domingo, 8 de maio de 2016

Uma Carta que Não Foi (conto)



Parei esse dia para te escrever uma carta, uma dessas em que não cabe falar de amor. Tenho estado parado todos esses dias, justo porque teu amor me faltou. Olhar insistentemente para o telefone não é solução. Escrever, muito menos.

Ainda não sei se a enviarei, se terminá-la talvez não sobreviva ao meu próximo suspiro, ou ao engasgo de uma fala que meus amigos já não aguentam mais ouvir. Nem eu.

Não sei se teu cheiro, a lembrança de minhas mãos entre tuas pernas, ou das janelas do carro embaçadas numa rua qualquer onde nada parecia fazer mais sentido do que a entrega desesperada dos lados escondidos de nossos corpos. Tudo que me faz as mãos suarem enquanto escrevo.

Já vai muito tempo desde então. Nesse tempo quis te colocar num conto e você queria me ver sumir.

Enfim, ambos escapamos, que triste. Só para continuar a viver. Entrar na fila do próximo filme. Ter mais uma resenha para começar a escrever e nunca terminar.

Nesta carta que ainda não sei se te entregarei, gostaria mesmo de não ter que escrever nada. Apenas desenhar tuas pernas abertas como vi pela primeira vez, mas num arranjo no qual pudesse expor a mágica dos teus pelos, e dos tons e cheiros que nunca me deixaram.

Não sei desenhar tão bem, nem minha memória anda tão boa.

Essa carta não seguirá.

3 comentários: