quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Let's Rock? Nouvelle Vague - Dance With Me



Parei hoje pra ouvir Nouvelle Vague novamente. Já tive uma febre nouveliistica uns anos atrás, não tocava outra coisa no som do carro. Seus covers dos 80's, punk rock, pós-punk, new wave com arranjos bossa nova são irresistíveis, um convite a ouvir mais. Sobretudo, óbvio, pelas vozes absurdamente lindas de suas várias e inacreditavelmente belas vocalistas (ver aqui). 
Lembrei-me da pergunta de Beatrix outro dia a proposito do post do Alif Tree e do clip no qual aparecia Anna Karina, outra diva da Nouvelle Vague e de Godard: por que as francesas são tão bonitas? Sei lá! Continua minha resposta. Só sei que sigo babando pelos cantos da boca, completamente catatônico. Mas voltando ao Nouvelle, seguem três momentos de Dance With Me, do grupo Lord of the New Church. O primeiro uma homenagem bonitinha ao filme Band à Part, de Godard (1964), quem não gostaria de estar também naquela dancinha? No segundo momento, as divas se apresentam em São Paulo em abril de 2010, momento no qual me pergunto: por que nunca estou estou em Sampa quando esse tipo de coisa acontece? Lembrei do recente show do Ladytron (ver aqui) por lá que perdi só por morar a mais de 2000 km de distância... E por último, o original da mesma canção de 1982, com o Lord of the New Church. Saquem só o visual e as dancinhas. O tempo passa, e pode ser muito cruel. Mas as coisas podem ganhar uma aura, uma certa dignidade também, é preciso ser honesto pra admitir.


Curtam!





ps: a onda francesa continua...

sábado, 26 de novembro de 2011

Porque hoje é sábado 2: Clarice - Caetano Veloso


A intenção original desse post era falar do sábado que começa, pensei em "Dia da Criação" do Vinicius, mas não achei nenhum clip interessante na net, sem falar que é por demais batido. Mas ai veio a ideia de postar uma música que conheci ontem, "Clarice", onde Caetano homenageia, óbvio, Clarice Lispector! Pra começar bem um sábado com sede de sol. Com um toque arrebatador de bossa nova. Ares de 1968. Com nostalgia, por favor! De preferência tendo a Urca como cenário.
Dedico esse post à Clara.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Let's Rock? BEAUMONT

Banda inglesa de indie pop e eletrônico. Simpática ao extremo, algo entre Nancy Sinatra, passando por Morcheeba, Belle & Sebastian, a caminho de Beth Gibbons... Mais daqueles vocais sussurrantes, bem à Jane Birkin, que estão na matriz dos meus sonhos mais irreveláveis. Pra quando a vida pede calma, mesmo estando mais para terremoto com aviso de tsunami. Pra uma pausa na gritaria das guitarras, pra um balanço na rede sentindo o ventinho do mar, pra um fim de tarde preguiçoso ouvindo as ondas quebrarem, sem fim...
Curtam!






Em tempo: dica da amada Analuz.

POESIA 20: Pensamentos de viés e além de uma sexta de sol

Manhattan - Wood Allen

Pensamentos de viés e além de uma sexta de sol

Encontrei um caminho onde não esperava
Me perdi de novo, onde mais me acho
Me reviro além do passado
E checo que tudo está bem
E nos futuros que invento
Não vejo nenhuma calma
E sim reviravoltas,
Devaneios,
Delírios,
Nenhuma regra,
Certamente paixão
Talvez amor 
Mais um tanto de poesia
E taquicardia
Quer saber?
Gosto disso!

Vem comigo?


