só pra quem tem Multishow"rsrs, claro!

Do sempre de vocês,

Van.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Let's Rock? A Day In The Life - The Beatles


Para mim, A Day In The Life é a música mais linda dos Beatles. Simples, bela, trágica e cotidiana, marcante e atemporal, no que a vida tem de essencial, sobre o que somos e nos tornamos ao passar por ela. Pequenos e grandes nos detalhes, nas perdas, esperanças, pesar, amores e desamores. Uma música pra se pensar nesses dias de balanços de fim de ano. Uma música pra levar na cabeça quando pegar a estrada. Uma música pra pensar no caminho, quando as coisas não fazem muito sentido, muitas coisas ainda não encaixam mesmo o tempo tendo corrido, e você precisa chegar em algum lugar. Pra descansar a mente e o coração. E apenas, voltar a acreditar.
Resenha legal AQUI, leiam e vejam alguns aspectos da genialidade dessa música.


FELIZ NATAL!

Curtam!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Lô Borges - Um Girassol da Cor do seu Cabelo



Álbum Clube da Esquina (1972), Lô Borges: Um girassol da cor do seu cabelo.
Bonita que dá uma dor!
Adoraria ter escrito isso.
Curtam!


Vah Gogh - Os Girassóis

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Let's Rock? Sleeper (Sale of The Century)



Mais e melhores sons. Sleeper. Conheci há pouco, descobri tardiamente. Gata! O que fazer se não me apaixonar?
Curtam!


Sem Ana, Blues - Caio Fernando Abreu

Intermares, Blues
DICA DE LENILDO.
Fonte: AQUI


Quando Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.

Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ainda ver uns restos dourados e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei muito tempo parado no meio da sala do apartamento, o último bilhete de Ana nas mãos, olhando pela janela os dourados e o vermelho do céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, pergunrando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar. Podia ser o porteiro entregando alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser. Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.

Depois que Ana me deixou - não naquele momento exato em que estou ali parado, porque aquele momento exato é o momento-quando, não o momento-depois, e no momento-quando não acontece nada dentro dele, somente a ausência da Ana, igual a uma bolha de sabão redonda, luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do apartamento, e dentro dessa bolha é que estou parado também, suspenso também, mas não luminoso, ao contrário, opaco, fosco, sem brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso para trabalhar, apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de verão e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a dissolver a tinta das letras no bilhete de Ana - depois que Ana me deixou, como ia dizendo, dei para beber, como é de praxe.

De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.

O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de vodca, lágrima e café, foi mesmo o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o pequeno corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca, junto com uns restos de sanduíches que comera durante o dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.

Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito - nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vômito, misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas, que costumava perdir por telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam banalidades, como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver-sem-você, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.

Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15 Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar, então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas.

Depois que Ana me deixou, muitos meses depois, veio o ciclo das anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot, pêndulos, vidências, números e axés, ela volta, garantiam, mas ela não voltava - e veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, dos sonhos junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da humildade, com promessas à Santo Antônio, velas de sete dias, novenas de Santa Rita, donativos para as pobres criancinhas e velhinhos desamparados, e veio depois o ciclo do novo corte de cabelos, da outra armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem, Zoomp, Mister Wonderful, musculação, alongamento, yoga, natação, tai-chi, halteres, cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que permiti, então, que viesse também o ciclo dos fins de semana em Búzios, Guarajá ou Monte Verde e de repente quem sabe Carla, mulher de Vicente, tão compreensiva e madura, inesperadamente, Mariana, irmã de Vicente, transponível e natural em seu fio dental metálico, por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira como colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa carreira sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa coxa queimada de sol e o windsurf na minha musculosa coxa também queimada de sol e windsurf. Passou-se tanto tempo depois que Ana me deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi se tornando ao poucos um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Ah esse mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e sedutores interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de também ser lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e também posso ser sedutor com aquele charme todo especial de homem-quase-maduro-que-já-foi-marcado-por-um-grande-amor-perdido, embora tenha a delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca contei à ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.

Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da noite e, no horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver restos de dourados e vermelhos por trás dos edifícios de Pinheiros, enquanto recolho os inúmeros recados, convites e propostas da secretária eletrônica, sempre tenho a estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo momento - aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A gravata levemente afrouxada no pescoço, fazia e faz tanto calor que sinto o suor escorrer pelo corpo todo, descer pelo peito, pelos braços, até chegar aos pulsos e escorregar pela palma das mãos que seguram o último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com que ela compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas que não consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de qualquer jeito e sem Ana, vá em frente. Palavras que dizem coisas duras, secas, simples, arrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre. Para sempre então, agora, me sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala do apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta para levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um alfinete, para que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece o interior de um aquário, e desapareça sem deixar marcas.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Let's Rock? - Morcheeba 2

Revi essa semana um grupo que marcou minha sensibilidade musical no início da primeira década dos 2000. O trip hop lounge do Morcheeba naquele momento ajudou a construir para mim um tipo de sensibilidade musical que viria se somar, mesmo que em linhas mais distintas, aos triphop do Massive Attack e Portihead, para compor uma palheta de cores musicais que nunca mais me abandonariam como trilhas de percepção do mundo. Já havia escrito anteriormente sobre o grupo AQUI, mas a publicação do POST ANTERIOR ajudou a justificar uma revisita aqui no blog.
Ajudando na composição com o texto, segue primeiro, The Sea. Em seguida mais duas músicas bem significativas do Morcheeba: Blindfold, do álbum Big Calm de 1998 e São Paulo, do álbum Charango, 2002.
Curtam!


O MAR

Do fundo do mar

Quero falar-lhes de uma coisa que vi. Pode não ser muito, nem tão pouco perfeita, mas bela – com aquela beleza que todas as coisas que são do mundo possuem – com certeza o será, e a quero dividir. Descobri o maior segredo do mar: é que ele, de tempo em tempo, se vira numa coisa diferente e cada uma mais linda. Eu digo porque vi, tinha uma hora que ele estava cor de chumbo – dormindo – guardando todos os segredos do mundo, pesado, senhor de todas as verdades que não se vão com o dia; noutra estava azul-esverdeado, sua cor predileta (pelo que deu pra notar), quando brinca com tudo que há nele; era da cor da prata quando o sol lhe esquentava com mais força e o vento fazia-lhe encrespar os cabelos num movimento de vida no cio; e, por último, da cor d`ouro, quando sua trajetória pelo dia já estava prestes a se concluir – ele era o depositário da esperança de todos os homens da terra e nenhuma mágoa ou tristeza havia no mundo que ele não levasse. 
Guardei esse segredo até agora para poder contá-lo a alguém especial num momento especial – esse encontro! 
Amantes de coisas de Pátio Interno tremei! As maravilhas saltam aos olhos como um canguru, e é melhor ver o mundo assim, subindoedescendosubindoedescendosubindoedescendo...

Vancarder
Em algum momento de1997 ou 98 (não dá mais pra lembrar agora)

