sábado, 29 de dezembro de 2012

Balanços Anuais e Phasers Desintegradores

Praia Secreta nº 1 (Van)

Por favor, “tire seu sorriso do caminho que eu preciso passar com minha dor”. É assim que a onda de balanços desse ano me atingiu. Dessa vez, como tsunami. 

A vida não tá fácil pra ninguém, não há motivos pra fingimentos, eu sou assim, olhar pra trás nos faz fortes e menos idiotas. A alegria gratuita é o alimento da ignorância. Ser feliz é a meta impossível, a utopia que persegue qualquer um que olhe ao redor de forma adulta. Dessa forma, e sob esse olhar, 2012 foi pau. Foi pau, pedra e o fim do caminho. 

Algum otimista a essa altura já pensou em me dizer: “pois tome outro caminho e tal e tal...” Antes que o faça, e que eu sinta uma vontade irrefreável de usar meu phaser desintegrador, só adianto o seguinte: volte para o seu lar e me deixe em paz. 

Em 2012 perdi muito, tive pouco ou nada em troca, a compensação da vida é continuar vivo e continuar tendo momentos alegres regados a fortes descargas de serotonina, dopamina, adrenalina e ilusão. Perdi uma pessoa amada, sem retorno de nenhum tipo. Pelo menos, possível nesse mundo. A perda pessoal, de si, de outro, de rumo, compensado por difíceis manobras de emergência, e forte presença de poucos amigos leais, deram o tom de um ano que só terminou por decreto das últimas folhas do calendário. 

Não, não terei saudades de 2012, que conseguiu ser mais cruel que 2011 e ainda superou o antes imbatível 2009. Ainda estou acampado em minha vida a meio caminho de lugar nenhum. Que venha 2013 e seja venturoso. 

Pois, se for pra encher meu saco, que venha armado.

Feliz 2013!

Saturno Devorando um Filho (Francisco de Goya, 1819-1823)
O tempo que devora tudo.
Zeus e os Titãs pensaram tê-lo morto. Mas ele está ai, arrancando pedaços de seus filhos todos dias, em todos lugares. Inexoravelmente.
Seguimos perdendo pedaços, atravessando a floresta na qual o Cronos espreita.
Seguimos porque, como Ulisses, só nos resta navegar de volta para casa.
Feliz 2013!

E o Placar Não Ajuda

A Febre do Rato (Cláudio Assis, 2011)


Outro dia se percebeu cantarolando baixinho uma música de Bárbara Eugênia, “Por ai”. Pensava na cena daquela garota que andava por ai, em seu ímpeto de fazer mil coisas enquanto ele a esperava, entre algumas cervejas, sentado em algum banco de praça, meio fio, ou bar do centro da cidade.

Pensava sobre isso ao mesmo tempo em que se lembrava do rosto dela, em meio a tanta velocidade. No ir e vir de tantas coisas inadiáveis e além de sua compreensão.  Sua presença sempre breve era marcada pelo inalcançável, menos de seus olhos, sempre lá. Ele sempre os fitando por aqueles breves segundos antes de desaparecerem e restar apenas sua boca, com seus lábios fartos, no ponto mesmo de fuga onde se sabia na tangente do desespero de ser um observador falsamente controlado.

O jogo da espera era cruel para o herói. Este conjurava poderes de onde nada nunca vinha além da sua disposição em continuar no jogo, contra tudo, contra ninguém além dele mesmo no limite de suas forças, além do cadafalso daqueles movimentos de cabelo.

Esperava naquela tarde quente. Em breve ela terminaria mais uma ou outra coisa e passaria por ali para vê-lo. Era inadiável fazer algo, suas idas e vindas lhe roubara toda fé, sua resistência nada mais era do que seu medo de bater em retirada de si mesmo. De nada mais ser além de algo que foi virado ao avesso, que ela o virasse pelo avesso.

Ouvira outro dia alguém comentando o quanto um jogo pode ser bonito, mesmo com um placar pífio, era seu caso, nenhum tento registrado, como se o motivo do treinador do outro time fosse apenas mostrar a imbatível qualidade de sua defesa. A capacidade de manter a bola no pé durante horas, dias, eras, dissimulando toda a intenção, atraindo pra si de forma hipnótica todos os olhares da torcida.  

Súbito, ela estava novamente ao seu lado. Um “oi”, um sorriso de sua parte e alguém, um insano operador das paixões absurdas, liberava o freio da montanha russa que habita sua mente enquanto ela está por perto. Lá ia ele de novo...
E o placar seguia sem ajudar.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Bruno Morais - Bichinho do Sono

Gente, sei, sei, faz tempo que não escrevo no blog. O ano está acabando e eu nada de dar as caras... feio, isso! Fico postando clipes e nada de texto novo. Enquanto o texto novo não sai (pode ser daqui a pouco, a qualquer momento, mesmo), fica a dica para que ouçam "Bichinho do sono" de Bruno Morais. Agora a noite, 22:38 horário de João Pessoa-PB, a medida certa entre o embalo de uma poesia simples e envolvente, com o abraço de um momento assim, à toa, nos qual os devaneios fazem o trabalho deles, nos devanear.
Espero que curtam.

