sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Margo Guryan - Sunday Morning (Take a Picture, 1968)

Nenhum Apelido

Hugues Erre
Fonte: Clique Aqui


Meu Bem,

Hoje me dei conta, depois de tantas cartas, que você nunca me chamou assim. Nunca me deu nenhum apelido, qualquer nomezinho carinhoso desses que pessoas abestalhadas dão para outras quando apaixonadas. Mas só com o tempo é que esses pequenos detalhes começaram a parecer relevantes, quando não havia mais nada daquilo - que tudo poderia ter sido - em nenhum lugar. Nem na ida, nem na volta. 

Pode parecer estranho para você que eu ainda me interesse por reminiscências, pequenas coisas que a pressa adormeceu esquecidas pelos cantos da casa: sua ansiedade, seu medo, seu sexo cru e urgente, seu suor agridoce. Hora ou outra, encontro uns pedacinhos de alguns deles. Me apego a eles em silêncio, mudo como o meu telefone, como se fosse um e-mail inesperado, talvez o último, no qual diga que até a sua cidade agora lhe fazia mal. 

Encolhido nesse canto tomo um gole daquela vodka que você deixou e choro escondido de mim mesmo. A cidade também já me é estranha e não há nem um apelido nosso para lembrar.

Ou sou que já não consigo?

sábado, 3 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

domingo, 8 de outubro de 2017

domingo, 3 de setembro de 2017

terça-feira, 29 de agosto de 2017

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Olhares, Uma Foto, Um Postal

Depois que ela entrou em sua vida seus dias foram tomados de uma euforia sem controle. Ao mesmo tempo, tão escondida quanto facilmente vista por qualquer um que visse a forma como coçava a cabeça quando estava em sua presença. 

Os olhos negros dela o faziam mirar na direção que queriam. Ver o que ela queria. Sua boca e fartos lábios diziam as palavras que ele ouviria sem cansar durante o somatório infinito de minutos que durasse seu sorriso. O balançar de seus cabelos o embalava até todos os próximos encontros que sequer ainda haviam marcado. 

Ouviu com atenção a música que ela ouvia naquele dia, criou para si um vídeo clip que se desdobrou em textos sem fim. Ela nunca disse nada sobre seu amor. Ele nunca fora um passo  além em nada que o denunciasse ainda mais. Ela sabia, ele sabia. Bastava. Depois disso era vida que seguia.

A mágica se dera no encontro, em um ou outro momento em que não puderam mais se desviar do fato que suas vidas nunca mais seriam as mesmas depois daquele passo.


Há muito não se tem noticias deles. Há quem diga que seguiram para um país distante de onde nunca mais voltaram. De lá parece que enviaram um cartão postal e uma foto deles para um amigo mais próximo. 

Quem viu seus olhares naquele instantâneo jura que viverão juntos para sempre.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

domingo, 13 de agosto de 2017

Gilberto Scarpa - Os Filmes que Não Fiz (Curta, 2008)

Gilberto Scarpa e os projetos geniais que nunca foram realizados


sábado, 15 de julho de 2017

Meu Melhor Hospício

Jasmin-Meyer


Meu bem,

Agora que o tempo passou, posso falar comigo mesmo sobre a última vez que estivemos juntos. Aprendi um jeito novo de ficar em silêncio e usar a mudez para te manter em algum lugar da memória onde não te perca de vista. Assim posso vê-la sempre, porém sem me decompor naqueles tantos pedaços que nunca mais serão remontados, firme na insegurança que sempre tive em relação ao que sentia. Posso te dizer daquela ansiedade em quase tocar teus cabelos, da euforia em sentir teu hálito, de ver toda minha vida num único sorriso teu.

Você disse que um dia voltaria, que um dia estaríamos juntos novamente. Desse dia em diante meu passado nunca mais foi o mesmo. Por isso, todo o cuidado que tenho com os passos que dou no labirinto de cenas esmaecidas daquele dia. Também por essa razão tenho bebido mais, errado mais e ficado cada dia mais à vontade no pequeno hospício que virou minha memória.


Meu bem, naquele dia você, pelo menos uma única vez, deveria ter se permitido ser outra pessoa. Hoje talvez eu não conseguisse lembrar de nada. 

Mas nem por isso seria mais feliz.