quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Na Dimensão Paralela (conto)

Lake (Sylvie Blum)

Já fazia algum tempo que saiam juntos. Ficavam. Faziam-se companhia, porém nenhum dos dois parecia sentir-se em um relacionamento. Eram desligados demais para isso. Não obstante, cada vez mais precisavam da presença um do outro, mesmo para dividir os silêncios nos quais tentavam adivinhar o que o outro estava pensando. 

Repartir também os momentos nos quais as falas saiam iguais. Como no dia que se disseram com vontade de ir à praia. Se deram conta que nunca tinham ido juntos. Justo à praia, que tanto gostavam. Mataram o trabalho e foram no meio da semana. Praia distante, quase sempre deserta. Ao chegar, como esperado, vazia. Andaram muito até chegar perto do mar, estenderam a esteira e silenciaram vendo as ondas. 

Ela tirou a entrada de banho e começou a passar o protetor. Sua pele ganhava uma nova vida ao sol, quase um detalhe, frente ao fato que mesmo depois de todo esses tempo, ele não conseguia desviar os olhos dos fartos peitos dela, mal escondidos pelo biquíni tomara-que-caia. 

O silêncio foi quebrado por ela ao cantarolar à Flor da Pele, do Chico:
“O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo”.
Olhou para ele. Sorriu. Com dois movimentos tirou o biquíni e correu para o mar.
Ele, apesar de lento, quase lerdo, claro foi atrás.

Assim desnudos, entraram no mar como em outra dimensão.
Para dentro do que não tem limite.

Nem nunca terá.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Pela Metade (conto)


Sentia-se meio vazia. Como um copo pela metade. Naquele momento lhe era impossível ver-se como um copo meio cheio e isso entristecia-lhe mais, sempre sentira dificuldade de ver a vida de outra forma. Disse isso para ele pelo telefone da última vez. Ele emudeceu por um segundo. Aqueles segundos pareceram uma eternidade até que ele dissesse algo. Quando tornou a falar disse a ela que ficasse bem. O melhor possível que uma condição de metade de copo permitia. Insistiu que ela tentasse. Na cumplicidade de poucas palavras que tinham, bastava. Ela sorriu. Esperaria. Sorririam juntos novamente.

domingo, 16 de novembro de 2014

Homenagem a Manoel de Barros (1916-2014)


Uso as palavras para compor meus silêncios. 
(Manoel de Barros)

sábado, 15 de novembro de 2014

The Lushlife Project - Small Town In Your Eyes

Belezas (conto)


Apenas o som da água jorrando da torneira da pia da cozinha. Suas mãos estavam imóveis segurando o prato do almoço em meio à espuma de detergente. Por alguns segundos se deteve fitando o vazio além dos imãs na porta da geladeira.

Passado já algum tempo desde que o viu pela última vez, divagava sobre as possibilidades que a vida oferecia e, quase imediatamente, negava. Era apaixonada pelo belo, a beleza a seduzia de todas as formas, sobretudo a beleza recôndita, tímida, discreta de si. Um tipo de beleza que sabia o ser para as pessoas certas. Algo não lhe parecia correto em relação às belezas que lhe chegavam na vida. Por que elas não ficavam? Pelo menos não ficavam sequer um pouco mais? Parecia injusto. A beleza que lhe apaixonava andava solta nas ruas, passava nos ônibus, virava a esquina, seduzia-a no cinema – em frames que nunca mais deixariam suas retinas.

Voltou lentamente ao som da água que caia na pia. E ele, por que não voltou para beijá-la? A beleza do mundo é arredia, pensou ela. Estava melancólica, mas não cabia uma lágrima.

Talvez só lhe pesassem as dificuldades das últimas semanas. Enfim, suspirou breve e lembrou: “belezas são coisas acesas por dentro”, como dizia Mautner.

Luiz Carlos Bizerril e Micheline Torres - Movimentos Improváveis 01

sábado, 8 de novembro de 2014

Uma Foto

Sabina e Tereza.

A Insustentável Leveza do Ser (The Unbearable Lightness of Being).
Philip Kaufman (1987)

La Boutique Fantastique - Schoolyard

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Wes Anderson - Hotel Chevalier

Hotel Chevalier

Chicha Libre - El Borrachito



Estranhezas (conto)

Paul Almásy (1960)

No encontro que se seguiu ela começou a perceber que ele era um tipo estranho, assim como ela, assim como todo mundo. Mas a estranheza dele encantava-a cada vez mais. Devia ter-se levantando da mesa quando ele falou-lhe, em meio a um gole e outro de caipiroska, que havia mudado para um prédio novo e que ele se incomodava cada vez mais com os sons de conversas de vizinhos recém-chegados vindas do hall. Saber de suas presenças ali tão perto, do outro lado da fina lâmina de madeira da porta, causava a ele uma apreensão diante dos inevitáveis encontros dali pra frente. Ele seria obrigado a falar e ser agradável. Não que quisesse ser desagradável com ninguém, mas não queria precisar ser nada em relação a ninguém que não conhecesse bem.