 .

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Paul McCartney - Golden Slumbers/ Carry That Weight (live)

Grande ano! ;)

"I never give you my pillow
I only send you my invitations
And in the middle of the celebrations
I break down

Boy, you're gonna carry that weight
Carry that weight a long time..."


domingo, 16 de dezembro de 2012

Duas ou três coisas



Notas mentais.
Duas ou três coisas que penso saber sobre ela. 
Primeira: Ela está lá. Muito embora quase ninguém possa confirmar essa afirmação hoje. Segunda: Ela estando lá, só preciso chegar (lembrando: o último que esteve lá enlouqueceu, o penúltimo... Nunca voltou). 
Terceira: Sim, seus cabelos continuam lindos (cada vez mais), melhor olhar pra qualquer outra coisa. 
Quarta: Sua boca.. Nunca! Pelo menos nunca mais (lembra-se da última vez?). 
Quinta: Não importa o que diga a música que ela canta, vire-se e não tente seguir seu perfume. Sexta e última: Hã? É ela ligando?!
It's a long, long, long way...

sábado, 15 de dezembro de 2012

Uma foto: Memento (Amnésia). Christopher Nolan, 2000.


"Leonard Shelby: I don't even know how long she's been gone. It's like I've woken up in bed and she's not here... because she's gone to the bathroom or something. But somehow, I know she's never gonna come back to bed. If I could just... reach over and touch... her side of the bed, I would know that it was cold, but I can't. I know I can't have her back... but I don't want to wake up in the morning, thinking she's still here. I lie here not knowing... how long I've been alone. So how... how can I heal? How am I supposed to heal if I can't... feel time?"

domingo, 9 de dezembro de 2012

Por Mares Escuros



Naquele momento estavam em patrulha em algum lugar do atlântico norte, há tempos nem o comandante nem nenhum oficial mais graduado dava qualquer informação de onde estariam exatamente. Pouco importava. Depois de atingidos, haviam estacionado no fundo do mar. Na verdade, depois de dias fugindo das escoltas de um comboio aliado que se dirigia para a Inglaterra, as avarias extremas e a evidente desvantagem frente aos perseguidores transmitiam a clara expectativa que não escapariam. 

O submarino estava silencioso, nem a própria respiração podia ser ouvida, sonares inimigos perscrutavam o vazio gelado do oceano em sua procura. Encontrar e destruir. O U-96 era forte, mas fora posto ao chão.

Foram muitas semanas navegando, as patrulhas inglesas e americanas tornavam os encontros com os submarinos de reabastecimento extremamente difíceis, além, mesmo a ação de aproximar-se de um comboio, atacá-lo e evadir-se, quase impossível. Descobriram isso no último ataque.

O cabo Hans estava encolhido junto a uma pesada longarina logo na entrada da sala de máquinas, seu posto. Espera ordens do comandante para acionar novamente os motores para saírem de lá. Mas alguma coisa muito séria havia acontecido, estavam lá há horas e ordem não chegava, na verdade, nada acontecia, como se por antecipação tivessem se transformado num barco fantasma. Seus tímpanos estavam doloridos das sequências de explosões de cargas de profundidade lançadas sobre eles, em especial a que explodiu próximo a proa algumas horas atrás.

Forte cheiro de fumaça de diesel no ar, ar viciado, quase irrespirável, O submarino estava na penumbra, apenas as luzes de emergência permaneciam acesas, era preciso poupar a pouca força das baterias. No canto onde estava sentado, sob a luz fraca de sua lanterna, tirou do bolso a foto de sua noiva, Anna. Iriam casar-se no último verão, mas a convocação urgente da tripulação para essa missão os impediram. Hans tinha esperança, olhou ternamente a foto e a beijou. Voltaria para os braços de Anna, sabia disso. 

De repente, a ordem do comando:
- Motores em um terço!

Pensou: “Estavam vivos na ponte, bom sinal”. Ligou as máquinas com a ponta dos dedos, motores a frente, um terço. Sairiam daquele inferno, finalmente. Confiava no capitão. Os olhos verdes de Anna eram seu farol, voltariam para La Rochelle. Desprenderam-se do fundo, rumo nordeste, com cautela, casa. Navegaram mais vinte minutos, contato sonar em sua direção, em alta velocidade.

- Destróier! Gritaram da ponte de comando pela fonia.

A chuva de cargas de profundidade recomeçou. As explosões cada vez mais próximas. 
Uma última e ensurdecedora explosão. Jurara ter visto Anna chamando-o para o jantar. Silêncio.

O U-96 nunca mais foi visto.

Roberto Carlos - Não Adianta Nada (1973)

Porque não adianta você querer fugir...
BOM DOMINGO!

 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Caetano Veloso - Nine Out Of Ten (Transa, 1972)

Porque hoje é sexta feira!

A Estrada Continua Longa




A cena era basicamente a mesma, a estória se repetia como agulha enganchada, como ele próprio já havia percebido muitos contos atrás. Novamente ela estava ali em sua frente, mas dessa vez alguma coisa estava diferente em seu de olhar, nos seus movimentos. O mesmo sonho intranquilo se desenrolava, porém face a face, de verdade.

