sexta-feira, 13 de abril de 2012

Fortaleza 286 anos: uma cidade necessitando de tratamento

Passarela Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura 

O jornal O Povo (Fortaleza-CE), ontem 12/04/2012 (fonte: aqui), questionou ao jornalista Gilmar de Carvalho se Fortaleza seria uma cidade boa para se viver. Essa pergunta se deu a propósito da véspera das comemorações dos 286 anos da cidade. 
Sua resposta:
"Fortaleza não é um bom lugar para se viver. Estou aqui desde 1950, apesar de tudo. As relações pessoais são agônicas, e prevalece o “salve-se quem puder”. O povo, grosseiro, não pede licença, muito menos desculpas, não diz obrigado, e nem dá bom dia. Perdemos o melhor da ética sertaneja. Levamos a desqualificação do outro às últimas consequências. O riso é de puro deboche. E ainda tem quem acredite que sejamos hospitaleiros.
Não me iludo com o “glamour” da propaganda governamental. A cidade é feia, cresceu sem planejamento: sistema de saúde falho, escolas sem qualidade, trânsito infernal. Os poderosos destruíram as dunas, aterraram lagoas, emparedaram a orla, ocuparam praças e aterraram mangues. Levantaram edifícios dentro do mar, do mangue, e nas áreas de proteção aos mananciais. Nossas praias ainda são (e serão sempre) poluídas. Tudo é destruído em nome da ganância e do lucro.  
Temos vergonha do passado. Destruímos as marcas da memória. Não construímos um projeto de futuro. A cidade reflete a insensibilidade das elites, ávida pela acumulação desenfreada. Tentamos nos equilibrar entre populismos de “direita” e de “esquerda”; shoppings e comércio informal; “topics” e blindados; apartamentos de mil metros quadrados e favelas. 
Voltando à cidade, é grande o número de viadutos sem alças. Nossas calçadas estão tomadas pelas barracas. O Centro está cada vez mais degradado. 
Tentam nos vender a ilusão de que tudo se resolverá em 2014, por um passe de mágica ou por um toque de bola. Será péssimo quando nos dermos conta de que não é bem assim. Nos acenam com o supérfluo, eventos, quimeras. É difícil viver em qualquer lugar. Viver aqui parece ser pior. A semente plantada em torno do forte deu neste caos. A nave vai, à deriva.

"Temos vergonha do passado. (...)Não construímos um projeto de futuro" ".
Gilmar de Carvalho

Rescreveria o texto do Gilmar de Carvalho, sem nenhuma ressalva. Sou fortalezense, moro atualmente em Cabedelo, Paraíba, região metropolitana de João Pessoa a quase cinco anos. Escrevi em 2010, um texto em alusão ao 283 anos da cidade (AQUI), nesse intercurso onde em minha escala de experiências pessoais tanta coisa mudou, não sei se o mesmo pode ser dito de minha cidade natal, que parece ter mergulhado mais profundamente em sua crise de metrópole com  aspirações de megalópole. 
Meu estranhamento e angústia pelos rumos tomados por essa "morena desposada do mar" minha única e pra sempre cidade, se intensificaram. No horizonte do urbanismo e da vida cultural da cidade dois fatos recentes entre tantos são emblemáticos do descaso de Fortaleza em seu crescimento desordenado: O anúncio e início das obras do Acquario do Ceará pelo Governo do Estado (Acquarionao), à revelia da lei e das necessidade prementes da cidade, evidenciando a falta de responsabilidade sócio-ambiental de nossos governantes. 
E o descaso com um ícone recente do progresso da cidade, o Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura, que vê seus equipamentos sendo fechados, como anúncio recente do encerramento das atividades do Espaço UNIBANCO de Cinema, seguindo o anterior fechamento da livraria e, mesmo da deterioração do prédio que carece de manutenção emergencial.


Penso que o sentimento de pertença a um lugar comporta amor e ódio, que em síntese, definem a identidade e o contraditório sentimento de bem estar frente a tantos problemas. Não se desgosta da cidade materna, da mesma forma que não esquecemos a língua materna. A opinião do jornalista aponta para um quadro que vai além do gostar ou não de viver em Fortaleza, vejo muito mais um cenário de uma cidade que maltrata bastante a quem nela vive, sobretudo os mais fracos e vejo uma sociedade que está se especializando em conviver com uma perspectiva de crescimento a qualquer custo de horizontes pouco ou nada estimulantes, sombrios. A não ser que aconteça uma pouco provável virada nos sentidos e rumos dessa metrópole hiper acelerada, ou teremos uma velhice bastante perigosa, muito além do nosso presente. Brevemente, quando esse futuro chegar, ignorando a hipótese que estejamos senis, não teremos nenhuma convicção pra dizer que Fortaleza seja uma cidade boa para se viver.


2 comentários:

  1. Penso se em algum lugar no futuro estaremos lendo um texto parecido sobre a cidade de João Pessoa, espero que isso demore muito, que ainda seja numa cidade vista que não tem nada a noite, que tudo fecha cedo, uma cidade do interior...owwww interior bom esse com orla belíssima, povo tranquilo e onde o sol nasce e se põe ao som de bolero...

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  2. Estamos quase em 2014 e o que vejo é a acentuação dos problemas acima. Melhorias? Nenhuma. Tem gente que diz que Fortaleza é maravilhosa. Em minha opinião, para quem tem muito dinheiro, que vai aos melhores lugares e recebe bom tratamento, talvez. Mas uma cidade se faz para todos. Estou horrorizada com a sujeira e falta de educação das pessoas. É quase impossível pegar ônibus (se conseguir, porque os motoristas tem costume de não parar) e não ser pisoteado e espremido. E a vida noturna não está tudo isso não para quem mora aqui. Para um visitante que passa uma semana pode até ser. Fortaleza precisa que as melhorias comecem e com muita urgência, pois sabemos que tantos problemas não serão resolvidos da noite para o dia. É uma pena pois podia sim ter as qualidades que tantos falam (praias, vida noturna, cultura...), se houvesse um programa educacional e governantes que trabalhassem direito..

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