                        Vancarder
                         25/11/11

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Bolha Imobiliária Brasileira: crescimento no fio da navalha


Estamos vivendo um momento ímpar de nossa história, olhamos para o desempenho de nossa economia e somos tomados de júbilo quando constatamos que entraremos 2012 como a sexta potência econômica do planeta. Tudo bem, se não vivêssemos em uma ordem (caos) capitalista onde tudo que sobe, tem que descer logo depois, em um ritmo cada vez mais acelerado. Processo na qual trilhões de dólares (reais, euros etc) são queimados a troco do desespero real de milhões de seres humanos.
Seguem dois vídeos pra pensar um pouco nas cenas dos próximos capítulos da realidade econômica brasileira. Sabem a tão badalada e super poderosa Espanha do começo dos anos 2000? Pois é, vejam como está agora e qual foi o processo de ascensão e queda de seu desempenho, de vedete da zona do Euro a alvo número um das agência de rating : qualquer semelhança com nossos processos internos, não é mera coincidência! Ou você não reparou na explosão dos preços dos imóveis por aqui nos últimos cinco anos?!...
Antes de concluir, um perguntinha: como é possível ser sexta potência econômica mundial e ter ao mesmo tempo o 84º lugar em relação ao IDH entre 180 países pesquisados?



POEIRA(poesia) ESTELAR

"O incrível é que, cada átomo de seu corpo, veio de uma estrela que explodiu e os átomos em sua mão esquerda provavelmente vieram de uma estrela diferente, da dos átomos de sua mão direita. Essa é realmente a coisa mais poética que eu conheço sobre física: vocês são todos poeira de estrelas. Vocês não poderiam estar aqui se as estrelas não tivessem explodido, porque os elementos, o carbono, o nitrogênio, o oxigênio, o ferro, todas as coisas que importam para a evolução foram criados no começo dos tempos. Eles foram criados nas fornalhas nucleares das estrelas e a única maneira deles chegarem ao seu corpo é se as estrelas forem gentis o suficiente para explodir. Então esqueça Jesus, as estrelas morreram para que você estivesse aqui hoje."
(Lawrence Krauss - Físico norte americano)


Parei tudo pra pensar na poeira estelar compondo nossos corpos e emprestando forma a tudo que vemos. Já há poesia em toda parte. E também miséria Não precisamos de Deuses pra nada.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A rebelião está à solta. O mercado em seus calcanhares! E você, de que lado está?


Leminsky publicou um texto (aqui) que bem pode ser tomado com a ordem de batalha contra a ideologia de mercado contemporânea. Pra quem acha que tudo está muito bem só porque pode pegar seu ônibus/carro, ir para o trabalho e voltar depois de oito horas com a sensação de dever cumprido para o seio de sua pacata família, tenho más notícias! Há nuvens muito escuras se reunindo agora mesmo no horizonte. Nunca fomos tão roubados e tão perfeitamente enganados por essa mega máquina anti humana chamada mercado. Está pronto pra tomar a pilula vermelha?
Leia, revolte-se e faça algo. 

A voz do povo? Que se foda o povo!!!!