Ele era um tipo dos mais estranhos, mas ao invés de traçar uma rota de fuga, ela preferiu ficar, queria saber onde aquilo ia chegar. Na verdade ela não era assim tão aberta para o mundo quanto parecia, sua abertura e simpatia era o resultado de um bem elaborado roteiro que tentava seguir a risca, um desempenho em busca de continuo aperfeiçoamento. Poucos acreditariam se confessasse isso. Ele mesmo demorou a acreditar. Mas aceitou, afinal, se reconheceu nos sintomas.

Ele também era portador de uma falha em sua abertura social, Disse-lhe que ficava rubro com frequência quando descoberto em pleno ato de representar a si mesmo. Ela pensou, “ele era uma graça tentando fazer um tipo blasé ou descolado”, até conseguia. E ela ria ainda mais. Riram os dois.

Brindaram. Ela tomou sua vodka com gelo e limão. Ele pensou sobre isso depois e achou que era uma forma de promoção pessoal dela, mas deixou pra lá, achou-a algo destemida por isso. Concluiu que se era parte da cena criada para o momento, funcionou. Tocaram as mãos sobre a mesa, primeiro a ponta dos dedos, depois as entrelaçaram. O beijo que trocaram em seguida teve gosto de vodka, limão, chiclete de canela e do cigarro que ela fumava.

Foram pra casa dele e nenhum dos dois se importou pela manhã com os sons de conversa que vinham das escadas enquanto os vizinhos saiam para o trabalho ou para levar as crianças à escola. Nesse dia eles faltaram ao trabalho. Passaram a noite explorando suas estranhezas. Pelos menos seus corpos já não eram assim tão estranhos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Uma foto

Pelos muros da cidade.

"O amor é um cavalo voador com uma frágil asa de vidro"

terça-feira, 4 de novembro de 2014

“Open the pod bay doors, HAL.” (2001: A Space Odyssey)

A Nova Colega (conto)

Carlos León-Salazar

Chegara à empresa bem referenciada, seu currículo se fez antecipar pela chefia. Vê-la lhe deu a sensação que não haveria porque querer trabalhar em nenhum outro lugar do mundo. Ela era de outro setor, e, decepção, no início pouca convivência.

Mas a pausa do café tornou-se um momento mágico. Ela amava café.  Ficou mais fácil, disse depois que tinha uma dessas máquinas importadas de café expresso. Os cafés eram a chance de dizer um olá, derreter-se mirando furtivamente seus olhos. Perguntar, titubeante, qualquer coisa sobre música ou cinema. Sorte, não era do tipo que curtia coisas fáceis, nada de música de barzinho. Viu o último Wood Allen no cinema. Enquanto isso ele se contorcia para não se deixar perceber capturado pelas sardas que cobriam seus ombros, expostas pela generosidade do decote que caia displicentemente pelo braço.

Algum tempo depois, passaram a almoçar juntos, o primeiro cinema, a primeira ida à casa dela. Nunca esqueceu a noite na qual ela disse que ia embora. Usava uma t-shirt branca dele com o Yellow Submarine, nada mais. Caneca de café à mão. Os olhos dela ganharam um tom de verde-fim, ou verde-outono. Não importa muito, o daltonismo não o deixava perceber a nuance. Mas algo dizia que não haveria outra vez. Essas coisas são óbvias. Sempre são.

Faz uns seis meses que ela deixou a empresa e a vida dele.
Mudou-se para o exterior numa daquelas viradas impressionantes de pessoas dispostas a desafiar a si mesmas, não se importou com a relativa estabilidade financeira que tinha. Ele não teve mais notícias dela.

Até hoje, quando lhe chegou um postal dela de um país distante.

sábado, 1 de novembro de 2014

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Skrotes - Summertime

Segundo post com a banda aqui no blog.
Acompanha uma nostálgica viagem em imagens aos anos 1970.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Air - La Femme D'Argent

Comemoração (conto)

Foto: Antonio Lacerda / EFE
A praça estava lotada de bandeiras vermelhas. Todas as pessoas ansiosas pelo início da apuração. Ele chegou cedo, ainda com um pouco de sol da tarde. Andou um pouco pra lá e pra cá, não viu ninguém conhecido, pensou que talvez seus amigos tivessem ido para outro lugar acompanhar a contagem. Era mais um talvez naquele dia incerto. Ninguém lhe ligou. Nada de mensagens. 