Ao invés de um café, ou de uma mesa em algum bar, dançavam. Dançavam como se não houvesse mais ninguém por perto, como se a noite se resumisse em fechar os olhos e evaporar-se em ritmo, batidas, e nos movimentos de seus cabelos.

Desde a última vez, pensou em dizer-lhe sobre a forma como seus cabelos descreviam um movimento de liberdade que, somados a leveza do seu vestido floral, fazia daquela garota, naquele momento, a única capaz de dar o sentido certo a toda poesia dos Jorges, Ottos, Velosos e dos Tims que enchiam o ar.

A cada ida, em cada volta daquelas ondas castanhas, ao som de It’s a Long Way, algum pilar de sua fundação ruía e outras tantas vigas se desintegravam na única necessidade possível frente aquilo, fundir-se a ela nas águas escuras da lagoa do Abaeté, arrodeadas por areia branca. E fugir dançando reggae pela vida, na Portobello Road.

Como disse antes, sonhos intranquilos. Ela parecia não o conhecer, ou o conhecia demais!

E nove em cada dez estrelas de cinema ainda o fazem chorar, ao som de Transa.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Paul McCartney: Maybe I'm Amazed

De Cafés e Perfume

"Coffe and Cigarettes" (Jim Jarmush, 2003)

Ligou para ela assim, de súbito. Nos segundos que seguiram, enquanto ouvia o tom de chamada, pensava no tamanho da besteira que fizera. Era tarde, ela atendeu. Novamente, aquele ansiado rouco “alô”.  Seguiu em frente, depois da conversa sobre como iam os pais, as plantas, os sobrinhos, o momento tão bem decorado durante vários cafés, banhos e noites insones: precisava vê-la novamente. Outra pausa, pensar sobre isso era uma aventura tortuosa, os dias já haviam se transformado em meses a essa altura. Resistiu durante todo esse tempo, havia orgulho, uma ideia de honra que ele tirara sabe-se lá de onde, certamente, de algum manual de suicídio afetivo. Mas agora, tudo bem, ou pior, ela aceitara um encontro!

Tinha um tempo na agenda, aquele café discreto, meio de tarde. Desligaram. No dia marcado, nada podia começar pior, ele pra variar, atrasado, adquirira esse hábito (ao qual ele chamava de arte) há pouco tempo, o tempo era o inimigo de uma guerra assimétrica, ele era o alvo, a minoria étnica a ser extinta, nada havia de direitos humanos em seu favor.

Ela estava lá, seu vestido branco, com detalhes em verde, pernas cruzadas. Segurava com delicadeza o cigarro em uma mão e com a ponta do dedo médio da outra mão acariciava a asa da xícara de café. Seu rosto estava plácido, distante... Seu tom blasé perturbou-o, não percebia mais os solavancos do fim, nem traço dos abalos do final, nenhum holocausto residual em lugar nenhum de sua face. Apesar de tudo, sua discrição, movimentos brandos, quase coreografados com aquela bossa nova que saia do alto falante da parede ao lado, o comovia.

Em meio a fumaça que subia lentamente, seus olhos castanhos, lhe escreviam o seu próximo texto antes mesmo que seus lábios pronunciassem algo. Depois de cumprimentá-la com um único e demorado beijo no rosto, atrapalhou-se com as palavras, “típico” pensou, já soando frio. A conversa seguiu seu rumo previsível, trabalhos, plantas, sobrinhos, casas, até o último Woody Allen. Três ou quatro cafés, alguns cigarros, ela precisava sair, tinha dentista, ou alguma coisa assim... Ele ficou, mais alguns cafés solitários, tinha tempo. Via na fumaça dos cigarros alheios as voltas do cabelo dela. Algo havia mudando ali.

Depois de alguns momentos vendo os passantes que se apressavam para o fim de tarde, lembrou-se do cheiro do perfume daquela garota que conhecera recentemente. Amigos em comum, uma ou outra carona. Aquele cheiro! Aquele mesmo que deixava seu carro tão feliz durante os dias que se seguiam depois que ela aparecia. Pagou a conta e saiu, nesse fim de tarde pensou sobre o sorriso da garota de perfume amadeirado, se veriam esse final de semana? Tinha tempo, foi a um bar e pediu uma cerveja.

domingo, 25 de novembro de 2012

De Passos a Esmo e Cafés



Cinco da tarde era verão. Após andar a esmo pelas ruas do Centro, imerso nas idas e vindas à toa de todos que não conhecia, sentiu o calor minar-lhe o ímpeto resistente de continuar a andar para esquecer. Tinha que sentar. Perder-se entre os passantes, era perder a própria identidade daquele tempo, negar-lhe um rosto, eximir-se dos sentimentos. Tudo um plano, procedimento de emergência que adotara nos últimos meses, depois que ela o deixara. Flanar era seu dispositivo de fuga, sua máquina contra o tempo. 