sábado, 17 de dezembro de 2011

Do profundo céu azul


O centro da cidade estava mergulhado em silêncio naquela madrugada. A rua molhada absorvia o som de seus passos. Eram muitas quadras até a coberta do ponto de ônibus no qual se protegeria da chuva fina até que o primeiro coletivo passasse, lá pelas quatro e meia. As vezes assobiava, gostava de música. Deixara o trabalho cansado, vazio. Não era filósofo, era claro. Porém, sabia o que significava sê-lo, apesar do pouco estudo. Nessa condição, pensava, e pensando deduzia: algo estava errado no mundo. E mesmo erradas, as coisas seguiam. Como ele, que seguia de qualquer jeito para o ônibus que o levaria pra casa, para o merecido e forçadamente adiado sono. Leve e profundo, tudo, menos tranquilo, antes de acordar no dia seguinte e começar tudo outra vez.
Já não era tão jovem, apesar de se acreditar com forças pra fazer coisas que muitos “mais jovens” não conseguiriam... Tinha uma garota, pensava tê-la, ou, acreditava tê-la tido. Naqueles dias de tanto cansaço, muito mais do que o normal de uma vida inteira de desassossegos, não sabia mais se o que sentia pela garota que via de vez em quando no seu bairro, ainda era ainda algum tipo de afeto. Lembra com dificuldade, em meio a tanta coisa por fazer e contas vencidas como havia parecido fácil a ideia de ter alguém em algum momento. Nesse deslumbre fugaz, também lembra, que quase enganara a realidade, acreditando que podia ser feliz.
Moravam perto, frente a frente, numa periferia distante, só lembrada dos noticiários de crimes do meio dia e das piadas de sentido duvidoso, sobre a ausência dos maridos durante o expediente, quando deixavam sós suas esposas.
Na ruela em que moravam, dessas de vilinha, naturalmente feita de dezenas de casinhas, porta e janela, longos e estreitos corredores entre muros, mal passando duas pessoas, que levavam, através de um labirinto, a mais casinhas. Lugar de meninos sem pais, no meio da rua, água escura no meio fio e uma infinidade de varais com lençóis, coarando, recém-lavados a esperar a ajuda de algum vento.
Conheceram-se nessas idas e vindas de ônibus, mesmo horário, caminhadas sem motivação, passos sem graça, rumo ao trabalho, às vezes de volta pra casa. Aos finais de semana, nas horas de sol ameno, sempre via sua garota à janela a fitar o céu, contemplativa, parecia ter no firmamento seu cinema, e nas horas mágicas da tarde, seu melhor filme. Ele também lembra que pensou um dia numa tarde de domingo: Ela parece saber de algo sobre algum tipo de mistério do mundo, um algo que ele nunca saberia, um algo que em sua vida seria sempre um vazio.
Apesar de forçar a mente, hoje o cansaço não permitia lembrar nem o quando, nem tão pouco, o como, um dia, criou coragem para falar com ela. Como não tinha assunto, perguntou-lhe sobre o que ela gostava de olhar no céu. Sua resposta o surpreendera. Ela disse-lhe que o olhava atrás de alguma resposta pra tudo, para o vazio e a dor que trazia consigo. Dizia-lhe que entendia que havia alguma mágica acontecendo quando as luzes mudavam e nuvens se transfiguravam de brancas em rosa e finalmente desapareciam rubras com os últimos raios de Sol. Também gostava das mudanças de fase da Lua. Tornava-se menina de novo, quando da Lua cheia.  Por isso, se acostumou a olhar o céu, acreditava na mudança.
Ele não acreditava em muita coisa, ficou fascinado pela narrativa da moça, juventude e leveza pra ver as cores mais simples, pra compor a realidade em detalhes fascinantes e em meio a tudo que parecia banal, fruto de algum descaso do caminhar do mundo. Apesar das diferenças conversaram ainda por muito tempo, muitos dias, suas tardes se encheram de algo mais que a previsibilidade de suas vidas poderia supor. Preencheram-se de um frescor impossível ante as impossibilidades e privações. Tornou-se leve com ela, nunca havia caminhado tão levemente para o ônibus. Nunca sentira tanto prazer em voltar do trabalho. Talvez voltar com ela no mesmo coletivo, certamente a alegria de passar em frente à sua janela.
Mas há tempos já não via sua menina, ela não mais o procurava em casa e a parada de ônibus onde costumavam se vir no mesmo horário, há muito estava vazia. Durante um tempo Foi fácil entender que, como as cores do céu, a vida muda, sua garota mudara com elas. Não estava mais lá, sua casa fechada há dias dizia da inexorabilidade das coisas, dos segredos irreveláveis, dos porões onde dormita o indizível, nos quais se forma o inconfessável,  que se junta aos mistérios que ela tanto prezava. Suas reservas eram como o céu, tão extensas quanto inexplicáveis, instransponíveis.
Deu-se conta que ao contrário de sua vida previsível de duas ou três coisas extremamente banais, quase nada sabia sobre ela. Seu silêncio durante tanto tempo agora gritava um sentido que não podia suportar. Os dias se somaram e se tornaram meses e as ausências se explicavam agora com detalhes que nunca esperara conseguir juntar em sua mente, a mecânica da mudança era autoexplicativa, não carecia das últimas palavras que ela lhe dissera entre algumas cócegas e gracejos. Era óbvio agora que falava das histórias de coisas que não participara e de uma alegria jovial impossível de conter.
Depois de tudo, fez um balanço. Da vida restaram-lhe dois empregos, as caminhadas solitárias pela madrugada para pegar o coletivo de volta, algumas músicas na cabeça, o bairro distante e umas tantas coisas interditas e agora inúteis, pairando em sua mente intranquila. Aprendera um pouco sobre esperança, e a sorrir de vez em quando, mas mesmo assim, tinha a certeza que não veria mais a garota do outro lado da rua. O pote vertera-se, fez-se finalmente o último desencontro.
Lembra que ouvia uma música que vinha de algum lugar distante quando parou de pensar sobre tudo. Let It Be... ou seria A Day in the Life...
                    