Comprou uma cerveja e sentou-se no banquinho da praça, ao lado do quiosque. Chamou-lhe a atenção uma moça bonita que ia e vinha. Inquieta, grande sorriso, sabe lá de onde vinha e para onde ia. O tempo passou a apuração seguia, o voto a voto apertado extraia dos rostos uma expressão de quase desespero. Acompanhava pelo telão o desenrolar dos números.

Displicentemente olhou para o lado e viu a mesma garota de algumas horas atrás. Cabelo castanho escuro profundo, discreta franja. A longa tattoo de finos traços orientais no braço contrastava com a pele branca e os pelos escuros. Mesmo diante da preocupação do momento, o sorriso dela parecia maior, realçado pelo batom vermelho.

Vê-la retirou-o instantaneamente de sua quase letargia depois de tantas cervejas. Ela segurava uma grande bandeira vermelha. Também o olhou. Falou-lhe algo sobre os números do escrutínio, ele concordou. Trocaram mais algumas opiniões rápidas sobre qualquer coisa. Súbito, no telão surge o resultado final. A explosão de alegria da vitória mescla-se com gritos e uma vertiginosa antecipação do carnaval. Eles também pularam. Abraçaram-se e pularam mais. A bandeira dela foi ao chão e eles se beijaram. Demoradamente, exorcizando todas as angustias.

Com a cidade ainda adormecida, viram as primeiras luzes da manhã deitados de mãos dadas no gramado da praça. Ela pegou o primeiro ônibus. Ele seguiu a pé. Prometeram-se rever. Tudo tinha um clima de primeiro dia. O cheiro dela no seu braço. Era ano-novo outra vez.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Savages - You're My Chocolate

Não Lugares (conto)


A porta da sala se fechara há pouco. Tomava uma última taça de vinho na varanda, encostada no parapeito.

Enquanto olhava para suas plantas, esperava uma resposta para os dilemas de seus descompassos afetivos. Queria que seu coração se tornasse prático, assim como ela era a maior parte do tempo com suas obrigações. Parecia não haver jeito. Essa noite era prova disso.

Eles se deviam essa fala, esse olho no olho, esse mergulho no desejo, insolúvel em um meio que não fosse o das relações imaginárias. Durante alguns momentos naquela noite falaram como ia vida. Entre um caso e outro ou uma confissão, foi-se uma garrafa de vinho e alguns cafés.

Nesse reencontro não tocaram no que os fazia querer estar ali e evitaram cuidadosamente suas antigas diferenças, como também, mais ainda o que parecia os unir. Cuidado apenas traído pelo riso bobo no qual se viram envolvidos, revivendo algumas piadas antigas e batidas.

Abraçaram-se longamente na despedida. Novamente aquele beijo perto da boca, a medida do não lugar, do que talvez nunca tenha estado, do que talvez nunca estará. Do que deveria ser.

Tudo o que parecia dizer aquela música antiga e com melodia triste, que estava no CD que ele lhe gravou como recordação.

Depois que ele saiu e a música terminou, fez-se um silêncio para o qual ela não estava preparada. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

The Cotton Jones Basket Ride - Chewing Gum

Pequenas grandes coisas perdidas no meio de tudo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Watcha Clan - We Are One

“Last night i've had a dream...”

Sutilezas


Morreria pra sempre. 
A morte não seria má.

Fernanda Meireles

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Severinas (Eliza Capai, 2013)

A dura realidade das mulheres que recebem o "bolsa-família" e a perspectiva de mudança em suas vidas a partir do benefício.


Severinas from Agência Pública on Vimeo.

Para saber mais:

Vozes do Bolsa Família - Autonomia, Dinheiro e Cidadania. 
Walkiria Leão Rego e 
Alessandro Pinzani
Editora UNESP, 2013



Os resultados do Bolsa Família na vida dos usuários

Os dados empíricos que fundamentam a análise presente no livro são as vozes das mulheres beneficiárias do Programa Bolsa Família, perspectiva essencial e oportuna para quem quer se debruçar sobre essa realidade complexa que é viver em condições de pobreza extrema, o que vem acompanhado de formas de exploração e violência de toda natureza.
 