Enfim, cansado, suor abundante na fronte, tinha que parar e fumar um cigarro. Percebeu-se frente à praça que ela mais gostava, diante ao seu cinema favorito, e se deu conta que, automaticamente, já estava na mesma mesa do Café no qual ela lhe falara de seu desejo de viajar pelo mundo, talvez, pra nunca voltar. Ele rapaz da cidade acostumado ao chopp, cinema e futebol com amigos, nunca entendera os ímpetos incontidos daquela moça morena com sorriso de menina. Naquele mesmo café, no qual paravam depois das sessões de cinema, ela disse para ele que partiria, mas prometeu-lhe voltar. 

Ele não podia acompanhá-la. Pensou: Algo nas partidas sempre tem cara de eternidade, a despedida é um adeus travestido de até logo. Ela partiu para uma grande cidade atrás de seus sonhos. Ele ficou. Continuou enganando seu próprio tempo através dos passos que escreviam um texto sobre as paisagens que olhos castanhos de seu antigo amor viam pelas ruas do centro. O cheiro de café sempre lembrava seu beijo.

Nunca mais se viram.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Uma foto: "Pequena Miss Sunshine"

Cena perfeita!

Festival Mundo 2012. João Pessoa-PB. Siba e Eddie



Siba, Dia 10 e Eddie, dia 11. Sábado e domingo tem? Tem, sim senhor!
Na Usina Cultural Energisa. 
Quem vai?

domingo, 4 de novembro de 2012

À Beira da Estrada*



Carro no prego, conversa com um borracheiro à beira de uma estrada qualquer. 
Uns anos atrás:

"Eu conheci um sujeito da tua terra, cara muito legal, há muito tempo atrás. Foi meu cunhado. Era noivo de minha irmã. Morávamos no Rio, toda família tinha se mudado pra lá, saindo do sertão. Eles iam casar e antes disso ela morreu. Triste isso, tão jovem... 

Eles tinham um dinheiro guardado na caderneta de poupança pra construírem a casa deles e minha família não queria deixar o rapaz ficar com o dinheiro. Um irmão disse que se desse o dinheiro para ele, ele sumiria. Mas convenci meus pais a irem ao banco comigo tirar o dinheiro e entregá-lo para o meu cunhado. Para surpresa deles ele não sumiu, mas pegou o dinheiro e construiu um túmulo de mármore para minha irmã, um patrimônio... 

Depois do enterro ele foi embora, não se despediu. E nunca mais soubemos notícias dele. Ele era um homem honrado. Uns anos depois tentei por todos os meios encontrá-lo, procurei muito, mas não consegui..."

Fiquei pensando no que estaria passado pela cabeça do rapaz enquanto construía o túmulo de mármore, antes de desaparecer pra sempre. 
A festa de casamento poderia ter sido muito bonita. 
Poderia...

* Publicado originalmente sob o título de "Perhaps" em 16/10/2010, logo no início do blog. Fiz algumas modificações na forma, mas de resto, é tudo verdade. Perhaps...

Pequeno Príncipe (Versão Maquiavel)

BOM DOMINGO!


sábado, 3 de novembro de 2012

Bobagens, amanhã é domingo



Depois que a Tropicália se desmanchou no ar, que a música virou pós Los Hermanos, tudo mais é fofo e que nos encontramos no epílogo da "Farsa de Todos os Amores", o sentimento só pode ser que tudo é instantâneo e além, dos pedaços ao avesso de todos os desejos.
Coisas que nunca serão ditas ainda serão a ordem do dia de um tempo transparente onde tudo se sabe, mas ninguém sai do lugar. E tudo continua igual a quando a TV era valvulada. Descobri: sem televisão a vida continua.
As coisas que sobram pra se chafurdar no chão polido da sala de estar, quando os convidados estão quase chegando. 
Mas não há anfitriões.
E casa é uma forma de dizer e um CEP pra receber contas.
Nesse meio termo coisas desaparecem, pessoas idem.
Seguimos cantando a nova sensação que youtube revelou.
O que Caetano diria?
- Bobagens, pequena. Bobagens... Amanhã é domingo.

Uma Foto

Garota na Praia da Penha - Praia da Penha, João Pessoa-PB (Van)

Miles Kane - Rainbow Woman


I saw her reflection in the shadow of the sun
Listening to the cadence of a dying drummers' drum
She knew I was coming nearer, she said no but I did not hear her
Rainbow woman, rainbow, rainbow woman, woman
Rainbow woman
When I heard her laughter I was more than some surprised
In her smile was sadness there was laughter in her eyes
She knew I was coming nearer, she said no but I did not hear her
Rainbow woman, rainbow, rainbow woman, woman
Rainbow woman
Self respect is absent in a lonely man's mirage
Love is sometimes given in a salty tear corsage
Make the Gods that made her claim her, she comes and goes and so I named her
Rainbow woman, rainbow, rainbow woman, woman
Rainbow woman

Bastante

Marc Chagall - "Bela in Mourillon" (1926)

Ela deixou a porta aberta
Nada disse ao sair
Voltar parecia não ser opção
Fingi não querer saber
Apenas fiquei e fiz um café
Ela não voltou
Numa tarde qualquer, uma ligação
Ela, já sem nenhum porquê
Depois do rancor
E um vazio estranho
De assunto
De chão.
Não, a casa é vazia agora
Menos que por outras coisas
Pelo esquecimento
Só preenchida pelo cheiro do café,
Há chão inteiro pra deitar
E é o bastante.
 - Venha olhar o céu daqui. É diferente...