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ainda verdades sobre o Natal!

Perrusi enviou mais uma verdade contundente e desconcertante sobre o Natal.

Noooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Let's Rock - Think I'm In Love (Beck)


Não pude deixar de pensar enquanto ouvia essa música: o novo sempre vem! Bem vindo e que venha com tudo! Que seja dessas novidades que obscureçam todos os efêmeros e inúteis pesos de nossas vidas. Em 15/12/11: ou não... rsrs
Boa quarta feira.
Curtam!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Espírito de Natal: South Park

Mais um ano está chegando ao fim, chegou dezembro e nos mil e um alto falantes dos shoppings lotados toca-se "Então é natal" da Simone a todo volume.
É difícil pensar numa mensagem de natal condizente com essa decadência toda. Acho que o natal é um "lance de Jersey" universal, e estamos todos presos a ele. Diante dessa constatação básica, e enlevado pelas graças alcançadas nesse segundo ano de existência do blog... segue a mensagem do De Sons e Tempos para o natal 2011.
HOHOHO!
Curtam, se puderem!


PS: Para conferir a comemoração de natal do blog ano passado clique AQUI

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

And... "Don't forget your towel!" ;)

Towel Day - 25 Maio
Em tempo: Leminsk lembrou bem nos comentários do post anterior:


"Don't forget your towel!"

Mais genial do que isso, só mesmo o Pensador Profundo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Adeus e obrigado pelos peixes!

"Don't panic!"

Do Guia dos Mochileiros das Galáxias: "So long and thanks for all fish!".
Douglas Adams. Genial!

Let's Rock? Agora Só Falta Você - Rita Lee & Tutti Frutti (1976)

Rita Lee e Tutti Frutti

E porque a segunda feira sempre vem (e novo também - como diria Belchior em Como Nossos Pais). Começo o dia com um clássico, Agora Só Falta Você, Rita Lee & Tutti Frutti.
Acho essa fase de Rita Lee completamente negligenciada pela grande mídia e sobretudo pelos "descolados" moderninhos de hoje, tão ávidos de todas as mesmices indies que lotam o youtube. Todo mundo emulando alguém que se inspirou em alguém que, novinho ai pelo 20 anos, ficou fascinado pelo som daquela banda brasileira dos anos 1970 que ouviu numa coletânea organiza por... David Byrne.
Considero a poesia assaz direta, combinando com uma guitarra nervosa e uma bateria magistral (prestem mais atenção nos movimentos), é psicodelia e rock n'roll de primeira, apoteótico! E totalmente brazuca.

Adoro os clássicos, já disse isso aqui várias vezes. O são pela sua força de sempre dizer o que precisa ser dito na medida, "na gaveta", quase como crônicas ou instantâneos da alma humana. O dizem pra nosso deleite ou à revelia de nossa vontade, mas dizendo o que precisa ser dito porque da ordem do mundo. Outro dia conversei com um grande amigo e ele me disse: _ as histórias (em especial as de amor) são sempre as mesmas, temos apenas a ilusão de seu protagonismo. Acrescentei, que tendemos a sofrer sempre que ousamos discordar disso. O barquinho tem sempre que seguir a correnteza... "um belo dia vou lhe telefonar/ pra lhe dizer que aquele sonho cresceu..." E como diz o título do quarto disco de Lucas Santtana: "Sem nostalgia". Melhor assim!
Curtam!

domingo, 4 de dezembro de 2011

Futuros Amantes - Chico Buarque

Todos temos dias estranhos, dias em que toda a ordem se esvai frente ao inevitável de perceber que nós não resolvemos as coisas, as coisas se resolvem em nós e por nós. Claro, falo de amor, e o desconcerto de sentir o que não queríamos, mas secretamente desejamos, e o fazemos com a força e a intensidade de um fim de mundo. Fugimos da ideia do fato consumado. Não existem fatos consumados quando se fala de amor, amor é coisa que se dissolve em parte por milhão e continua lá, fazendo o que tem de fazer, ou, pode vir também como uma dose letal de uma droga qualquer, dessas alopáticas, com mil precauções e proibições na bula. Mas o fato é que, quando o amor é amor, algo se projeta prum futuro, mesmo depois do fim, mesmo depois que decretamos toda a falta de esperança. Dias estranhos de noites estranhas, de um domingo como esse, se fazem com a matéria desse não-sei-o-que que não me deixa em paz. Se faz da colagem de um milhão de "e se" ao medo de alguma forma tudo cair no mais absurdo e vulgar esquecimento das tentativas e desistências. Nessa noite de domingo, senti saudades e temi a segunda, na qual as coisas podem ter se resolvido sem mim e definitivamente. Essa noite temi ficar sem amor, ficar só. Essa noite odiei com todas as forças a ideia de despedida e do tempo que teima em seguir. Me senti só, sob as vagas furiosas e desordenadas dos futuros que imaginei para mim antes de soçobrar. Hoje temi continuar pensando em ti, com mesma revolta que sinto frente a inexorabilidade do esquecimento.