Mais instigante ainda se torna a realidade aqui apreendida porque envolve um par de pesquisadores composto de forma pouco usual na literatura das ciências sociais voltadas ao mundo empírico. Não se trata somente de uma pesquisadora e um pesquisador, mas da combinação de suas especialidades: ela, cientista política; ele, filósofo.
 
O resultado do trabalho dessa dupla é um livro instigante a partir do olhar de cada um sobre uma realidade por eles vivida e da qual foram extraídos dados provenientes de 150 entrevistas realizadas com essas mulheres, no período de cinco anos.
 
Vozes do Bolsa Família apresenta uma estrutura perspicaz: mescla capítulos de teor teórico com outros de caráter eminentemente empírico. Assim, são tratadas nos dois primeiros capítulos questões relativas à Teoria Crítica, da perspectiva ética, que funcionam como bases teóricas da pesquisa de campo e análise dos dados. O objetivo do trabalho fica claro: “(...) investigar os efeitos políticos e morais (...) do BF sobre os usuários, à luz de uma concepção de autonomia individual baseada no capability approach desenvolvido por Amartya Sen e Martha Nussbaum, assim como da conexão entre renda monetária e autonomia individual teorizada em particular por George Simmel” (p. 15).
 
E é a partir da perspectiva de Sen que o quarto capítulo aborda a questão da pobreza enquanto conceito multidimensional. Aí são tratadas várias de suas dimensões, contrapostas à Constituição de 1988, ressaltando-se em especial as dimensões da vergonha, da desigualdade interna às famílias, da invisibilidade e da mudez, para além das dimensões propriamente econômicas e materiais.
 
No entanto, é no terceiro capítulo do livro que se concentra a riqueza dos cinco anos em que foram realizadas as entrevistas. As mulheres aparecem com sua força e lucidez, provocadas pelos entrevistadores para falar sobre os resultados do programa na vida de cada uma. Os discursos são entremeados por análises dos autores e, mais frequentemente, pelos relatos do impacto que as diferentes – nas relativamente homogêneas – situações de pobreza e exposições ao risco social causaram sobre eles próprios.
 
Quanto aos resultados, há de se destacar dois principais: o primeiro, dar voz e visibilidade a esses sujeitos sociais – as mulheres pobres e miseráveis beneficiárias do BF que vivem em áreas de extrema pobreza –, que no livro encontram, graças à sensibilidade dos autores, um espaço de visibilidade e uma oportunidade de ser ouvidas.
 
Já no que diz respeito ao segundo deles, tão relevante quanto o primeiro, o fato de constatar, a partir dos discursos dessas mulheres, que a condição de beneficiárias do BF está longe de significar, na sua condição concreta de vida, que mergulhem nos preconceitos que políticas de combate à pobreza, em especial de transferência de renda, se vêm envolvidas pela sociedade, em particular pelos seus segmentos não pobres. “No caso brasileiro, o debate sobre o Bolsa Família é um bom exemplo de repetição histórica do preconceito e da força dos estereótipos” (p. 225). É isto que o texto combate de forma minuciosa e com fundamentação teórica e empírica: nossos preconceitos sociais arraigados numa sociedade patrimonialista. Assim é que somente duas das 150 entrevistadas declararam ter deixado de trabalhar depois de passarem a receber o benefício (portanto, o BF não estimula o “não trabalho”); o gasto do recurso é dirigido à alimentação (principalmente das crianças), e não ao consumo de bens supérfluos; boa parte delas consegue se libertar da violência doméstica, a partir do momento que contam com uma fonte de renda; a educação das crianças é valorizada, assim como sua saúde.
 
Finalmente, há a dimensão “libertadora” do acesso ao dinheiro, que abre espaço para a construção da autonomia desses sujeitos sociais, uma vez que representa uma base material imprescindível para tanto. Afirmam os autores: “(...) constata-se que o programa BF garante o direito à vida a milhões de brasileiros; não resolve, contudo, o problema da pobreza. Isso se destaca particularmente quando observamos a situação dos homens pobres no quesito renda regular e aumento de autoestima. Na verdade, os maridos, normalmente, não têm nenhuma perspectiva de trabalho e de melhora de vida; não possuem futuro nessas regiões nas quais se realizou a pesquisa. (...) São pessoas de vida precária em todos os sentidos: precariedade de vínculos, de sentimentos, de relações sociais sempre provisórias, pois provisórios são seus subempregos” (p. 185).
 
