quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Um Outro Conto Sobre Leia (em memória de Carrie Fisher 1956-2016)

Leia e Han

Havia tempo que se prometiam um reencontro, assim, despretensioso, apenas os dois. Como se fosse possível esconder algo deles mesmos e só falar sobre a vida. Depois de tanta correria, tantos desencontros e distância, umas cervejas naquele bar onde se viram pela primeira vez seria o ideal. Ideia dela, sempre dela, mas, porque não?

Ela surgiu mais linda do que nunca, havia cortado os cabelos, nunca a vira assim. “O tempo, e o pilates foram generosos”. Disse para ele em meio a um sorriso confidente.

A conversa alegre e fluída do início da noite foi sucedida por uma intensa euforia   intercalada por alguns silêncios nos quais olhavam para os lados, para os copos de cerveja, para as telas inertes dos celulares, menos nos olhos um do outro.

Já se encaminhavam para o momento que certamente falariam sobre eles e o real significado de estarem ali, quando ele, sempre ele, mudou o rumo de tudo para comentar sobre a inesperada morte de Carrie Fisher naquele dia. Fã de Star Wars, confessou que Princesa Leia tinha sido sua primeira musa do cinema, ainda na infância lá na década de 1970, algo que, pelo tempo que ela o conhecia, claro, já sabia. Ela lembrou que no início ainda sentiu uma ponta de ciúmes, mas depois passou a ver com ternura aquela paixonite atávica de criança que ele (ainda) trazia.

Chegou a hora de se despedirem. Sabiam ambos que aquela janela seria única, não mais teriam oportunidade assim de se verem. Já na rua, antes dela entrar no táxi eles se abraçaram. Já sob evidente efeito das cervejas, ele disse para ela que ela havia sido sua própria Leia Organa. Ela respondeu que sabia, pois para ela ele sempre seria de alguma forma o seu Han Solo. Porém, como na continuação da saga, também não ficariam juntos para sempre.


Ela lhe deu um beijo perto da boca e partiu. 

Leia se fora. Duas vezes em um mesmo dia. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Sonhos ao Café (conto)


Quase todos os dias, ao café, ele contava seus sonhos. Ela os ouvia, um tanto a contragosto,  mas meio curiosa.

Os dela porém, raros. Quase nunca os falava. Ficava em silêncio, não sabia serem imagens do seu futuro, ou de seu passado, que voltavam a lhe afligir como presente. Ou simplesmente, esquecimento.

Essas conversas terminavam quase sempre com os dois mudos. Seus olhares atravessando o inalcançável de cada um, esbarrando na parede branca por trás.

Um dia, devagar as mãos de ambos cruzaram a mesa, se tocaram, entrelaçaram os dedos de leve.

O toque delicado disse a eles tudo sobre o futuro.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

terça-feira, 1 de novembro de 2016

domingo, 23 de outubro de 2016

domingo, 16 de outubro de 2016

Battlestar Galactica (OST) - The Sense Of Six (Richard Gibbs)



Pequeno Conto de Partida


Ainda podia vê-la em todos os cantos, impressa nas paredes, no angustiante ato de reconhecer familiaridades nas voltas que fazia a fumaça do cigarro. Também podia ouvi-la como ainda estivesse ali, andando pela casa, mesmo que fosse apenas o eco distante da batida da porta quando partiu.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

The Red Drum Getaway

Quando Hitchcock encontra os vilões de Kubrick.


The Red Drum Getaway from Gump on Vimeo.

Um Outro Conto de Cthulhu (#Fora Temer)




Foi encontrado em 2934 nas ruínas da Cidade Esquecida de Brasília, remota capital política da América Latina Unida, um raríssimo artefato, conhecido na antiguidade da época da Internet física como HD Externo.

Uma equipe de ciber-trans-arqueólogos o encontrou sob diversas camadas de entulho de concreto e terra, no local que segundo antigos registros da Ancien-Ultra-Deep Web ficava o que era conhecido por Palácio do Planalto.