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Federico Aubele - Diario de Viaje



Com Natalia Clavier.
Espero que curtam.
Em tempo: mais um videozinho enquanto aparece alguma ideia nova para postagem... estiagem criativa, a fonte seca.
A vida não está fácil pra ninguém...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Bronski Beat - Smalltown Boy

Bronski Beat

Françoise Hardy - L'amitié

Música tema do filme "As Invasões Bárbaras".

As Invasões Bárbaras - Cena Final

As Invasões Bárbaras
Pensei hoje na fragilidade da vida, no mistério que concedemos a tudo para que, na falta de respostas às perguntas fundamentais, possamos manter o equilíbrio, ou pelo menos algum.

Retomei hoje um desses filmes que faz o mais duro coração amolecer, As Invasões Bárbaras (2003), Denys Arcand. As Invasões Bárbaras, junto com seu irmão mais velho, "O Declínio do Império Americano (1986) ajuda-nos a traduzir parte dos sentimentos de desconforto e inadequação do espirito frente a um mundo de mudanças aceleradas pós-globalização.

Não há fórmula para encarar a finitude, pensar sobre é sempre um ato heroico, é preciso lembrar, os heróis sempre morrem no final. Acompanhar a travessia de Rémy Girard o personagem central da trama nos dois filmes, durante quase três décadas, nos passa impressão que uma vida é pouco, mesmo vivendo-a intensamente, como ele faz. Intensamente significa um profundo apego ao sentimento de liberdade, de amor, por tudo, por todos. Uma entrega à vida amparada na mais desregrada paixão frente a um mundo que muda engessado na reação à mudança, reativo à liberdade dos afetos. Não estamos preparados pra tanto.

A cena final é definitiva como marco do horizonte no qual todos podem se ver, ou pelo mesmo sentir, frente a um todo do qual passaremos a fazer parte apenas como memória e um afeto, quando as luzes se apagarem. Injustiça para com o herói, quem saberá? Todos que ocupam o posto sabem de alguma forma do risco de se fazer importante para os outros, e essa diferença na forma de poder mudar os mundos ao redor tem o peso de uma eternidade.

Algumas pessoas passam, simplesmente. Outras se materializam no mito que faremos delas e além delas, pra sempre.

Só o herói não saberá disso.

 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Legião Urbana - Love in the Afternoon

Cedo Demais


"É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais...
Quando eu lhe dizia:
'Eu me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada.'
Você sorriu e disse:
'Eu gosto de você também.'
Só que você foi embora
Cedo demais
Eu continuo aqui
Com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Dia de chuva, dia de sol
E o que sinto não sei dizer.
Vai com os anjos, vai em paz!
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade
Até a próxima vez
É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais"


Ps: Dica de Arlene Costa.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Tatá Aeroplano - "Night Purpurina" e "Par de Tapas que Doeu em Mim"


Uma Foto: Dia do Aviador

23 de Outubro - DIA DO AVIADOR
Parabéns do blog aqueles que fazem o sonho de voar uma realidade.


Festival Planeta Terra 2012: Um pouquinho do que foi

Visctoria Hesketh - Little Boots
Festival Planeta Terra 2012 - Beth Ditto e Gossip
(foto: Nalu Brito)
6ª Edição do Festival Planeta Terra. Pra quem não foi, uma amostra.
Minha quarta ida a esse Festival. Já virou uma espécie de ritual pessoal. Momento de uma reciclagem de sensações e encontro festivo com amigos por demais queridos.
O Terra continua um festival interessante, apesar das dimensões modestas e das limitações em relação às bandas convidadas este ano. 
Na relação final, nenhum grande nome, nada como Strokes ou The Smashing Pumpnks que vieram em edições anteriores. 
O Kasabian, que reconhecidamente traz consigo um enorme potencial para grandes shows teve que cancelar sua participação de última hora.
Pessoalmente falando, a falta do Kasabian foi irreparável, mas, paciência...
Por outro lado, foi extremamente gratificante ver o veterano Garbage! Sua primeira e provavelmente última apresentação por terras brasileiras. Pra quem os acompanha desde o final dos anos 90 foi um encontro indescritível.
O Gossip surpreendeu com uma Beth Ditto elétrica, magnética, carismática em extrema empatia com o público! 
Se tecnicamente a banda não estava a altura de rigores mais elevados, a atitude rock'n roll da diva gordinha, tomando caipirinha, falando "oi, oi, oi", pedindo "desculpas" em português, indo pra galera e compensando todo o resto numa energia gutural, fez o show do Gossip uma catarse que certamente apagou o parte do brilho das estrelas da noite, o Kings of Leon.
Foi legal a apresentação do Suede, com os principais hits dos anos 90. Pra quem os acompanhava àquela época, foi pura apoteose. Tecnicamente perfeitos.
Quem foi, viu.
Que venha o Terra 2013! 
E ai, quem vai?...