Olá doce internet,

Não sei se todos vem acompanhando o que acontece no mundo, mas o que eu tenho visto é que a voz do povo em países tidos como democráticos está cada vez mais rouca e se apagando. Podemos começar a conversa com o que está acontecendo na Grécia, país berço da dita democracia, onde um simples aceno do governo em consultar a população, destituiu o então Primeiro-Ministro, pois que absurdo o povo ser ouvido. Mais uma vez a democracia de mercado ganhou o páreo. Depois da Grécia, a bola da vez é a Itália, que a anos vem sendo bombardeada por denuncias contra o fanfarão Silvio Belusconi, que continuava no poder mesmo com diversas manifestações populares pedindo sua renuncia sem exito, porém, com um leve aceno do mercado ele foi deposto de um dia para o outro.  Mostrando mais uma vez o quanto a população tem voz em nossos países democráticos. Essa semana também podemos acompanhar a retirada a força dos manifestantes do movimento "Occupy Wall Street" e agora os cidadão do país onde todos tem voz, tem que ser revistados para ter acesso a um espaço publico. O nosso querido Brasil não ficou de fora, manifestantes que ocupavam a reitoria da USP, cerca de 70 estudantes, foram retirados pela equipe da ROTA, a mesma que atua em rebeliões em presídios e contra o crime organizado. O pior é que grande parte da nossa sociedade aplaudiu de pé a retirada. Outros exemplos do uso da força policial contra manifestações não faltam, quem não lembra da marcha da maconha que foi proibida inicialmente e fortemente combatida pela policia no Brasil a fora e novamente a sociedade aplaudiu. A simplificação das discussões por parte da mídia e da sociedade como um todo é uma crescente, onde é mais fácil desabilitar uma discussão do que realmente discutir. Cuidado o estado de vigilância está instalado, não se pode discutir nada que fuja da falsa moral imposta, setores religiosos crescem e com eles seus cérebros atrofiados e suas concepções tacanhas de mundo, a globalização está ai para vigiar sua vida e para dizer o que você deve fazer e consumir, o livre pensar está condenado, viva George Orwell e seu 1984!!!!!! Vamos abrir os olhos ou melhor a boca, antes que nossa voz seja sucumbida pelo estado de conformismo implantado e fiquemos mudos de uma vez por todas. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Let's Rock? Ringo Starr and All Starr Band. 20/11/11. Recife-PE, Brasil



Uma lenda, uma frase: "I get by with a little help from my friends..." Catarse.
Curtam!
Post dedicado ao nascimento de José Arthur, primeiro neto de Dedé Calixto.

domingo, 20 de novembro de 2011

Testamentus

Dedé mandou um poema. Desse escritos em guardanapos que se reproduziam como coelhos pelas nossas mãos nas mesas de bar de uma certa Fortaleza na última década do século passado. E me fiz uma pergunta, em que medida posso ter certeza que não estamos vivendo num sonho? E que na realidade, nesse exato momento, estaríamos sim na Praia de Iracema, Cais Bar, frente a um inacreditável por do Sol rosa?...
Ainda me questiono como tudo aconteceu...

Testamentus

Desejo que tomem porres pós-minha morte
Preferentemente nos bares em que me estive
Espero que consolem as viúvas e a consôrte
Por a feliz sorte de viver comigo – ao nível!

Mas esperem a lua cheia para sair o féretro ligeiro
Mesmo que de meu corpo exale odores insuportáveis
Quando vier aquela de quem fui mais fiel companheiro
Logo me levem à parte que me cabe do latifúndio suave!

Gentileza, cantem “Truid” de Raul e outras tantas daquelas
“Tentem outra vez” – ah, não esqueçam os sambas e reggaes
E a brisa suave, as biritas de todos os gostos até de beringelas!


Façam valer tal testamento mesmo que só encontrem à Ementa
Numa manhã assim cinzenta e esteja amarelo poeirento e reles
Que se faça cumprir ao passar longos anos ao mínimo noventa!

Dedé Calixto
1995/Out

Pessoal do Ceará 5: Fagner e Cidadão Instigado




Acabei de ver no EU OVO, blog obrigatório pra tripulação da Discovery, o surpreendente encontro entre Fagner e Cidadão Instigado, realizado no SESC-SP. Sempre achei a fase "Orós" de Fagner extremamente pulsante, suas combinações de imagens, cores e sensações quase psicodélicas, como se o Sol queimasse nossa nuca, e padecêssemos, como se nossa garganta estivesse seca por uma outra vida... às margens de um açude gigantesco com cores entre Tarsila do Amaral, Van Gogh... sob um céu de Chagall...
Além de tudo, uma música seminal, referência para uma infância quase esquecida, numa Fortaleza setentista que buscava saber qual era sua cara. Muito provavelmente, "Cebola Cortada" me fez criar o gosto pelas viagens através de um fantástico sertão-mar sem fim que carrego, árido-úmido, dentro do peito.
Peguem todo esse turbilhão poético-musical, somem a inquieta e desconcertante verve criativa do Cidadão Instigado e temos a realização de uma promessa que toda essa música já trazia a quase quarenta anos...
Podem falar o que quiserem de Fagner. Não gostar dele é lugar comum. Mas já é um clássico...
Curtam!







segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Religião e (in)tolerância: mais reflexões sobre a onda neo-conservadora tupiniquim

Fonte da ilustração: Aqui


Nalú enviou artigo instigante e, de certa forma, urgente, para nos ajudar a dimensionar melhor a expansão acelerada de um ethos neo-conservador no Brasil. O texto da Jornalista Eliane Brum, trata de intolerância religiosa. Mesmo que o fenômeno seja aparentemente inofensivo, talvez pela marca de uma certa ingenuidade açucarada de nossas relações cordiais, não deixa de assustar pelas possibilidades ampliadas para uma escala cada vez maior de pessoas direcionando suas vontades e interesses para a construção de um certo tipo de espaço público em detrimento de um convívio plural e... tolerante.    
Vejam aí:
Fonte: Época

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?

ELIANE BRUM


O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.
 - Você é evangélico? – ela perguntou.
 - Sou! – ele respondeu, animado.
 - De que igreja?
 - Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...
O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)
Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:
- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.  
A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.
Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.
Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.
É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.
Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.
Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.
Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.
Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.
Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.
Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

SOBRE A REPRESSÃO AOS ESTUDANTES DA USP


A respeito da ação da polícia na expulsão, prisão dos estudantes, na "reintegração de posse" do prédio da reitoria da USP e sobre um monte de bobagens neoconservadoras pregadas e aplaudidas por inúmeros comentários na internet a fora, em apoio à ação do governo de São Paulo, da justiça e da força policial, cabe dar destaque a quatro artigos com perspectivas que a grande mídia nunca vai levar a público.
 
Sobretudo, porque lidam com ideias mais gerais e desconcertantes pros legalistas de plantão, para os quais há simplesmente a necessidade urgente de que seja instalada a isonomia do tratamento da repressão policial, tanto pro morador pobre das periferias quando pros estudantes dentro da universidade. 

Assim, o sentido da autonomia universitária (informe-se sobre o histórico de crescimento do autoritarismo da reitoria), a discussão sobre segurança pública, direitos fundamentais e cidadania podem ganhar a dimensão de questões que não cabem apenas nos umbigos de articulistas da grande mídia golpista que só conseguem ver baderna, anarquia, vadiagem e irresponsabilidade nas ações dos estudantes. 

Se não sabiam se informem, a polícia estava revistando estudantes, professores e funcionários "suspeitos", ou seja, com visual “diferente”, ou como diz o termo muito ao gosto dos rotuladores, “alternativos”. Pelo mínimo que sei, ter um visual punk, hippie, gótico, black power ou as inúmeras misturas disso tudo, passa longe de ser indício pra parar e revistar alguém. A não ser que o objetivo não seja segurança, mas intimidação. Para deixar mais claro sobre o modus operandi da "segurança" da PM no campus na “luta contra as drogas”, sua base era a porta da biblioteca de humanidades... 

O alvo de nossa sociedade conservadora não está mais ao longe, nas lutas do campo, nas periferias, morros, favelas. Qualquer diferença e contestação é suspeita. E por consequência direta, um alvo da violência.
Bem-vindos a onda neo conservadora tupiniquim, neo facista, que muito bem se identifica com Alckmin, Serra e cia.

 
Temo pelos tempos que estão por vir. 

