Depois que suas últimas caixas foram levadas para o carro de
mudanças ele ficou um tempo parado à porta da saída, sozinho, observando a
agora vazia sala de estar do seu antigo apartamento. Durante aqueles últimos
anos vira sua vida sendo inscrita ali. E quase sem nenhum esforço, podia
reviver cada primeira cena, como também cada última.
Além da sala, sua visão
percorria a varanda, a cozinha, o quarto. O silêncio e o vazio de agora não
eram compatíveis com os sorrisos, amores, alegrias, esperanças, dores,
tristezas, chegadas e partidas que se desdobraram entre aquelas paredes.
Na
varanda já não havia mais a redinha, da qual obervara as estrelas tantas vezes,
em noites tais que o som do mar parecia reverberar dentro de casa.
Na cozinha
nenhum cheiro de um prato especial feito para cada ocasião única, sempre como
ritual, no qual o sabor demarcaria as expectativas de prazer do que viria.
O
quarto já não trazia o estimulante frescor da aventura, do gozo, da descoberta
e do sonho (mesmo os breves, os vãos e os desfeitos). O vazio e o silêncio de
agora não faziam justiça a tudo que acontecera ali, a tudo que se perderá
inexoravelmente frente ao futuro.
Fechou a porta. Já no hall, resignado, parou
por alguns segundos e pensou o quão impossível seria dividir tudo que pensara
naquele breve momento. Quis ligar para alguém, mas seria inútil. Pensou em
escrever algo, apenas para desistir imediatamente. Quis chorar e se sentiu incapaz. Fez a única coisa que podia frente a tudo aquilo, seguiu e tomou o
elevador para a portaria.
Aquele lugar já não mais lhe pertencia.
Aquele lugar já não mais lhe pertencia.
21.05.12