Segundo uma lenda sombria (transmitida oralmente através das gerações, com toda precaução e temor pelos povos daquela região pelos canais de comunicação chamados por eles de “redes sociais”) a hecatombe da Pan América Latina se deu quando um vampiro de medonha aparência cefalópode através de um golpe de estado-jurídico-mediático tomou o poder da próspera cidade Estado Autônoma e capital da Pan-República.

Depois que sua criptografia foi facilmente quebrada e seus dados acessados, revelaram-se as sórdidas e inenarráveis tramas e rituais de conjuração utilizados para efetuar a sórdida manobra de tomada do poder e possessão das frágeis mentes dos povos coxinha que habitavam preferencialmente as capitais das regiões autônomas, sobretudo perto das regiões litorâneas. 

Seriam eles Adoradores-do-Mar? Pescadores? Por que a aparente obsessão por torres em frente para o mar? Ninguém sabe ao certo. O que se sabe a partir de fragmentos de registro dessa paleo-internet é que sob o domínio mental do poderoso vampiro e de seus sacerdotes midiáticos, milhares destes antes pacatos condutores de carros SUV, como nunca antes esperado, se lançaram como zumbis às ruas. 

O caos depois disso foi tão avassalador que em pouco tempo nada mais existia da pacata vida anterior e somente um silêncio ignominioso restou para atravessar as eras e ser revelado agora por esses infelizes pesquisadores.

Dois dos quatro ciber-trans-arqueólogos, desapareceram misteriosamente durante as escavações. 
Outro foi terrivelmente assassinado em condições de absoluto mistério em sua casa meses depois. Encontrado na sala de jantar, retalhado por um cortador de pizza. 

O último, professor sênior da conceituada Universidade Paraperceará-Angola, enlouqueceu definitivamente após tentar divulgar as descobertas. Não conseguiu pois, teve um colapso nervoso e ficou maluco-de-pedra. O estranho artefato tinha desaparecido, todas essas informações foram conseguidas graças a recuperação de seu diário.

Está internado em um sanatório de segurança máxima da Rede Arkham-Pague Menos de Bem-Estar-Integral-da-Pessoa-Humana ou Quase-Humana. Incomunicável, apenas médicos e neuro-ciber-pesquisadores têm acesso à sua cela.

Há muito não fala mais coisa com coisa. Em meio a baba esverdeada apenas balbucia de tempos em tempos, como um mantra, a frase de sentido obscuro:

“Fora Temer”...

Richard Gibbs - The Storm and The Dead (Battlestar Galactica Theme)


Adama e Roslin

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

sábado, 23 de julho de 2016

quinta-feira, 7 de julho de 2016

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Navidad (reedição)

Reedição de um poema em prosa publicado aqui em 03 de julho de 2012.
Editei os parágrafos e alterei algumas palavras, como também, convidei a sedutora solitude de Edward Hooper para ilustrá-lo.
Espero que gostem.


Edward Hopper

Dentro de algum sonho esquecido, em um apartamento ao qual nunca mais voltaria, no fundo de uma grande gaveta na sala havia uma caixa de pequenas e intricadas coisas de fazer rir. Um trancelim de barbantes de graça, uma caixa diáfana de cócegas fáceis, um silêncio antes da risada e uma infinidade de pequeninos versos por serem escritos.

Como o vento essas coisas se foram para se tornarem outras, e se juntarem a sabores, fotos e lugares imprevistos, visitados com delicadeza em dias de sol, sem que ninguém soubesse. Praias desertas, outros sorrisos, colo e carinhos. 

Ao Sol a vida pode voltar a correr como a areia daquela praia secreta. Uma forma de espera, um aconchego, para poder contar uma nova grande novidade. 

Porém, o tempo nunca está a favor. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

sábado, 4 de junho de 2016

Muhammad Ali (1942 - 2016)

A Lenda


Homenagem do blog ao gigante dos ringues e sua luta por um mundo menos injusto.
Em seu legado, além da poética de seu movimentos e da potência de seus golpes, nos deixa a precisão de suas palavras e atos contra o racismo, a desigualdade e a intolerância.
De lutadores assim o mundo precisa.




sábado, 28 de maio de 2016

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Uma Infinita Tristeza IV



Fora, Temer!

Peguei aqui: Escreva Lola Escreva

Uma Infinita Tristeza III


Lula abraça Dilma no Palácio do Planalto.