Fonte: VI O MUNDO: o que você não vê na mídia
6 de novembro de 2011 às 12:00

Henrique Carneiro: Polícia para quem precisa

por Henrique S. Carneiro
A crítica à Polícia Militar na USP se refere a sua utilização contra estudantes ou contra grevistas.
Se há um agressor, estuprador ou assaltante armado, a PM será acionada como em qualquer outro crime. Mas revistar estudantes, dar buscas em centros acadêmicos ou prender jovens que fumam maconha em gramados do campus é não só dar destinação errada para a PM como extrapolar suas supostas funções de proteger a comunidade.
No que se refere ao crime na USP, pretexto para o uso da PM contra os estudantes, se sabe que a melhor proteção é a própria coletividade atenta e uma guarda bem treinada, bem equipada e com confiança comunitária. Em geral, não há crimes contra a pessoa ou contra o patrimônio à vista de todos, em lugares bem iluminados e cheios de gente.
Por isso, em lugares em que há fluxo de estudantes, a vigilância ostensiva não é tão necessária, mas, sim, em lugares ermos ou nas entradas e saídas da universidade.
A polícia priorizar a repressão ao uso de maconha é errado, porque isso a torna uma patrulha de costumes anti-estudantil. Em breve, poderão prender também as fotocopiadoras ou quem vender cerveja em festas? Se o objetivo maior deve ser a manutenção da tranquilidade social, a intervenção da polícia não pode ser o agente que venha justamente provocar a ruptura dessa paz.
Se houver consumo indevido de drogas ou de álcool que possa atrapalhar a terceiros ou atividades didáticas, cabe à própria comunidade universitária adotar regras e mecanismos de fiscalização que coíbam esse tipo de prática.
Até mesmo um cigarro de tabaco aceso em locais fechados é proibido e a comunidade deve, corretamente, buscar impedir quem fume um cigarro não respeitando o interesse coletivo. Ou devemos deixar a PM resolver isso também?
O uso de cigarros ao ar livre em lugar retirado, seja de tabaco, de cravo ou de maconha, não afeta ninguém além dos seus usuários. É uma conduta tipificada na teoria do direito como isenta de qualquer princípio de lesividade. O bem-estar público não é afetado. Ninguém tem ameaçados os seus direitos nem há nenhuma violência em curso.
A própria legislação vigente já entende que o uso de drogas em si não deve ser penalizado. O uso de drogas por jovens não pode ser tratado como um caso de polícia. Menos ainda num ambiente escolar, onde o diálogo e a busca de soluções negociadas e não violentas devem ser uma parte constituinte do projeto pedagógico.
A melhor segurança é uma guarda universitária modelo, bem equipada e não terceirizada. A terceirização compactua com trabalho superexplorado e mal qualificado e afasta os serviços de segurança da relação orgânica com a comunidade. Um guarda funcionário da universidade conhece melhor a comunidade e pode melhor ajudar a dirimir problemas, assim como identificar as ameaças à segurança e constituir uma rede de inteligência, comunicação, proteção e confiança comunitária