Vozes do Bolsa Família, pelo rigor teórico que fundamenta o tratamento dado ao discurso dessas mulheres, associado à sensibilidade dos pesquisadores, traz preciosos elementos para pensar em que consiste, efetivamente, a democracia social e política neste país. E mais que isso: que os caminhos até aqui trilhados apontam de certa forma na direção correta, mas ainda há muito a percorrer para que sejamos uma sociedade mais justa, que permita aos indivíduos terem projetos de futuro, para si e seus descendentes. Eis aí, portanto, uma leitura obrigatória.
 
Amélia Cohn é professora aposentada da USP e bolsista sênior do CNPq

terça-feira, 7 de outubro de 2014

domingo, 5 de outubro de 2014

Embarque (Conto)


Aqueles estavam sendo tempos difíceis para ela. Entre as coisas que teimavam em não dar certo, suas contas vencidas e o dinheiro pouco do novo recente trabalho, tinha na cabeça apenas a certeza de que tudo aquilo seria passageiro. 
Roupa de dormir e uma xícara de chá. Colocou para tocar uma trilha de filme que seu pai ouvia quando ela ainda era criança. No clima nostálgico e embevecido pela música pensou em seu sonho da noite anterior, no qual tudo era diferente, e ela contava para um atento rapaz de olhos ternos que conhecera há pouco, o quanto tinha certeza que algo maravilhoso estava para acontecer. 
Na manhã seguinte ao chegar ao trabalho abriu um e-mail do mesmo rapaz, perguntava por ela e se poderiam se ver novamente. No final de semana combinaram um encontro. Foi um curto e intenso romance. No mês seguinte pediria demissão, entregaria o apartamento e cruzaria o país. Iria resolver seu sonho em uma terra estranha. 
Ao rapaz no aeroporto jurou nunca esquecê-lo. Agradeceu a ele por naquele sonho tê-la ouvido, beijaram-se pela última vez e ela se perdeu entre as outras pessoas por trás do portão de embarque. 
Hoje, depois de tanto tempo, ele tem quase certeza de que tudo aquilo não passou de um sonho. Dele.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Calendário (conto)

Via: Naked Women Drinking Coffee

Acordou. Acarinhou o gato. Ainda de camisola foi à varanda e regou suas plantas. Só então escovou os dentes e olhou-se no espelho. Entre seus compridos cabelos de um sempre fiel castanho-escuro, agora lhe escapavam alguns rebeldes fios brancos. Sem jeito. Tomou um café preto forte. 
Olhou o calendário, lembrou-se que era seu aniversário. Ficou sem graça por tê-lo esquecido. Definitivamente não gostava de aniversários, em especial, do seu. 
Não havia mais tempo. 
Sem mais, enrolou uma echarpe vermelha no pescoço e foi trabalhar.
Se desse compraria uma garrafa de vinho na volta.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

domingo, 21 de setembro de 2014

Liberdade (conto)

Fonte: Insana_Mente, via: Violadreamlover

Nessa manhã de sábado, logo depois de levantar, se via no espelho e pensava o quanto tinha acertado em suas últimas e arriscadas escolhas.  Ela havia deixado para trás sua antiga vida há muito tempo. 
Hoje olhava para si mesma de forma diferente: Seu corpo, suas ideias, algumas imagens da noite anterior que passavam rápido em sua cabeça, seu desejo e a pele ardente, a maneira como se sentia em agitada mudança. 
As coisas que deixou de fazer e que lhe pareciam tão essenciais, as opções que lhe tiraram o sono, agora se perdiam frente ao arrepiar de seus pelos enquanto pensava no que poderia acontecer. Na imagem refletida curtiu seu novo cabelo curto. 
Por sobre o ombro olhou sua cama bagunçada e reparou nas roupas espalhadas pelo chão (formando um tipo de linha desde a porta) e o cara que conhecera no bar perto do seu novo trabalho. 
Ele dormia ainda. No lado esquerdo um dos braços e um pé despencavam pela beirada afora. Sentiu seus peitos emperdenidos. Tornou a deitar-se. Abraçou-o forte pelas costas e embriagou-se de sua própria liberdade.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Juan Carlos Carceres - Darsena Sur (versão eletro)

Darsena Sur - Buenos Aires

Pausa Para o Almoço (conto)

London: Lunch Time - A Time to Think (Source: HERE)