O Golpe de Estado no Brasil está consumado.
Mais uma vez as velhas oligarquias, elites fundiárias, rentistas, setores reacionários tomam o poder de assalto.

Vergonhosamente o Brasil assume seu papel de vira-latas da política, piada internacional. "Republica de Bananas", mais do que conveniente diante do vergonhosa falência de nossas instituições, que deveriam zelar pela Constituição e pela Democracia.

Os que hoje celebram o Golpe, como em 1964, ou estão investidos de ma-fé, o que é cruel pelo cinismo. Ou então, alienados, o que não é menos imperdoável. 

As classes menos favorecidas, os pobres e trabalhadores sentirão na pele logo mais a pior parte do resultado nefasto de todo o conluio neoliberal em curso.

Os EUA reconhecem o Golpe, claro, lucrará muito com a manobra da plutocracia tupiniquim que subtraiu 54 milhões de votos.

A Democracia no Brasil demorará muitos anos para tornar a se reerguer.

Oxalá, esteja errado.

Ao povo, restará a luta pela reconstrução de um projeto de nação autônoma, popular, solidária, justa, tolerante, igualitária e próspera. 

Às ruas!
Fora Temer!

Eleições Diretas já!

Fascistas, não passarão.

Manu Chao - Para Todos Todo (EZLN)

Uma Infinita Tristeza II
Mais um dia na longa noite dos 500 anos.

O Golpe foi dado. 
Haverá luta!

"Hermanos,
nosotros nacimos de la noche
en ella vivimos
y moriremos en ella
pero la luz será mañana para los más,
para todos aquellos que hoy lloran la noche,
para quienes se niega el día.
Para todos la luz,
para todos todo" (EZLN).


quarta-feira, 11 de maio de 2016

terça-feira, 10 de maio de 2016

A Farsa do Impeachment da Presidente Dilma Rousseff Vai Virar Tragédia?


Bob Fernandes da TV Gazeta comenta a respeito do golpe jurídico/legislativo/mediático em curso no Brasil: 
"Começou como farsa, segue como comédia e circo. Que não termine em tragédia".

segunda-feira, 9 de maio de 2016

domingo, 8 de maio de 2016

Keith Mansfield - Exclusive Blend (1969)




Uma Carta que Não Foi (conto)



Parei esse dia para te escrever uma carta, uma dessas em que não cabe falar de amor. Tenho estado parado todos esses dias, justo porque teu amor me faltou. Olhar insistentemente para o telefone não é solução. Escrever, muito menos.

Ainda não sei se a enviarei, se terminá-la talvez não sobreviva ao meu próximo suspiro, ou ao engasgo de uma fala que meus amigos já não aguentam mais ouvir. Nem eu.

Não sei se teu cheiro, a lembrança de minhas mãos entre tuas pernas, ou das janelas do carro embaçadas numa rua qualquer onde nada parecia fazer mais sentido do que a entrega desesperada dos lados escondidos de nossos corpos. Tudo que me faz as mãos suarem enquanto escrevo.

Já vai muito tempo desde então. Nesse tempo quis te colocar num conto e você queria me ver sumir.

Enfim, ambos escapamos, que triste. Só para continuar a viver. Entrar na fila do próximo filme. Ter mais uma resenha para começar a escrever e nunca terminar.

Nesta carta que ainda não sei se te entregarei, gostaria mesmo de não ter que escrever nada. Apenas desenhar tuas pernas abertas como vi pela primeira vez, mas num arranjo no qual pudesse expor a mágica dos teus pelos, e dos tons e cheiros que nunca me deixaram.

Não sei desenhar tão bem, nem minha memória anda tão boa.

Essa carta não seguirá.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A Canção (conto)

Robert Doisneau, Le Muguet du Métro, 1953
Fim de tarde e seu ônibus parou em um sinal no retorno do trabalho. Pela janela viu um casal jovem, enamorado, sentados abraçados num banco de praça. 

Pensou numa canção que falava da paixão e seus riscos: encontros, desencontros e perdas. A mesma que cantarolou muito tempo atrás, depois que um grande relacionamento seu tinha acabado. Ela o fez em um momento quase sem intenção, como uma música de fundo que só ela podia reconhecer, para um amante fugaz, assim também, em um banco de praça. 