Chico Buarque (1993, lançamento do Paratodos), fala para a band sobre a inspiração de Futuros Amantes. 
Sim, também, já tive meus olhos inundados com ela. Quase sempre, aliás. Cidades inundadas...


Boa semana!
Curtam!


Eu tava mexendo no violão, começando a fazer a melodia, e a primeira imagem que apareceu foi exatamente esta: uma cidade submersa, isolada de tudo. Porque, cantarolando, parecia que a música queria dizer isso. Eu tinha que ir atrás da explicação dessa cidade submersa. Aí eu coloquei os escafandristas, e surgiu a história de um amor adiado, um amor que fica para sempre. Essa idéia do amor como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios, e aquele amor ficará até debaixo d'água. Um amor que vai ser usado por outras pessoas, um amor que não foi utilizado porque não foi correspondido, e então ele fica ímpar, pairando... Esperando que alguém o apanhe e complete a sua função de amor".


Nossos Tempos de Poesia e Mila

Gravura: Augusto do Nascimento

Dedé revira seu "Google interno" e nos presenteia com mais uma missiva poética registrada em guardanapo nos heroicos tempos do Mila, o nosso querido e mítico buteco em frente ao Centro de Humanidades da UECE, capitaneado pelo pacientíssimo Abílio. Nossos tempos idos de poesia, amor e dor... que, mesmo sem precisar pensar muito e a bem da verdade,  nunca cessaram... ficaram encantados...


À Taverna Mila
  
Quando resolvíamos nos embriagar
Tomar todas junto às belas da UECE Vila
Dirigíamo-nos céleres ao nosso Mila
Em busca de sonhos juntos a se sonhar.

No Mila era assim feito um bar e o Caos
Relações frígidas e cervejas além-geladas
Des)(conversas, indiferença e algumas fiadas
Camas pós-camas e as possibilidades das naus!

Ao Mila enfim todos tínhamos o desprezo e auxílio
As doces ilusões do álcool, caldo de gato e amigos
Havia ainda a irreverência séria do grande Abílio

O burburinho dos quase eternos bêbados em desalinho
A poesia da troca de olhares sugestivos e poucos precisos
E a certeza das incertezas de Musas, próximo ao idílio!

Dedé Calixto
1995


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Let's Rock? Yann Tiersen






Deveria ser um post sobre Yann Tiersen, apenas. Mas há algo em sua música que nos conduz, necessariamente, a um ambiente de suspensão, que só imagens de sonho, poderiam terminar de compor a melodia que continua tocando em nossas cabeças quando a música pára. Não por acaso, suas músicas ajudaram a eternizar num tipo de inconsciente coletivo, as estripulias de Amélie Poulin tentando ajudar o mundo (O Fabuloso Destino de Amélie Poulin - Jean-Pierre Jeunet, 2001). Estas imagens de sonho e suspensão, nesta sexta feira, só poderiam ser as Henri Cartier Bresson. Um encontro inesperado, porém com a evidente cara de um "por que não?..." Nada mais me vem à mente pra compor um cenário ideal pra este dia. Um dia em outro tempo, um tempo que fala das coisas que ficam e se incorporam à vida, apesar da sua correria, apesar...
É um passeio afetivo por duas narrativas, musical e imagética. Uma poesia a mais que se constrói quando se permite viver um pouco mais a beleza dos encontros inevitáveis que a vida engendra e das incríveis possibilidades do porvir.
De qualquer forma fica a pergunta: quem cuidará de Amélie?... Será que ela sossega um dia?
Boa Sexta!
Curtam!





ps: e mais onda francesa...