Era sexta feira. Depois de muito tempo, combinaram encontrar-se no intervalo do almoço. Trabalhavam no centro da cidade. Ela, secretária em um escritório de cobranças. Ele, assistente em um depósito de um grande magazine. 
Conheceram-se através de uma amiga em comum, uma prima dela, também em um almoço em restaurante barato pelo centro. Hoje se veriam em um mais arrumadinho, ambos conseguiram mais tempo e saíram ansiosos para o encontro. Ela falava sem parar. E ele controlava-se para não fixar seus olhos nos dela. Impossível não reparar que ela também o olhava, mesmo que muito rapidamente. 
A conversa sobre tudo na vida dos dois se passou em vinte minutos. Antes que tocassem na comida estavam se beijando. Tempos depois confessaram um para o outro terem temido que nunca parassem de falar, e que o beijo jamais ocorresse. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

De Cartas e de Suculentas (conto)

Foto: Katrina Stranger
Sábado, fim de tarde. Havia acabado de tomar banho, trajando apenas a toalha enrolada nos cabelos ainda molhados (coisas dela), arrumara parte da bagunça espalhada pela casa ao longo da semana. Depois café, um tablete de chocolate amargo e um cigarro. Sobre a mesa o bloco de rascunhos de arame com capa preta dura, caneta bic azul, além, à sua frente, um pequeno vaso de cerâmica com alguns pequenos cactos e brotos de suculentas. Ela chamava carinhosamente as suculentas de gulosas (ainda coisas dela). Olhava para o vasinho enquanto escrevia sua última carta para ele.  

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Algo Mais Sobre Perder-se (conto)


Noite, pouca luz pelo quarto. Quase irreal tê-la ali em suas mãos: todos os cheiros, curvas e pelos. E mais aquele jeito de dizer o nome dele em sussurro, que ela recentemente inventara.
O corpo dela em suas mãos, naquele instante inesperado, parecia trazer algo de religioso, de mágico pelo proibido. O algo que o salvaria, o redimiria por alguns instantes quando lembrasse isso no futuro. Por enquanto, a feitiçaria que existia nos movimentos daquelas ancas o fazia perder-se em danação. Sabia disso. Gostava cada vez mais.
Lia em cada reentrância um sinal, pra ele só o caminho que os peitos dela apontavam poderia levar-lhe para o lugar comum de onde nenhuma vida consegue voltar. Era um caminho sem volta. Ela lhe segurava forte uma das mãos. Com a outra cravava as unhas nas costas dele. E assim o conduzia para sabe-se lá onde. 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

The Coasters - Down in Mexico (1957)

Death Proof (Tarantino, 2007)

Nunca é Dia do Caçador (conto)

Death Proof (Tarantino, 2007)
Na tarde que ele a procurou novamente, depois das primeiras (poucas) vezes que se viram, não fazia ideia o quanto estava se tornando perdidamente apaixonado por aqueles olhos escuros, fala rápida, gestos juvenis e balanço displicente daqueles cabelos longos. 
A pele dela agora lhe parecia ter a textura e cor que combinavam com a foto perfeita que pensou dela sem roupa. A nova estória que ela lhe contaria sobre algo banal e cheio de cores o faria pensar o quanto festejaria pra sempre viver naquele sorriso de lábios vermelhos e fartos. 
Bastaria agora que ela dissesse o seu primeiro oi e ele mergulharia no transe irremediável daquelas pernas, como na cena de Down in Mexico, do Tarantino. Mas ele ainda não sabia de nada disso.
O caçador, coitado, agora era a caça.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Space - Magic Fly (1977)

Mais futuro do pretérito.

Jane Fonda em Barbarella (Roger Vadim, 1968)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Annie Hall (Woody Allen, 1977) - Monólogo

Básico


Uma gravura: Bicicleta Sem Freio

Coletivo Bicicleta Sem Freio (Douglas de Castro, Victor Rocha e Renato Reno)

Conto: A Garota da Imensidão Azul


Sábado à noite e ele resolveu sair. Já era tarde, depois de um dia longo e difícil precisava andar pelas ruas, sentir o frio no rosto, animar-se um pouco coma vista das pessoas envolvidas entre nuvens de fumo e cerveja em copos americanos. Sentar em alguns desses botecos de esquina e tomar algumas geladas ao som dos carros, buzinas impacientes de quem não se importa com a displicência boemia que anda a esmo pelo meio da rua às duas da manhã. Ter pra si um pouco dessa madrugada de berros e falta de medo de estar no mundo.

Entrou em um bar que não conhecia. Paredes vermelhas, mesas antigas, ficou no final do longo balcão, ao lado do dancing interessante, com um piso rebaixado, por trás de uma parede curva que lhe oferecia alguma reserva em relação aos olhares que vinham do saguão. Quase vazio, salvo por uma única garota que parecia ter se aventurado a seguir a música que ninguém mais conhecia ali.