Se lembrava que este reconheceu a música de pronto e completou o verso, que na verdade, falava unicamente dela. 

Terminaram ainda naquela semana. Não houve nenhum sobressalto. Guardou esse momento para si, como também essa canção. 

Nunca mais a cantou para ninguém.

domingo, 1 de maio de 2016

terça-feira, 12 de abril de 2016

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Orvalho Sobre Flores de Pedra

Lisette Model On Fifth Avenue. New York City. 1940s

Andou pelas ruas do Centro como há muito não o fazia. O movimento rude de antigamente lhe fazia bem, cheiro de diesel, suor. Sons do trânsito e as cores dos velhos prédios que apenas intuía, pois, envolta em seu particular daltonismo.

Há tempos que nos levam para longe, para o lugar onde o esquecimento é máxima lembrança inscrita na pele, como no relance do sonho logo depois de acordar, a imagem da pracinha do bairro, nas horas mortas das tardes de domingo – nada menos distante, nada mais vazio.

O castigo da lembrança se esvaia pelo movimento, sabia disso. Por isso naquele dia desceu de seu prédio, abandonou seu carro, faltou o trabalho e andou até lhe doerem os pés. Não tinha porquês na caminhada, não havia nenhuma meta, e aquela avenida extensa lhe servia muito bem, a impressão que não haveria fim lhe era conveniente.

Encostou-se numa sombra de marquise, pediu um cigarro a um estranho. Riu de uma piada sem graça. Tragou lentamente, quase se esquecera porque parara de fumar, quase já não lembrava porque mudara tanto.

Definitivamente, algo lhe dizia para não seguir.

Não continuou.

No dia seguinte partiu para ser ela mesma. No final, as dores de amor se esvaem pelo caminho, pensou. 

Como orvalho sobre flores de pedra, em poemas dos outros.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Seu Pereira - Hino Contra o Golpe no Brasil



AFINAL, IMPEACHMENT É GOLPE? NARRAÇÃO: JUCA KFOURI



Juca Kfouri narra pra gente, quase desenhando, como nas condições atuais o Impeachment da presidenta Dilma não passa de mais um Golpe à Democracia brasileira.

Não esqueceremos o Golpe de 1964, jamais!

domingo, 20 de março de 2016

I, Monster - Daydream In Blue

Les Amoureux Aux Clair de Lune (1949) - Marc Chagall


segunda-feira, 14 de março de 2016

Alacran — Reflejo de Luna

DITADURA NUNCA MAIS! HORA DO POVO NA RUA.



 O QUE FAZER AGORA?



Reproduzido do Blog Tijolaço, por Fernando Brito. 
Fonte: Aqui



Uma das coisas boas em escrever um blog é que a gente sai do figurino frio do “jornalismo de jornal” onde, quase sempre que você encontrar uma matéria muito carregada de adjetivos, acredite, ela é contra você.

Então, sirvo-me desta licença para dizer que imagino que o leitor deste blog – salvo os trolls espíritos-de-porco que, como não têm ideias a defender, dedicam seu tempo a críticas as alheias – está, tal como eu, entre perplexo e angustiado com os acontecimentos de hoje.

Má hora para longos raciocínios, busca de erros, de razões profundas por termos chegado a este ponto: as ruas cheias por uma multidão que, de rica e remediada e branca que é, não tem nem mesmo os motivos da brutalidade e da deseducação formal para ser assim, odiosa e linchadora.

Hora, apenas, para um cair em si e ver o que devemos a este país, aos que ensaiaram sua modernização soberana, recusando a condição de colônia, aos que nos trouxeram de volta à democracia, às liberdades, ao direito de sermos o que somos e dizermos o que pensamos.

Tempo de medir, apenas, o que podem ser as ruas cheias do Brasil moreno, mestiço, sofrido, se ele perceber que pode voltar a confiar nos que, mal e mal, procuraram falar em seu nome e defender seus interesses.

Eu não vou às ruas defender o que o PT é ou o que foi, mas o que representou para o povo brasileiro, que seja mal e mal.

