sábado, 14 de janeiro de 2012

De bares e grafittes



Madrugada, centro da cidade. Caminhavam pelas ladeiras do Centro Histórico, agora, escuras e desertas. Não era um casal, não estavam de mãos dadas. Tinham se visto há poucas horas num bar que descobrira escondido nas ruas de baixo havia uns poucos meses.
O ecletismo musical do lugar era impressionante: indie rock, eletropop, algum trip hop,  intercalados com alguns novos talentos da cena menos massiva da música brasileira e mais algumas viradas incríveis, onde se ouvia Los Hermanos e Chico Buarque. 
Além da boa música, ambiente meio à penumbra, devidamente desleixado. Pouca gente, ficava numa área mais marginal do Centro, os descolados e playboys das ruas de cima não andavam por ali, "não havia gente bonita", diziam.
Passaram a noite sós, em lugares diferentes do bar, ele ao balcão, num canto onde havia uma curva que lhe fornecia um panorama do salão e dos frequentadores - e uma discreta luminária de teto emprestava uma certa mística noir a aquele ponto, lhe agradava. 
Ela, numa mesa no canto. Morena, pele clara, cabelos compridos, seus olhos eram escuros, vivos e piscavam rápido com graça juvenil. 
Fumava, não deixou de notar a caixa de cigarros mentolados sobre a mesa e ainda, como parecia mais elegante enquanto fumava, olhando o vazio através das pessoas, através das curvas etéreas que a fumaça escrevia no espaço. Pernas cruzadas, sentada meio de lado na cadeira, com uma das mãos contornando lentamente a borda do copo. 
Como ele, sua diversão parecia ser simplesmente estar ali, e não estar em lugar nenhum, que seus próprios pensamentos. Com duas diferenças, pra ela, talvez nem a playlist tão diligentemente escolhida e um dos motivos que o fazia ir até aquele bar, parecia importar tanto, e a segunda é que, ela, fazia toda diferença naquele lugar, naquela noite!
Ele tomou algumas vodkas com gelo e limão, cinco ou seis, não lembra direito. Já estava naquele momento que sua mente o convencia que era uma espécie de Hemingway, ou Wood Allen, ou amigo de um conhecido que um dia bebeu com eles por ai.
Percebera que nessa noite não pensara mais nas improbabilidades do amor e nas intricadas e absurdas engenharias do gostar e desgostar. Parara de filosofar e poetizar o mundo, havia coisas mais importantes acontecendo à sua volta.
Passara a noite hipnotizado pela morena de gestos suaves e lábios de contornos delicados. Nunca suas vodkas desceram tão rápido quanto nessa noite.
Viu, claro, que ela também bebia vodka, ou seria gim? Era uma bebida clara com bastante gelo. Pensava em algo para dizer-lhe, torcia que fosse vodka, poderia ser um assunto: qual a marca que você prefere, Smirnoff, Orlof, Absolut, qual sua preferida? 
"Rídiculo!", pensou. Talvez não fizesse a menor diferença pra ela e simplesmente ela tomasse qualquer uma, ou a mais barata, como ele. Não, parecia-lhe sofisticada demais, longe do tipo que pediria qualquer marca, que aceitaria qualquer coisa, ela escolheria meticulosamente certamente, nunca ficaria com nada que não lhe fosse absolutamente adequado e haveria muitas razões pra cada escolha, pensou. Bem, só não seria Ciroc, não parecia rica, nem tão pouco esnobe...
Esses devaneios coincidiram com o momento no qual, pagando a conta, percebeu que ela fazia o mesmo, levantaram-se ao mesmo tempo, ele tentava convencer-se que havia sido apenas coincidência, que ele não o fizera pelo efeito de algum tipo de indução inesperada, resultante da presença da moça e dos delírios que compusera em sua cabeça sobre seus gestos singulares e olhares magnéticos, porém sem alvo, que não sua imaginação à toa.
Saíram lado a lado pela mesma direção na rua. Os primeiros passos foram como deveriam ser, em silêncio, eram estranhos dividindo o meio da rua deserta, sem pressa, numa noite de fim de lua cheia. Súbito, ela falou. - Oi, você estava no balcao, não é? 
- Sim estava. Respondeu. - Reparei em você. E imediatamente colocou em ação o único assunto que sua mente confusa, pega em flagrante de admiração, poderia articular.
- Lugar legal, não?
- Sim também gosto. Ela respondeu, sem demonstrar muito interesses mas com uma atenção que já lhe soava como um alento. E continuou, para a surpresa dele. - Você tomava vodka, não? 
- Sim. Respondeu ela,  - Smirnoff.
- Ela disse então, prefiro Orloff! Percebeu um leve toque desafiador em seus lábios nesse momento. Pensou, como alguém vai preferir Orloff à Smirnoff?! Não fazia sentido.
E depois falaram sobre como gostavam de tomar, pura, com gelo, caipiroska de tal e tal lugar, com essa ou aquela fruta... "Nossa", pensou, salvo pela vodka!
Depois de alguns dois ou três quarteirões a conversa evoluíra surpreendentemente para o porque da solidão dos dois naquela noite e ambos falavam generalidades sobre amores perdidos e não esquecidos. Até que, súbito, ela parou. Pararam!
Numa parede envelhecida havia alguns gratittes. Ela os observava. Ele leu em voz alta um deles, dizia: "o amor é um cavalo voador com um frágil asa de vidro". Ela riu, e leu um outro um pouco mais abaixo: "pássaro cantor, janela aberta, liberdade certa". Não houve mais risos...
A lua já estava baixa no céu a essa hora, caminharam mais algumas quadras juntos e em silêncio. 
Separaram-se com um beijinho na face, daqueles perto da boca e um tchau escorrido, quase como que arranjando um motivo desesperado e sem nenhuma noção pra ficar ali.
Porém, se foram e não se deram as mãos.


                                                                                                                   
14.01.12









Nenhum comentário:

Postar um comentário