A menina dançava sozinha, olhos fechados, jogando seus cabelos compridos para os lados. Longas tatuagens lhe subiam as costas nuas do vestido branco. Era iluminada por um azulado escuro brilhante, quase extraterrestre, com a luz negra do salão. Fartas sobrancelhas escuras. Peitos proeminentes, definitivos, daqueles que não se esquece nunca. E sua bunda e quadris faziam o movimento certo que ele precisava em sua poética desgarrada de inspiração.
A moça desenhava movimentos suaves repletos de impressionismo. Movia-se como em um ambiente sem gravidade, mergulhada na psicodelia da tristeza retrô que preenchia o ambiente. Flutuava hipnótica nesse seu universo interior, aquático. Repetia pra si mesma a letra minimalista que rolava nos alto-falantes, era possível ler nos seus lábios, inacreditavelmente rubros.

Um momento abriu os olhos e olhou exatamente para ele. Quatro ou cinco segundos entre um e outro movimento bastaram. Chamou-o para perto.

Ela era aquele algo que quebraria seu silêncio interior, que romperia bruscamente a voz em off que narrava sua maçante intolerância com quase tudo.
Desejava menos estar em mais um de seus frames do que apenas um passante descendo bêbado abraçado com ela uma rua de bares barulhentos pela madrugada, pronto para tropeçar em qualquer coisa que o destino lhes colocasse no caminho.

Viram o dia raiar juntos. Chamou-a pra si mesmo de "a garota da imensidão azul".

Não esqueceu mais seu perfume. 

Seu batom não largou mais da gola de sua camisa.

domingo, 3 de agosto de 2014

Moby - Sunday (The Day Before my Birthday)


Dia de aniversário. 

"Sunday was a bright day yesterday..."

Bom domingo!

sábado, 2 de agosto de 2014

Bardot e Birkin... Na cama!

"Don Juan ou Si Don Juan était une femme" (Roger Vadim - 1973)
A Terra parou de girar apenas em dois momentos em seu périplo pela galáxia.
Um vez, bem sabemos, foi culpa de Kal-El, vulgo Klark Kent, pra salvar a insossa da Lois Lane.

A outra foi essa aqui:

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Tatá Aeroplano - Na Loucura & na Lucidez (2014)



"...Eu olhei
Nossas fotografias
E percebi
Que minha alma estava aprisionada

E o que fazer
Se agora eu estou
Totalmente liberto das fotografias


Peguei um álbum antigo e botei pra chorar..." (Tatá Aeroplano - Na Loucura).

Disco novo de Tatá Aeroplano, seu segundo álbum solo, daqueles pra botar pra rodar e, no caminho, por que não, botar pra chorar. 
Faixas despretensiosamente elegantes e desestruturantes. Crônicas em versos dos amores como são, e não como gostaríamos que fossem, o afago e tapa na cara da vida que sempre vêm.
Dica: acompanhe com algumas doses de vodka ou de sua bebida de rápido efeito preferida. 
Boa viagem!
Na volta compartilhe aqui suas impressões.

Pra ouvir e para baixar o álbum completo: http://tataaeroplano.com/

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Vangelis - One More Kiss, Dear

"Until tomorrow, goodbye..."

Rachel (Sean Young) - Blade Runner (1982)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

"And nine out of ten film stars make me cry..." (Caetano Veloso - Nine Out of Ten ) (ao vivo)

Portobello Road (1968)

De novo pelo blog, Caetano em Transa, lembrando das lágrimas que ainda correm por nove em cada dez musas do cinema, e da vida.
Quase inúteis.
Perdoe-me se insisto. É que sempre me vejo descendo Portobello Road ao som do reggae de Bob Marley and the Wailers, sempre.
Inescapável.

E eu ainda estou vivo...

The Growlers - Wandering Eyes

Talvez Só Cansaço

Ela chegara tarde do trabalho nesta sexta feira. O pequeno apartamento alugado ainda tinha a sala tomada por caixas da mudança já não tão recente. Não que fosse rica, sequer tivesse sonhado com isso na vida, mas pela primeira vez morava perto da praia, da pontinha de sua janela dava para ver um pouquinho do mar a apenas algumas quadras. Em direção à cozinha, passou entre algumas caixas de livros e umas de não-sei-que-lá que talvez fossem de roupas, Leopoldo, o gato abandonado pelo ex namorado, quase a derruba em sua ânsia pela comida da noite. 