Porque é isso o que fica na História, como ficaram de Getúlio as conquistas sociais que são um nada, perto do ideal, mas são um infinito para os que eram escravos antes dele.

Vou defender um Lula e, até um PT -embora neste eu creia menos – que necessariamente serão mais incisivos, mais firmes, menos todos e concessivos do que foram.

Porque a fúria do conservadorismo que contra eles se voltou não pode ser pelos defeitos, porque defeitos – e muito mais graves-  vivemos por séculos e isso nunca foi motivo de uma campanha de extermínio como a que assistimos neste momento.

Não, nestes dias não vou procurar falar com quem ache o PT perfeito e a Lula um anjo.
Vou procurar falar com os que reclamam, recheiam-se de senões, falam de decepções e frustrações.

E perguntar-lhes: é por isso que você vai deixar haver um golpe, vai deixar que o país caia no fascismo, que nossas liberdades sejam aniquiladas e que o povo brasileiro seja despojado daquele pouco que, mal e mal, os governos petistas lhe proporcionaram?

Menos os homens fazem a história do que são feitos por ela.

A resposta à perplexidade só pode ser uma: decisão, na hora em que a liberdade e os direitos do povo brasileiro pedem por ela.

Não sei se Dilma o compreenderá. Sobre Lula, tenho boa dose de certeza.

E se de todos posso ter dúvidas, como você pode as ter, de nós mesmos não podemos tê-las, sem que isso represente uma deserção do que pensamos e sentimos.

É essa a pergunta que todos os dias farei e a resposta que a todos darei.

Não temos a máquina de manipulação da Justiça e da mídia, mas ainda temos a nós mesmos para falar, mostrar e ousar.

A direita encheu as ruas por conta de um longo processo de omissões daqueles que, agora, avança para destruir.

Se não quisermos fazer o mesmo, tudo o que não podemos fazer é cometer o mesmo erro da omissão.


domingo, 13 de março de 2016

segunda-feira, 7 de março de 2016

sexta-feira, 4 de março de 2016

Não Vai Ter Golpe!

Março de 2016 não será outro março de 1964.
Hora de lutar pela Democracia.

NÃO VAI TER GOLPE!





É HORA DE DEFENDER NAS RUAS NÃO LULA — MAS A DEMOCRACIA AMEAÇADA. 

POR PAULO NOGUEIRA (fonte: DCM)


Não é hora de atear fogo às vestes.

Os dados estão rolando. Não estamos vivendo um novo 31 de março de 1964.
Não ainda.

A Operação Aletheia – que deveria se chamar Operação Globo – não define nada. Seu mérito maior, se é possível usar essa expressão, é revelar as intenções da Lava Jato e Sergio Moro, sob  as bênçãos dos Marinhos e, por extensão, da plutocracia.

O objetivo jamais foi erradicar a corrupção, mas derrubar o governo e acabar com Lula. (No triunfo supremo do cinismo, Aletheia é uma palavra grega que significa busca da verdade.)
A sequência dos acontecimentos é clara quanto a isso: o vazamento pela PF da alegada delação de Delcídio, o Jornal Nacional de ontem com conteúdo assassino e, na manhã desta sexta, um enxame de policiais fortemente armados para capturar Lula.

Tudo isso às vésperas de uma manifestação pró-impeachment.

A grande questão, agora, é como os defensores da democracia – não estamos falando apenas de petistas – reagirão.

A verdade estará nas ruas.

Caso os antigolpistas reajam como vigor – atenção: não confundir com violência – o golpe será abortado. Caso corra sangue de brasileiros, o que seria uma tragédia, todos sabemos de quem é a culpa: dos mentores da ação desta manhã.

Não é hora de lamentar a apatia suicida com que o governo tratou a Lava Jato. Como o ministro da Justiça recém-saído pôde cruzar os braços diante das barbaridades cometidas por Moro e pela PF? Como, em nenhum momento, o PT expôs a face real da Lava Jato? Como os governos Lula e Dilma continuaram a dar verbas bilionárias de publicidade para uma empresa com um histórico notável de golpes contra governos populares?

Isso tudo, as bobagens cometidas no meio do caminho, deve ser analisado depois.