1 de novembro de 2011 às 11:55

Professora Ana Fani e a aula que não aconteceu

por Ana Fani Alessandri Carlos, por sugestão do professor Ricardo Musse
Caros estudantes
Foi com grande indignação e imensa tristeza que vi na última quinta  feira a PM invadir o espaço da universidade e, ao fazê-lo, impor sua violenta racionalidade à vida cotidiana do campus. As “forças da ordem” instauraram o caos, usurpando a liberdade necessária e indispensável à realização de nosso trabalho, com o discurso da manutenção da mesma “ordem” que ele subverteu.
Não é difícil reduzir sua ação ao combate do tráfico de drogas sob o argumento de que o tratamento ao usuário de droga pego em flagrante deve ser o mesmo para todos os cidadãos sejam eles estudantes ou não, estejam eles no campus universitário ou fora dele.
A questão está longe de se resumir a esta ação/atitude. A situação em que nos encontramos é muito mais complexa. Trata-se do modo como o uso da força é justificado pelas autoridades. Assim a presença impositiva de uma fileira de motos, um despropositado número de PMs no
estacionamento do prédio da História/Geografia, para autuar três estudantes (antecedidos por blitz constrangedoras e cada vez mais freqüentes aos estudantes da USP) com seus gadgets, somados á bombas de “efeito moral” instauram o caos e impediram que a atividade fim da
universidade se realizasse. Além do que acabaram gerando mais violência e, com ela, um impasse, cujo desfecho certamente recaíra – como de hábito, pela punição aos mais fracos.
Consequentemente, trata-se de buscar a real origem de todo este caos que invade a vida cotidiana do campus subtraindo-lhe o sentido, e não poderia ser outra senão a lógica que orienta as atitudes da atual gestão universitária. Tal atitude vem revelando um desconhecimento do
papel e sentido histórico desta instituição pública, preocupada que esta em atender as exigências do mercado – no discurso tratado como aproximação entre universidade-sociedade (seja lá o que isto quer dizer!)
Os crimes de todos os tipos e assassinatos não podem e devem ser aceitos passivamente, nem no campus, nem fora dele, mas suas origens parecem não estar suficientemente claros, o que parece certo, todavia que com violência e negação de direitos civis estaremos cada vez mais distante da busca de possíveis e desejadas soluções.
Certamente, trata-se de formar nossos estudantes na busca da compreensão do fato de que o consumo inocente de um baseado reproduz o circuito do narcotráfico fundado numa violência ainda maior do que a da PM, e cuja existência impede o mais simples convívio social nas
áreas de sua atuação direta, bem como, no plano da sociedade a realização de um projeto que busque a realização do direto à cidade, a realização da cidadania plena e a subversão da situação de desigualdade que funda a sociedade brasileira.
Certamente os estudantes envolvidos nesta batalha devem ser totalmente favoráveis à superação desta condição de desigualdade que inclusive impede que a maioria daqueles que se encontram na mesma faixa etária tenham acesso à mesma universidade pela qual estamos todos engajados em sua defesa.
Abrir os portões da USP para a PM, vem revelando – em curto espaço de tempo – esta foi uma saída é, no mínimo, irresponsável.
A gestão da USP, ao abrir mão de suas atribuições, vem de forma consistente destituindo a universidade de seus conteúdos e sentido.
Para citar um caso dos mais graves, lembramos, aqui, os programas de pós-graduação deixados – pesquisadores e estudantes, com suas pesquisas – à mercê das instituições de fomento que vem impondo, no lugar do debate acadêmico, a competição entre programas e pesquisadores em busca de linhas em seus currículos lattes.
Competição esta, agora exacerbada pela nova lógica da carreira docente que faz com que o vizinho de sua porta se torne o inimigo a ser combatido por pontos pela progressão na carreira.
Na busca por estes objetivos, os prazos se tronam cada vez mais apertados esvaziando o ato de conhecer como ato de habitar o tempo lento da reflexão, agora, invadida pela quantificação.
Com isso é nosso trabalho que é completamente destituído de sentido, e o conhecimento produzido redunda em mera banalidade ou meras constatações. Agora, na mesma lógica que terceiriza a pós-graduação, a Universidade terceiriza mais uma das atividades que permite a
realização de seus objetivos – a segurança do/no campus.
A cada passo as sucessivas gestões parecem perder pouco a pouco sua legitimidade para levar a universidade para o futuro, prolongando uma história de conquistas tanto no plano do conhecimento da realidade brasileira – agora comprometido pelo tempo veloz com que precisamos produzir textos,artigos, orientações, patentes, etc- quanto no cenário político brasileiro em sua luta contra a ditadura.
Que projeto vislumbrar? Que futuro podemos construir? Sem dúvida o coletivo desta grande universidade precisa apontar novas possibilidades e caminhos mirando o futuro, mas aprendendo com nossa  história…..
Professora Dra. Ana Fani Alessandri Carlos
Departamento de Geografia da FFLCH/USP

