Mostrando postagens com marcador Hugues Erre. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hugues Erre. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Nenhum Apelido

Hugues Erre
Fonte: Clique Aqui


Meu Bem,

Hoje me dei conta, depois de tantas cartas, que você nunca me chamou assim. Nunca me deu nenhum apelido, qualquer nomezinho carinhoso desses que pessoas abestalhadas dão para outras quando apaixonadas. Mas só com o tempo é que esses pequenos detalhes começaram a parecer relevantes, quando não havia mais nada daquilo - que tudo poderia ter sido - em nenhum lugar. Nem na ida, nem na volta. 

Pode parecer estranho para você que eu ainda me interesse por reminiscências, pequenas coisas que a pressa adormeceu esquecidas pelos cantos da casa: sua ansiedade, seu medo, seu sexo cru e urgente, seu suor agridoce. Hora ou outra, encontro uns pedacinhos de alguns deles. Me apego a eles em silêncio, mudo como o meu telefone, como se fosse um e-mail inesperado, talvez o último, no qual diga que até a sua cidade agora lhe fazia mal. 

Encolhido nesse canto tomo um gole daquela vodka que você deixou e choro escondido de mim mesmo. A cidade também já me é estranha e não há nem um apelido nosso para lembrar.

Ou sou que já não consigo?

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Tudo Que Conseguia Lembrar (conto)

Hugues Erre

No dia no qual que ela se sentiu mais só, todas as verdades que trazia consigo no peito se esvaiam em lágrimas discretas. No final da tarde, tentou voltar para casa e não conseguiu. Depois de alguns momentos de hesitação na portaria de seu prédio, seguiu adiante. Passou em frente a padaria, depois ao posto de gasolina, deteve-se na floricultura, onde lhe ofereceram algumas margaridas. Declinou da oferta. Um breve e forçado sorriso e continuou. Ao passar em frente a livraria quis tomar um café, mas sabia que não o faria sem um cigarro, mais um, foram tantos durante essa tarde. Melhor não. Quatro quadras a frente o bar estava abrindo. Foi a primeira cliente, mesa de frente para porta, primeira bebida e direito de escolher a primeira música do dia. 

Algum tempo e várias doses depois, ao decidir voltar para casa encontrou a luz da cozinha acesa e uma carta sobre a mesa. Ele não voltaria. Despiu-se, deu comida ao gato que faminto entrelaçava-se às suas pernas, pegou uma cerveja e afundou-se no sofá. Tentou lembrar de todas as formas o que dera errado, mas só conseguia lembrar de quando vira o sorriso dele pela primeira vez e de quando tudo parecia para sempre, até aquele momento, em que seu gato já andando sobre seu peito, lhe reclamava um afago.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Pelo Canto do Olho

Babe (Hugues Erre, 1986)
Ele disse pra ela que não havia mais como sentir-se tão vazio por amá-la.
Do seu desejo de negar-se totalmente quando ela pausava seu olhar sobre ele,
mesmo por poucos segundos. Desse olhar assustador de canto de olho que sorrateiramente o perseguia e flagrava-o em pleno ato de voyeurismo do que não valia mais a pena.
Antes de usar toda coragem que nunca teve e sair,
Ainda conseguiu dizer do seu desejo doentio,
Sua fixação atormentada pela imagem dos cabelos dela sobre o rosto (que escondiam ainda mais seu olho).

Bateu a porta com força naquela sexta feira a noite.

Pouco depois, sem piedade, deixou-se abater por doses massivas de vodka num bar.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Carta de Intenções

 Hugues Erre

Você me disse sobre o seu medo. Sim baby, você teve coragem. Você é uma sólida parede, um tipo de trator cujas esteiras deitaram perfume por toda a casa. Também chocolate, vodka e sal pelo caminho desse quarto até varanda onde ensaiei meu salto. Escrevi linhas de raiva com as unhas pela parede, quisera você me consertasse, voltaria sempre pra fazer estrago maior, te ter em meus braços em silêncio, sabor de açaí, sentir seu cheiro que já era quase o meu.

Te proporia maiores delícias e dores, maior seria a proposta para qual você nunca recusaria abrir suas pernas. Seríamos comidos pelo futuro que corre ao lado na rua escura e você me teria como nunca imaginou e o trator se perderia no lamaçal inevitável de um aborto de expectativas.
Baby, eu falhei porque sou torto e quero demais. E erro demais ao realizar minhas fantasias. No fundo não sei querer, ninguém me ensinou isso. 

Mas hoje você falou do seu medo, hoje eu era seu medo. Você cruzou a porta para nunca mais. Sem mais, meu corpo começou a padecer da falta de todas as sacanagens que você me prometera quando nos conhecemos.

Um novo tipo de dor, uma síndrome de abstinência pelos cortes nos braços, pela promessa não cumprida do tiro de misericórdia disparado pelo seu sexo cru. Uma dor nova que faz continuar rastejando atrás de ti pelos mesmos cantos da casa, mesmo depois que você se foi. 

domingo, 14 de abril de 2013

E alguns fios castanhos pelo chão

Hugues Erre (fonte aqui: Obvious)

Ele pra variar, não sabia para onde ir. Ela ali a sua frente naquela tarde de céu azul profundo. Entre um toque de leve de mãos, um sorriso e um instantâneo de destino em forma de sonhos, emergiam as escolhas irresistíveis: ficar ou seguir. Das bocas nenhum argumento lhes convencia, não havia nenhum fato que se opusesse às cores do silêncio enquanto se olhavam.

Se havia algum fato inescapável era o de que ela estava lá. Agora, à sua frente, atrás, aos lados, em cima e abaixo de onde o pensamento podia – Ela já estava. Cheia de praia e sol nos olhos e de brilho de toda à tarde. E ele lá esperando pelo beijo dela.

Ela, onde não se sabia, distante das velhas certezas, desmontando devagar os segredos de cada ruga no rosto dele, decifrando os códigos secretos que se pretendiam tão bem guardados nos seus rastros de cabelos brancos.

Deram-se conta que não sabiam para onde ir. Riram e continuaram.

No dia seguinte, restaram alguns fios de longos cabelos castanhos pelo chão.