terça-feira, 25 de novembro de 2014

Pela Metade (conto)


Sentia-se meio vazia. Como um copo pela metade. Naquele momento lhe era impossível ver-se como um copo meio cheio e isso entristecia-lhe mais, sempre sentira dificuldade de ver a vida de outra forma. Disse isso para ele pelo telefone da última vez. Ele emudeceu por um segundo. Aqueles segundos pareceram uma eternidade até que ele dissesse algo. Quando tornou a falar disse a ela que ficasse bem. O melhor possível que uma condição de metade de copo permitia. Insistiu que ela tentasse. Na cumplicidade de poucas palavras que tinham, bastava. Ela sorriu. Esperaria. Sorririam juntos novamente.

domingo, 16 de novembro de 2014

Homenagem a Manoel de Barros (1916-2014)


Uso as palavras para compor meus silêncios. 
(Manoel de Barros)

sábado, 15 de novembro de 2014

The Lushlife Project - Small Town In Your Eyes

Belezas (conto)


Apenas o som da água jorrando da torneira da pia da cozinha. Suas mãos estavam imóveis segurando o prato do almoço em meio à espuma de detergente. Por alguns segundos se deteve fitando o vazio além dos imãs na porta da geladeira.

Passado já algum tempo desde que o viu pela última vez, divagava sobre as possibilidades que a vida oferecia e, quase imediatamente, negava. Era apaixonada pelo belo, a beleza a seduzia de todas as formas, sobretudo a beleza recôndita, tímida, discreta de si. Um tipo de beleza que sabia o ser para as pessoas certas. Algo não lhe parecia correto em relação às belezas que lhe chegavam na vida. Por que elas não ficavam? Pelo menos não ficavam sequer um pouco mais? Parecia injusto. A beleza que lhe apaixonava andava solta nas ruas, passava nos ônibus, virava a esquina, seduzia-a no cinema – em frames que nunca mais deixariam suas retinas.

Voltou lentamente ao som da água que caia na pia. E ele, por que não voltou para beijá-la? A beleza do mundo é arredia, pensou ela. Estava melancólica, mas não cabia uma lágrima.

Talvez só lhe pesassem as dificuldades das últimas semanas. Enfim, suspirou breve e lembrou: “belezas são coisas acesas por dentro”, como dizia Mautner.

Luiz Carlos Bizerril e Micheline Torres - Movimentos Improváveis 01

sábado, 8 de novembro de 2014

Uma Foto

Sabina e Tereza.

A Insustentável Leveza do Ser (The Unbearable Lightness of Being).
Philip Kaufman (1987)

La Boutique Fantastique - Schoolyard

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Wes Anderson - Hotel Chevalier

Hotel Chevalier

Chicha Libre - El Borrachito



Estranhezas (conto)

Paul Almásy (1960)

No encontro que se seguiu ela começou a perceber que ele era um tipo estranho, assim como ela, assim como todo mundo. Mas a estranheza dele encantava-a cada vez mais. Devia ter-se levantando da mesa quando ele falou-lhe, em meio a um gole e outro de caipiroska, que havia mudado para um prédio novo e que ele se incomodava cada vez mais com os sons de conversas de vizinhos recém-chegados vindas do hall. Saber de suas presenças ali tão perto, do outro lado da fina lâmina de madeira da porta, causava a ele uma apreensão diante dos inevitáveis encontros dali pra frente. Ele seria obrigado a falar e ser agradável. Não que quisesse ser desagradável com ninguém, mas não queria precisar ser nada em relação a ninguém que não conhecesse bem.

Ele era um tipo dos mais estranhos, mas ao invés de traçar uma rota de fuga, ela preferiu ficar, queria saber onde aquilo ia chegar. Na verdade ela não era assim tão aberta para o mundo quanto parecia, sua abertura e simpatia era o resultado de um bem elaborado roteiro que tentava seguir a risca, um desempenho em busca de continuo aperfeiçoamento. Poucos acreditariam se confessasse isso. Ele mesmo demorou a acreditar. Mas aceitou, afinal, se reconheceu nos sintomas.

Ele também era portador de uma falha em sua abertura social, Disse-lhe que ficava rubro com frequência quando descoberto em pleno ato de representar a si mesmo. Ela pensou, “ele era uma graça tentando fazer um tipo blasé ou descolado”, até conseguia. E ela ria ainda mais. Riram os dois.

Brindaram. Ela tomou sua vodka com gelo e limão. Ele pensou sobre isso depois e achou que era uma forma de promoção pessoal dela, mas deixou pra lá, achou-a algo destemida por isso. Concluiu que se era parte da cena criada para o momento, funcionou. Tocaram as mãos sobre a mesa, primeiro a ponta dos dedos, depois as entrelaçaram. O beijo que trocaram em seguida teve gosto de vodka, limão, chiclete de canela e do cigarro que ela fumava.

Foram pra casa dele e nenhum dos dois se importou pela manhã com os sons de conversa que vinham das escadas enquanto os vizinhos saiam para o trabalho ou para levar as crianças à escola. Nesse dia eles faltaram ao trabalho. Passaram a noite explorando suas estranhezas. Pelos menos seus corpos já não eram assim tão estranhos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Uma foto

Pelos muros da cidade.

"O amor é um cavalo voador com uma frágil asa de vidro"

terça-feira, 4 de novembro de 2014

“Open the pod bay doors, HAL.” (2001: A Space Odyssey)

A Nova Colega (conto)

Carlos León-Salazar

Chegara à empresa bem referenciada, seu currículo se fez antecipar pela chefia. Vê-la lhe deu a sensação que não haveria porque querer trabalhar em nenhum outro lugar do mundo. Ela era de outro setor, e, decepção, no início pouca convivência.

Mas a pausa do café tornou-se um momento mágico. Ela amava café.  Ficou mais fácil, disse depois que tinha uma dessas máquinas importadas de café expresso. Os cafés eram a chance de dizer um olá, derreter-se mirando furtivamente seus olhos. Perguntar, titubeante, qualquer coisa sobre música ou cinema. Sorte, não era do tipo que curtia coisas fáceis, nada de música de barzinho. Viu o último Wood Allen no cinema. Enquanto isso ele se contorcia para não se deixar perceber capturado pelas sardas que cobriam seus ombros, expostas pela generosidade do decote que caia displicentemente pelo braço.

Algum tempo depois, passaram a almoçar juntos, o primeiro cinema, a primeira ida à casa dela. Nunca esqueceu a noite na qual ela disse que ia embora. Usava uma t-shirt branca dele com o Yellow Submarine, nada mais. Caneca de café à mão. Os olhos dela ganharam um tom de verde-fim, ou verde-outono. Não importa muito, o daltonismo não o deixava perceber a nuance. Mas algo dizia que não haveria outra vez. Essas coisas são óbvias. Sempre são.

Faz uns seis meses que ela deixou a empresa e a vida dele.
Mudou-se para o exterior numa daquelas viradas impressionantes de pessoas dispostas a desafiar a si mesmas, não se importou com a relativa estabilidade financeira que tinha. Ele não teve mais notícias dela.

Até hoje, quando lhe chegou um postal dela de um país distante.

sábado, 1 de novembro de 2014