Agora é hora de defender nas ruas não Lula, não o PT, não Dilma – mas a democracia.

As Marcas Daquele Lugar (conto)

Richard Tuschman: Woman Reading 

Ela precisava alugar um lugar para aproveitar a breve licença que conseguira na Universidade para concluir seu artigo. Conseguira um apartamento mobiliado no estado vizinho. Não tão distante que não fosse possível voltar rápido de carro caso necessário, nem tão próximo que a colocasse ao alcance das inevitáveis interrupções, sobretudo, familiares. O tempo era curto. Tudo deveria ser intenso e rápido. O texto deveria sair dessa vez de qualquer jeito.

Poucas malas no carro, tomou a estrada muito cedo. Chegou quase pontualmente às dez horas, os poucos minutos de atraso se deveram a algumas voltas que teve dar a mais depois que perdera um acesso na entrada da cidade. Sempre acontecia, se perdia de uma forma ou de outra, odiava dirigir ali. Bairro de classe média alta, ruas limpas e bem pavimentadas, arborizado. Teria a paz que precisava para o trabalho.

A dona do apartamento a recebeu com euforia, achou ser um traço dela, um condicionamento pela frequência com a qual recebia inquilinos temporários. Talvez tivesse uns 65 anos, não mais do que isso. Apesar da voz acelerada, como quisesse sair dali o mais rápido, mostrou em detalhes o que era fundamental para a operacionalidade do lugar. Durante o briefing, pôde perceber pelos livros na estante do gabinete de trabalho que ela era de uma área de pesquisa pela qual também se interessara quando estava no doutorado um tempo atrás. Muito provavelmente, professora de alguma universidade. Tentou puxar conversa sobre isso, sugeriu conhece-la de algum lugar, pois parecia-lhe familiar, talvez até, que ela conhecesse seus orientadores de mestrado e doutorado. Em vão, o máximo que conseguiu foi assentimento da mesma sobre a coincidência de interesses, apesar das óbvias referências que o lugar sugeria.

Em torno de poucos minutos tudo estava concluído. Depois que se instalou começou a se dar conta que apartamento além de completamente mobiliado, ainda contava com toda decoração sobre as estantes, mesa de centro da sala, nos quartos, fotos dos filhos nos porta-retratos, jarros com plantas na varanda, roupa de cama, mesa e banho, apetrechos de cozinha. Tudo parecia lá como se os moradores estivesse todos no cômodo ao lado, ou, tivessem saído para visitar alguém e logo retornassem.

Ela não conseguiu não pensar como o tempo parecia ter parado ali, pensou isso com certa aflição, pois parecia-lhe estar em uma cápsula do tempo: o estilo construtivo e os materiais caros dos anos 80, os móveis projetados em cerejeira, piso de madeira corrida marrom, luminárias. Tudo parecia gasto, mas com discrição, o gasto pelo tempo, inevitável, ainda assim, com uma conservação admirável. O fato que lhe incomodava, apesar das evidências de presença, era um lugar vazio, quase um museu. Ninguém saiu apenas para que o imóvel fosse alugado. Todo lugar era organizado para preservar a memória dos anos, como se as pessoas das fotos nos porta-retratos continuassem a viver ali.

Com o silêncio do lugar e da vizinhança, em uma pausa para um café na primeira tarde passou em revista sobre os títulos nas estantes do escritório, material de trabalho em aula e de pesquisa, claro que ela era professora. A questão era, seria aposentada? A pergunta surgiu quando reparou nas caixas de arquivo que datavam de seis anos, com xerox de textos utilizados em algumas disciplinas. Todos os livros tinham edição desse último ano limite, bem como, as revistas científicas ou revistas periódicas jornalísticas sob a mesa de centro na sala. Algo acontecera que mudou tudo ali, não apenas, o fato de mudar-se para outro lugar e dispor deste para aluguel, mas o tempo havia sido deliberadamente aprisionado. Parecia que nada deveria sair dali, além do que, contra tudo que pudesse fazer a época, tivesse partido.