3 de novembro de 2011 às 9:31

Paulo Teixeira esclarece questões levantadas por leitores do Viomundo

por Paulo Teixeira
Li com atenção os comentários postados no Viomundo a partir de entrevista que concedi à repórter Conceição Lemes. Eu gostaria de dizer que conheço bem a problemática da USP, pois estudei lá na década de oitenta. Essa discussão tem de ser feita com serenidade, à luz das evidências científicas. Das muitas contribuições dadas nos comentários, acho importante abordar quatro questões:
1) Eu creio que a segurança do campus tem de ser feita pela guarda interna da USP articulada com a PM. Agora, o policiamento do campus propriamente dito deve ser feito pela da guarda da universidade.
Trazer a PM para dentro da Cidade Universiária tem repercussões políticas: as negociações com os estudantes relacionadas ao ambiente universitário devem ser mediadas pela reitoria, pelas diretorias de cada unidade e não pela PM. Utilizá-la na mediação com os alunos tem sido um precedente perigoso, como aconteceu na Faculdade de Direito quando ocupada pelos movimentos sociais, na greve dos servidores e agora na prisão de três usuários.
À PM, em relação à segurança, cabem tarefas estratégicas, de inteligência e controle para garantir que aquele espaço esteja protegido da ação de criminosos. A polícia não pode se prestar a atividades que não tenham importância para a sociedade. Prender usuário de drogas é dispersar a atividade da polícia que deve se concentrar na proteção da vida das pessoas.
2) Não concordo que o consumidor alimente a atividade criminosa do tráfico de drogas.Quem organiza o crime em torno dessa atividade é a proibição que permite a proliferação de um mercado clandestino, capitalizado, armado e corruptor. A regulação teria o condão de esvaziar o crime, como foi feito com o álcool nos EUA na década de trinta.
3) Tal abordagem vale para qualquer pessoa, seja dentro da USP, seja na periferia de São Paulo ou em qualquer outro lugar no Brasil. Aliás, eu falei na entrevista que o jovem da periferia merece o mesmo tratamento do estudante da USP e não deve ser destinatário da abordagem policial.
Uma sociedade que requer segurança não pode conviver com a dispersão que o tema de drogas provoca no aparelho estatal. A polícia, em vez de cuidar de criminosos que atuam de forma permanente e representam ameaça à sociedade, perde seu tempo, ocupando-se de usuários.
Aliás, o Ministério Público que deveria se ocupar da diminuição do crime, igualmente dispersa sua atenção, tomando conta de usuários. Da mesma forma, o juiz que deveria julgar os grandes criminosos.
O aparelho do Estado acaba, assim, desviando sua atenção do verdadeiro foco do Estado que deve ser o de coibir a atuação do crime contra a pessoa, contra o patrimônio e da criminalidade organizada.
Os crimes relacionados às drogas têm provocado um efeito perverso no sistema carcerário brasileiro, que prende os pequenos usuários e os pequenos varejistas, que são recrutados pelo crime organizado para correr risco por ele. Tanto que o perfil dos condenados pela lei de drogas é de réus primários, sem antecedentes criminais e que agiram sem armas e sozinhos. Enquanto isso o dinheiro da droga é lavado na atividade lícita, pela economia formal.
4) Os países que tiveram políticas pragmáticas concentram seus esforços no crime organizado, para diminuir a violência. Há várias iniciativas bem-sucedidos na Europa.
Portugal, por exemplo, ao descriminalizar os usuários, conseguiu diminuir o poder econômico das redes que se ocupam da venda de drogas, a violência associada ao abuso de drogas e até diminuir o uso de drogas pelos jovens.
Experiências na Suíça, Holanda, Inglaterra, Alemanha e Espanha também dão luzes a este debate. É a política de redução de danos. Entre as três questões de preocupação social — a violência, o poder do trafico e a saúde do usuário –, a polícia se ocupa do combate ao tráfico e da diminuição da violência.
Em relação ao usuário, o Estado remete ao ambito administrativo, ficando os cuidados de saúde, educação, a cargo das diversas instituições sociais, numa relação administrativa e não como caso de polícia.
A política de guerra as drogas não deu resultados positivos onde foi implantada. O pior efeito dessa abordagem é possível ver nos EUA, que tem, proporcionalmente, uma das maiores populações carcerárias do mundo.
Paulo Teixeira é deputado federal (PT-SP) e líder da bancada na Câmara dos Deputados