Ps: um registro especial para o Little Boots, o eletropop bem executado do trio conferiu charme e envolvimento ao fim de tarde do Indie Stage. A vocalista Visctoria Hesketh estava, pra variar, uma gracinha (suspiros... hehe)

sábado, 20 de outubro de 2012

Estava Longe



Fazia muitos meses que ela o deixara. Ou se deixaram, já era difícil saber agora, talvez impossível, talvez desnecessário tentar saber. Pensou: “Drogas, ainda mais agora, por que essa chuva? Por que minhas roupas e pele até a alma?”. Mas se algo à toa, porque ainda ficava com os olhos rasos d’água quando lembrava? A sensação de perda e o vazio que dizem seguir esses momentos definitivos eram pouco para exprimir um único momento de sua respiração acelerada, no segundo quando se lembrou dela, em meio aquele temporal.

Encontrou refúgio em bar pediu uma cachaça e um cigarro. Há muitos anos não fumava, desde as brincadeiras de juventude, das noites de sarro, nas quais encontrar o amor era um jogo onde as promessas de aventura diziam muito mais do que os riscos de quedas absurdas e cortes abissais que a vida real costuma trazer pra quem se lança.

Tomou a cachaça como se tomasse o ar que lhe faltara aos pulmões. Tragou aquele cigarro como que para recuperar o chão que desparecera sob seus pés. A garganta queimando lhe lembrou de que estava vivo, embora custasse a acreditar que ela ainda o estivesse depois de tudo que havia feito para esquecê-la. Suas tentativas alucinadas de se autodestruir, redundavam num sentimento perverso de encontro com o mais intimo detalhe que ainda não havia conseguido remontar, a mais remota e quase inventada charada, que o derradeiro sorriso que ela lhe dera a tanto tempo poderia trazer consigo.

Não podia matá-la em sua memória. Prometeu-lhe fazê-lo para ter paz, ela seguia cada vez mais viva dentro dele, emergindo a cada chuva, crescendo pelas paredes úmidas de sua alma alquebrada como um fungo, tingido de um verde turvo como um musgo escuro sua alegria perdida.

Pediu mais uma dose. Apagou o cigarro na própria mão. A dor o acordou pra rua, pra ausência definitiva, pra hora de voltar pra casa.

Estava longe, amanhecia.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

domingo, 14 de outubro de 2012

Uma Foto: E despedidas...

Londres, maio de 1944. Um mês antes do desembarque aliado na Normandia.
Para muitos soldados, provavelmente as últimas horas em companhia dos seus entes queridos...
Fim de domingo.
Boa semana!
Ralph Morse

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Um Poema: A Morte a Cavalo (Carlos Drummond de Andrade)

"Sleep" - Francisco de Goya
A Morte a Cavalo

"A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos


A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus amores.
A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.
A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.
A morte de tão depressa
nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
me deixou sobrante e oco."

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Jards Macalé - Soluços (1970)


O genial Tropicalismo à flor da pele de Jards Macalé.
Ouvir até lembrar que a pele já não está mais lá, arrancada pela raiz.
Vibrante onde agora só há nervos, veias, músculos e sangue.
Curtam!




Quando você me encontrar
Não fale comigo, não olhe pra mim
Eu posso chorar
Quando você me encontrar
Não fale comigo, não olhe pra mim
Eu posso chorar
E quando eu choro eu tenho soluços
E os soluços estragam minha garganta
E além disso eu uso lenços de papel
Eles se desfazem quando molham
Meus olhos ficam vermelhos e irritados
Eu ainda não comprei meus óculos escuros
Quando você me encontrar
Não fale comigo, não olhe pra mim
Eu posso chorar
Quando você me encontrar
Não fale comigo, não olhe pra mim
Eu posso chorar
E quando eu choro eu tenho soluços
E os soluços estragam minha garganta
E além disso eu uso lenços de papel
Eles se desfazem quando molham
Meus olhos ficam vermelhos e irritados
Eu ainda não comprei meus óculos escuros

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Uma Foto

Celeridade...
Alécio de Andrade. 1975. Coleção Pirelli/MASP

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Através da Fresta


Das coisas que precisava dizer-lhe, a maioria não fora dita quando se despediram. Ficaram penduradas por um último fio, em algum suspiro, em algum olhar de canto, numa piscadela mais falante que o fechar suave da porta silenciou de súbito. 
O último carinho nos cabelos dela, enquanto estava distraída neste dia em frente a TV, era o máximo que podia trazer ainda na memória da ponta de seus dedos. Ali nesta mesma oportunidade, ela oscilou entre estar presente e em qualquer outro lugar no seu incrível universo sem fim, pelo menos umas trintas vezes. Almoço, vinho, café, conversa e o tempo que passava, cada minuto como instantâneo de um jogo no qual o final era previsível, pois já descrito num conto-poema que falava que eles não podiam estar juntos, mesmo enquanto seus olhares diziam o contrário. 

Nessa tarde conversaram sobre todos aqueles pequenos fatos da vida, as pequenas grandes coisas, dessas que fazem mais sentido quando compartilhamos, como que mostrando um antigo e desbotado álbum de fotos de família, aquelas pequenas histórias de vizinhança, de jogos no colégio, de arenga com irmãos, o flerte com a prima, a zanga com o pai. Essas coisinhas que quando não datadas e narradas, perdem-se como as coisas que ansiamos nos deixarem pra sempre. Durante o tempo em que estiveram vendo, ou pensavam que viam aquele DVD, o lapso em que se tocaram se estendeu pela dimensão toda do universo, a primeira vez, a primeira sugestão e todas as possibilidades que a pele intuía em algum automatismo de prazer. Negar, permitir, fingir, tudo estava presente na imobilidade congelante de algo que estava inexoravelmente acontecendo. Demasiado tarde para fugas. Registro efetuado, dali em diante tudo seria diferente, mesmo quando não mais fosse.

Hoje, depois de tanto tempo, quando ele lembrou de tudo isso, pensou em ligar-lhe, pensou no desconserto evidente de sua voz ao dizer-lhe que sentia saudades, e a expectativa do vácuo amistoso, e delicadamente distante que viria em sequência. Ah, a distância: a segurança daquele castelo de nuvens, o pequeno passo a ser dado para que toda a aventura recomeçasse quando novamente se desapercebessem. 

Ainda lhe ocorreu: Mais uma taça de vinho e ela se foi. 
A porta não fechou de todo, ficou uma fresta por onde ela, sem cerimonia, se mostraria. Ela sabia, nunca haveria segurança.
Quanto a ele, começou a entender.

domingo, 30 de setembro de 2012

Uma foto: Então, foi uma matinê...

Intermares, Cabedelo-PB (Van)


"Well, find me and follow me
Through corridors, refectories
And files you must follow
Leave this academic factory
Will find me in the matinee
The dark of the matinee
It's better in the matinee
The dark of the matinee is mine
Yes, it's mine"

sábado, 29 de setembro de 2012

Uma Foto

O Segredo dos Teus Olhos. Juan Jose Campanella, 2009.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Uma Foto

Porque hoje é sexta feira!
E há lua no céu...

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Tom Waits - Watch Her Disappear (Wong Kar Way)

Hong Kong Express, (Wong Kar Way, 1994)

Uma foto

Marian Pessah

Frames From the Edge - Helmut Newton

Elsa Peretti por Helmut Newton

Sob Chuva

Helmut Newton

Fora
Sol
Mãos, pele, chão
Atrás nada além
Avante os dias
Sua boca ausente
Dentro
Espaço infinito
Chuva
Nenhum
Sentimento
Poderia matar o tempo
Assim
A sangue frio
Um tiro
E nada mais

Herman's Hermits - No Milk Today (1966)

The Box Tops - The Letter (1967)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Miles Kane - Rearrange (live)

De Gravidade Infinita



Ela não sabia ou parecia delicadamente ignorar o quanto sua presença o desestabilizava. A voz dela, não sem algum grau de malícia, naquele tom suave, quase de menina, pronunciava seu nome como um diminutivo único. Ele, quase apelava em súplicas pra si, não correspondidas claro, para ouvir aquilo se repetindo durante um dia inteiro, ou, pelo menos, mais uma vez. Mais uma vez era a senha do ciclo que parecia não querer se completar de coisas que parecem querer sempre parecer o oposto, ou o distante, quando são na verdade, o que aparentam. Assim, como manteiga derretendo no pão quentinho, algo que não pode ser negado por nenhuma filosofia, além do que indica o cheiro de fome prestes a ser saciada. Não sabia por onde andava durante todo o tempo que demoraram a se ver, na verdade não o interessava. Tudo se resumia ao encontro, o agora como realização de um micro conto de algum blog pouco lido, meio adolescente, falando de amores impossíveis, sentimentos contraditórios e pessoas que não podem ficar juntas.

Neste dia eles não se viram sob o Sol, rodando sem rumo e falando trivialidades em alguma rua da cidade, ou mesmo em alguma casa de algum conhecido comum. A companhia tocara inadvertidamente. Susto, pois tinha estranheza a visitas, sobretudo as imprevistas. Ninguém o visitava. Quando ela identificou-se, o ímpeto de liberar imediatamente a porta confundiu-se com a surpresa quase surreal daquele momento. Ela em sua casa! Embora achando que seria capaz, e um dia o fizesse, nunca o realizaria. Ledo engano fê-lo, ela estava ali. Ela estava ali e iria falar o nome dele daquela forma, e o olharia com aquele olhar de ternura que esconde algo que não pode ser revelado, não obstante, claro como um cristal. Aquele olhar quente, escuro brilhante, profundo, que tão bem refletia o mundo de uma forma diferente, o jeito dela. Nessa primeira vez, pelo menos ali, em seu território, nem os livros, nem a cama, nem cadeiras, nada se prendia mais ao chão. Tudo parecia convergir pra ela, aquele ponto de fuga de gravidade infinita e cabelos soltos ao tempo.