No dia seguinte, após o café da manhã percebeu mais evidências do grande ponto de mudança na vida dessa mulher. Além das fotos dos filhos, quando crianças e já adultos se graduando no ensino superior, e suas mesmo em viagem por lugares distantes, não havia, além de nenhuma referência ao presente destes, também, não havia sinal do pai e, ou, marido. Ele não estava em lugar nenhum. Nas paredes da sala e do corredor, haviam marcas que denunciavam a existência de quadros ou fotos naqueles lugares durante muito tempo e que foram retirados depois. Como cicatrizes do tempo, as paredes traziam esmaecidas, as marcas da pintura produzidas por anos em que foram cobertas pelos quadros que já não estavam mais lá.

Nos dias que se seguiram dedicou-se ao trabalho a que se propusera. Só encontrou novamente com a proprietária no final do período combinado para devolver-lhe as chaves. Novamente deu-se a conversa simpática com toques de euforia (quase) contida. Claro, não comentou nada com ela sobre suas questões e hipóteses sobre os sinais (evidências?) que o ambiente suscitava. Mais tarde já estrada, aliviada pela sensação de dever cumprido pela conclusão do trabalho, pensou que a mensagem contida no apartamento fosse ele mesmo, daquela forma, sem legendas, sem explicações. Fechado para qualquer tipo de arqueologia afetiva que resultasse em algum mínimo sucesso.

No final a verdade estava ali para ser compartilhada por pessoas como ela, estranhos, que sempre recusariam a perceber o óbvio, que o apartamento era o corpo do tempo marcado pelas partes que faltavam, um apelo para dividir o sentido do peso dos anos.


E de todas as coisas sobre as quais não vale mais a pena falar. Nem esquecer.

Ann Peebles - Trouble Heartaches & Sadness

Ann Peebles

sábado, 23 de janeiro de 2016

Papalo e Gutemberg - Incelença para terra que o Sol matou (Elomar Figueira Mello)



Nesse blog, mais uma amostra encantada da poesia e musicalidade única do grande mestre Elomar.

Incelença para Terra que o Sol Matou é primeira faixa do álbum Fantasia Leiga para um Rio Seco (1981).



O vídeo é uma gravação feita nas varandas da Casa dos Carneiros, Vitória da Conquista, nas beiras do Rio Gavião, sertão da Bahia.

Maravilhosa interpretação de Papalo e Gutemberg, sob os olhares atentos e aprovação clara do Mestre Elomar e, mais importante, do povo sertanejo das redondezas, que com suas histórias e lendas são coparticipes de toda sua poesia.

Os tempos e espaços da música e de sonhos de um sertão mítico e encantado da luta pela vida. Uma amostra da paixão pela terra, da dor pela perda, do apego à esperança, no limiar da fé.

O grande menestrel deu o ar de sua graça por aqui novamente em João Pessoa-PB nesse dia 22/01/16. De forma rara, breve (e eterna) para alegria dos corações que sentem sua música em si para sempre.

Um agradecimento sincero de todas as alegrias que tive ouvindo suas belas canções. E pelo tanto que sei ainda ter que aprender a sentir com elas.

Nosso muito obrigado ao Bode Orelena, que tenha uma vida longa e feliz.   


Fonte e créditos pela foto: Porteira Oficial de Elomar



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Homenagem a David Bowie (1947-2016)


Hoje pela manhã fiquei sabendo da morte de David Bowie.

Não consegui conter as lágrimas.

Conheci tardiamente seu trabalho, mas depois, de alguma maneira ele se tornou muito íntimo. Suas músicas passaram a fazer parte de momentos importantes, como trilha sonora, cada vez com mais sentido, a medida que o tempo passava.

Era uma espécie de amigo distante de olhos coloridos que compartilhava um devaneio pelas coisas do espaço. De alguma forma sua música e atitudes traduziram para mim parte desse universo.

Livre, voltou algum lugar além desta galáxia. Nada parecia mais com ele do que o espaço. Dia 08 de janeiro lançou seu último disco e comemorou seus 69 anos. Dia 09 foi o dia do Astronauta. No dia seguinte partiu Major Tom, ou, melhor, Ziggy Stardust, para as estrelas, talvez estivesse dando a pista de seu rumo em Blackstar, seu último trabalho. 

De qualquer forma, ele estava sempre à frente, sempre soube mais do que nós.



Boa viagem, Starman.