8 de novembro de 2011 às 22:56

Wilson Correia: USP, repressão ou educação?

por Wilson Correia
Pobre sociedade que militariza suas universidade e criminaliza sua comunidade acadêmica, pois isso é confessar o fracasso dessa instituição social cuja tarefa primeira é a de propiciar os meios necessários à auto-formação humana, para o trabalho e para a cidadania pelo homem e pela mulher.
Por isso, vale lembrar que o Art. 207 da Constituição Federal de 1988 estabelece a autonomia universitária nos seguintes termos: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”.
A autonomia é o anteparo jurídico-institucional (e, consequentemente, didático, científico, administrativo, financeiro e patrimonial) voltado, exclusivamente, para o resguardo da liberdade de cátedra: de ensinar, pesquisar e fazer ação extensionista da universidade, pertencente ao povo que a mantém.
Como saber arrasta consigo certa substância do poder, entendo que a autonomia universitária visa a proteger a universidade da mistura entre o poder-saber e poder-partidário, esse dos diversos grupos políticos que se aboletam nas esferas públicas com o intuito de usarem a educação como plataforma programática político-partidária.
A história –sábia mestra– apresenta-nos carradas de fatos em meio aos quais a liberdade de pensamento foi posta no lixo por conta de caprichos idiossincráticos profundamente questionáveis. Aliás, foram esses acontecimentos que motivaram a construção da autonomia universitária (Sócrates, Giordano Bruno, Galileu Galilei, entre outros, aí lembrados).
Na esteira desse entendimento, fez-se tradição o campus universitário ser também ele um domínio que usa leis próprias, na independência que visa a proteger a produção científica e filosófica de possíveis influências externas impossibilitadoras da liberdade acadêmico-universitária.
Vivo a universidade desde 1989. Sempre testemunhei o entendimento de que polícia não deve funcionar no interior de um campus universitário. No máximo, que cada universidade tenha sua Guarda Universitária própria, voltada para a atividade-fim implicada nas práticas educativas, e não para ações mobilizadoras de aparatos repressivos, quaisquer que sejam eles.
O papel da instituição social chamada universidade é de usar práticas pedagógicas, mas se abster de lançar mão da violência estatal, preterida porque deriva do monopólio da força de que o Estado sempre gozou, exatamente porque os processos universitários são lastreados na liberdade, na educabilidade e na perfectibilidade humana de que todos os homens e mulheres podem lançar mão.
Quando a força da repressão passa a ser a opção de uma instituição educativa, como agora acontece na USP, em que a repressão suplanta a educação, isso revela que sua missão primeira –a de educar– foi colocada em xeque, está falida ou não desfruta mais da legitimidade que a autonomia universitária lhe confere. Essa medida, então, torna-se profundamente preocupante.
Será que a universidade chegou mesmo ao fundo do poço? Será que a universidade não acredita mais em sua competência educativa? Será que a universidade aderiu de vez ao senso comum por aí alardeado de que para se lidar com drogas a única “droga” é a repressão?
Aliás, reprimir o uso de drogas em lugar de educar para que a juventude saiba lidar com esse dado de nossa realidade é mesmo uma função da instituição universitária? Estamos assistindo à inversão das finalidades institucionais da universidade?
Que a autonomia universitária seja a trilha que mostre para a universidade que o seu precípuo papel é o de educar, possibilitando a auto-formação. Deixemos a repressão para quem dela necessita: os “ordeiros” que não suportam as diferenças e nem querem fazer com que a justiça social e a ética vigorem, facilitando, assim, que forças legalistas e repressivas prosperem para nos asfixiar.
Wilson Correia é Doutor em Educação pela UNICAMP e Adjunto em Filosofia da Educação no Centro de Formação de Professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.