sábado, 21 de julho de 2012

Shafira



O Marrocos é muito quente nessa época do ano. A aridez do mundo parece resumir e expressar em toda a síntese do belo, o que nos chega aos olhos dos telhados, muros e paredes de Adá-Ashar. O calor e o vento firmam misterioso pacto no sentido de construir um novo mundo, convencendo os homens a habitá-lo, o que o fazem os que vivem por lá, mas sem se perpassarem pela aridez, preservando a vida – a mesma – que elevou as mesquitas e animou o mercado.
Das cúpulas de Adá-Ashar vislumbra-se o limite entre o homem e a natureza. O deserto, vazio e seco e insondável de onde aquém nos chega o vento seco de verão, transmitindo não pouca grandiosa paz. As ondas de calor que movem nossos cabelos, túnicas e véus transferem à alma fragmentos de vozes e a imaginação de lugares distantes dos olhos.
Shafira parecer pulsar como uma parte dessa cidade – quer dizer, sua história confunde-se com as esquinas e becos sinuosos que enveredam os muros caiados e lixados pelas eras e vento. A moça de quase vinte anos se move com graça e leveza ímpar de Calvino, diante do fato de levar à cabeça um grande cesto de frutas frescas – as mais bonitas e deliciosas que a região pode oferecer – e que amiúde traz do mercado. 
Seu corpo é leve, esguio em formas morenas a compor um cenário de paraíso onde, ao se olhar para cima, se pode perceber, além das cortinas esvoaçantes e do céu azul-transparente, a lua de ontem que teima – ainda – em não se deitar.
Quisera não ser um estrangeiro e, de passagem ter tão poucos momentos para desfrutar de tantas belezas. Hoje deixo a estalagem que por Shafira e sua família, tive tão elaborado acolhimento, nessa terra em que o mundo – agora, minha convicção absoluta – realmente começa; para retornar aos meus lugares de Benfica. Estes sim, de fato comuns – onde a sonoridade e ritmos dos mantras e cítaras árabes não reverberam nos ouvidos.
O mar será o portal de projeção da consciência, quando do outro lado, pensar em Shafira e nas coisas calorosas e belezas humanistas – quase intangíveis – no lugar onde Shafira carrega, junto do cesto do mercado dos Pinhões, o meu coração.

(1997?...)

2 comentários:

  1. Essa a Shafira sempre povoou meus sonhos quando ouvia dos meus: "As mil e uma noites ...
    Depois Vancarder nos apresentou nos meados de 90,
    a própria. Ele me autorizou e eu fiz brincolagem, reeditei-o algumas vezes, participei de um concurso literário no Paraná este conto, quando passei a alcunha de Dedham Califa. Mui grato meu caro Vancarder por toda partilha e ensinamentos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dedé,
      foi uma alegria muito grande poder reler esse conto depois de tanto tempo!

      Forte abraço.

      Excluir