domingo, 4 de dezembro de 2011

Futuros Amantes - Chico Buarque

Todos temos dias estranhos, dias em que toda a ordem se esvai frente ao inevitável de perceber que nós não resolvemos as coisas, as coisas se resolvem em nós e por nós. Claro, falo de amor, e o desconcerto de sentir o que não queríamos, mas secretamente desejamos, e o fazemos com a força e a intensidade de um fim de mundo. Fugimos da ideia do fato consumado. Não existem fatos consumados quando se fala de amor, amor é coisa que se dissolve em parte por milhão e continua lá, fazendo o que tem de fazer, ou, pode vir também como uma dose letal de uma droga qualquer, dessas alopáticas, com mil precauções e proibições na bula. Mas o fato é que, quando o amor é amor, algo se projeta prum futuro, mesmo depois do fim, mesmo depois que decretamos toda a falta de esperança. Dias estranhos de noites estranhas, de um domingo como esse, se fazem com a matéria desse não-sei-o-que que não me deixa em paz. Se faz da colagem de um milhão de "e se" ao medo de alguma forma tudo cair no mais absurdo e vulgar esquecimento das tentativas e desistências. Nessa noite de domingo, senti saudades e temi a segunda, na qual as coisas podem ter se resolvido sem mim e definitivamente. Essa noite temi ficar sem amor, ficar só. Essa noite odiei com todas as forças a ideia de despedida e do tempo que teima em seguir. Me senti só, sob as vagas furiosas e desordenadas dos futuros que imaginei para mim antes de soçobrar. Hoje temi continuar pensando em ti, com mesma revolta que sinto frente a inexorabilidade do esquecimento.


Chico Buarque (1993, lançamento do Paratodos), fala para a band sobre a inspiração de Futuros Amantes. 
Sim, também, já tive meus olhos inundados com ela. Quase sempre, aliás. Cidades inundadas...


Boa semana!
Curtam!


Eu tava mexendo no violão, começando a fazer a melodia, e a primeira imagem que apareceu foi exatamente esta: uma cidade submersa, isolada de tudo. Porque, cantarolando, parecia que a música queria dizer isso. Eu tinha que ir atrás da explicação dessa cidade submersa. Aí eu coloquei os escafandristas, e surgiu a história de um amor adiado, um amor que fica para sempre. Essa idéia do amor como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios, e aquele amor ficará até debaixo d'água. Um amor que vai ser usado por outras pessoas, um amor que não foi utilizado porque não foi correspondido, e então ele fica ímpar, pairando... Esperando que alguém o apanhe e complete a sua função de amor".


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