Ela estava ali como uma primeira vez de todas as vezes que tudo deveria ter acontecido desde o princípio dos tempos, bastou um passo para nada mais ficar no lugar. Em uma foto que lhe enviou uns dias depois da insólita visita, dizia-lhe apenas um “eu te amo”, assim, a flor da pele, binário, único na necessidade de dizer algo que não se apagará, mesmo à distância. 
Mesmo que não pudesse mais dizê-lo.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Novamente, uma madrugada qualquer

Bill Brandt
Naquela madrugada andava devagar pelas ruas estreitas da cidade baixa, quase se arrastava. Os pés moviam-se sem vontade enquanto buscava apoio nas paredes. Sua mão seguia os contornos, reentrâncias e saliências das paredes cheias de musgo e umidade. Estas lhe diziam do asco que algumas situações podiam lhe causar. Esse era um daqueles dias que se repetiam a tanto tempo, de nojo do mundo, da perda da fé que pouco tivera, e da limitante incapacidade de aceitar a realidade. Dia de lembrar-se da injuria, infâmia, injustiça, medo. Da vontade de esquecer que seu espírito estava quebrado, sua vontade agora dormitava um sono eterno, sua alma vagava.
Sentou-se no meio fio, a chuva caia através de si, isso já não lhe trazia surpresa. Fazia três meses ou três anos que estivera ali pela última vez? Não fazia diferença, as coisas não mudavam, como sempre, as ruas estavam desertas, os carros não passavam, ninguém nas janelas, ninguém a via. Ninguém a vista. Seu coração, se tivesse, estaria lhe falando baixinho de beijos e entrelaçar de mãos, toques inesquecíveis, descobertas improváveis, de esperanças e alegrias sem fim, coisas de muitos dias (anos?) atrás. Sussurrando: “Onde estariam todas as coisas boas do mundo?”.
Naquele momento perto da madrugada permitiu-se, cansada, deitar seu corpo sob uma marquise. Não conseguia mais lembrar quem era ou que lhe fazia pensar sobre todas aquelas coisas, buscava algo que não podia entender num mundo deserto que parecia dormir só para ela, queria de novo seu sorriso de volta, sem ao menos entender aonde teria ido.
Logo depois de adormecer novamente, desapareceu no ar, misturou-se outra vez a falta de sentido que os sonhos trazem consigo quando se tornam pesadelos, e com as estórias secretas que os corações escondem pra sempre quando partem e viram lenda num outro mundo qualquer onde o amor se retirou sem deixar pistas de si.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Cícero - Laiá Laiá

Delicado. Comovente...

"Vou criar um lugar escondido 
Pra fazer meu recital 
Quando o carnaval passar 
Quando esse escarcéu passar"...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um beijo no futuro


- Escreva como se não houvesse amanhã!

Disse para si mesma naquela manhã de domingo. Havia uma urgência de fim de mundo em dizer para aquele moço tudo aquilo que há tempos trazia engasgado a menos de meio centímetro do coração, uma pressa de ontem e saudade de algo que poderia ter sido, dessas que parecem com a vontade impossível de bolo de chocolate com maracujá numa madrugada qualquer quando tudo mais está fechado e a sede se confunde com os ponteiros engessados do relógio de parede.
Não sabia exatamente por que ele, nem tão pouco porque nesta manhã, diferente de todas as outras desde que o conheceu, mas o fato nesse momento de não encontrar seu bloco de notas a afligia:

- E se perdesse a ideia? E perdendo a ideia perdesse o cheiro do abraço dele?

Não podia se dar ao luxo, perder era uma palavra proibida por aqueles dias, encontrou seu bloco amarelo, que trouxera de uma dessas viagens marcantes pra um desses lugares que tanto sonhara. Caneta, começar a escrever... Pra ele? Pra si? Um registro? Uma revelação? Uma declaração? Ou um desabafo? Um roteiro ou um poema? Nunca soubera o momento, sempre se mostrara uma mulher de ação, fazer antes, pensar depois, menina afoita que roubava a bola dos meninos, desde sempre! Por que escrever agora? Mas o momento pedia escrita, o preto no branco do papel, a cor que marcaria uma história, o marco zero, sobre o bidimensional fantasmagoricamente vazio daquela folha...

Mas não escreveu pra ele, mas como se fosse. Escreveu para um passado remoto de um romantismo idealizado no qual as dores foram todas substituídas por lembranças de chocolate amargo com menta e para um futuro de cinema em 3D. Falou de fortes cores imitando Almodôvar, quentes como o verão, derretendo a pele numa ficção de várias metragens, durações curtas a infinitas, nas quais a marca suave da sua caneta deixaria na pele dele aquela cor que ela mais amava, como um beijo.

Escreveu como se torcesse que ele a lesse mesmo antes da postagem, mesmo antes de ter nascido, antes de ter feito a primeira coisa na vida da qual se arrependesse.

Lesse com a vontade de quem abraça depois de tantos dias de espera, e como se a vida de fato pudesse ter um final feliz.