Banho frio. Ainda não instalara o chuveiro elétrico, por isso, maldizia-se da preguiça, falta de tempo e ou da falta de saco pra falar com estranhos, um eletricista que viesse resolver a tal coisa. Deixou os pesados óculos sobre a mesa, não precisaria mais deles hoje. Chá verde a mão, alguns biscoitos integrais, sentou no velho sofá laranja devidamente coberto com uma pesada manta e se pôs a pensar na vida. Leopoldo já saciado, agora insistia em passar entre sua cabeça e a parede por trás do sofá. 

Estava muito cansada hoje, pensara em chorar na volta pra casa, não sabia bem o porque. Talvez saudade de algum plano esquecido, de alguma coisa boa do tempo com o ex-namorado, talvez a demora em encontrar outra pessoa, ou, estivesse aprendendo a ser feliz com sua própria nova vida. Sempre desconfiara da felicidade. 

Ela se deu conta que hoje um velho amigo do trabalho parecia flertar com ela. Ele lhe sorrira algumas vezes mais ao falar sobre suas impressões do último filme que falava, óbvio, de amores que acabam e outros que começam do nada. O rapaz de barba rala e óculos, sempre tão gentil. Pensou: Essa bagunça uma hora passa. Convenceu-se que nesse momento só estava cansada. 

Permitiu-se e chorou baixinho. 

terça-feira, 15 de julho de 2014

domingo, 13 de julho de 2014

Uma foto: Anna Karina

Pra fechar o domingo de fim de Copa do Mundo.


A Sorte Conta Muito



“A sorte conta muito”, lera em uma crônica ao final daquela Copa do Mundo.
Alguns dias depois, tarde da noite à meia luz do abajur, se perdera em um instante em que via o fracasso do favorito na Copa como um paralelo do que passava nos últimos tempos. Em outro momento não distante voltara a fumar, coisa que sempre fizera sem jeito, como um eterno iniciante, as escondidas de si mesmo. A garganta seca de nicotina, um copo de vodka, nada no estéreo. Não via motivos pra mover-se até o toca discos e colocar as mesmas músicas que falavam sobre ela. As que restaram depois que ela se foi.

Deitado sobre o assoalho do velho apartamento, a vida sob esta perspectiva era em preto, branco e cinza que se insinuava nos contornos dos móveis, do quadro no chão ainda esperando pra pendurar, dos jarros vazios nas quais as samambaias e suculentas feneciam sem água. “Se não fosse aquela bola que explodiu no travessão na prorrogação”, “se não tivesse entrado aquele maldito zagueiro reserva que marcaria o gol que lhe arrancariam o título”. Lembrou o quanto ela odiava metáforas futebolísticas. Gargalhou pra dentro. Deu um trago no cigarro. Engasgou.

Outro gole de vodka. Bebera mais de meia garrafa desde que começara a olhar as polaroides de quando estavam juntos. Gostava em especial daquelas sacanas, as mesmas que, numa noite, ela pediu para ele que tirasse. Estavam em um quarto de pousada numa praia distante, em uma das primeiras vezes que viajaram juntos.

Nua, fazia poses sobre a cama, sem nenhum pudor, algo entre moleca e a seriedade das mais frias modelos. Fitava-lhe profundamente. Seus olhos intensamente negros, cabelos lisos, franja, compunham sua nouvelle vague particular. Instante infinito congelado no contraste noir dos seus pelos escuros sobre a pele inacreditavelmente branca de sua pélvis. Suas pernas abertas eram o lugar no qual ele tinha o mundo pra si. O sítio no qual durante tanto tempo pensou que nunca chegaria. Chegara. E o tempo e as trapaças da vida encarregaram de levar.

Hoje ouvira de alguém que ela estava viajando, não sabia ao certo por onde. Seguira resoluta seu rumo, aquele mesmo, que um dia confessou para ele na cama antes de adormecer... E ele não quis entender. Parecia-lhe que ela hoje já não estava com ninguém, o que parecia não fazer-lhe a menor diferença. Até escrevera para ele. No verso de um selfie de polaroide disse: “Querido, vi muita coisa que gostaria imensamente ter podido compartilhar contigo, hoje as coisas estão mais claras, vejo o mundo sob as cores de uma tarde mágica, nada parece mais ter fim! Um dia talvez eu volte pra te contar. Fique bem. Com carinho. A. K.”.


Mais um gole. Hora de fechar a caixa de fotos. Não contara com a sorte, como o goleiro daquela seleção que levou o gol da eliminação das oitavas de final na prorrogação. Os primeiros movimentos da rua se faziam ouvir. Logo mais tinha que ir trabalhar. Dormiu com a foto dela sob o travesseiro.