sábado, 31 de março de 2018

segunda-feira, 12 de março de 2018

sexta-feira, 9 de março de 2018

Mudez




Na terceira ou quarta vez que conversaram sobre a mudez de suas vidas, o fizeram na cozinha. A cozinha parecia o lugar onde essas coisas sempre aconteciam. Os ritos do preparo do alimento, prazer, saciedade, o descarte das sobras, a limpeza dos pratos e panelas, tudo de novo.

Ele lavava as louças – boa maneira de tentar enganar a si mesmo do óbvio da cena que se desdobrava. Ela tomava um café – que ele recusara. Estava claro que o café já não os encantava como em contos passados.

O silêncio demorou tanto quanto o café dela, uma eternidade. Então ela perguntou, quase sussurrando:

 -  O que nós fizemos da gente?

Mais silêncio. Apenas o som da água escorrendo.
Ele se virou lentamente, aproximou-se da mesa e com lágrimas nos olhos a abraçou tão forte como da primeira vez que se viram.

Seria a última.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Margo Guryan - Sunday Morning (Take a Picture, 1968)

Nenhum Apelido

Hugues Erre
Fonte: Clique Aqui


Meu Bem,

Hoje me dei conta, depois de tantas cartas, que você nunca me chamou assim. Nunca me deu nenhum apelido, qualquer nomezinho carinhoso desses que pessoas abestalhadas dão para outras quando apaixonadas. Mas só com o tempo é que esses pequenos detalhes começaram a parecer relevantes, quando não havia mais nada daquilo - que tudo poderia ter sido - em nenhum lugar. Nem na ida, nem na volta. 

Pode parecer estranho para você que eu ainda me interesse por reminiscências, pequenas coisas que a pressa adormeceu esquecidas pelos cantos da casa: sua ansiedade, seu medo, seu sexo cru e urgente, seu suor agridoce. Hora ou outra, encontro uns pedacinhos de alguns deles. Me apego a eles em silêncio, mudo como o meu telefone, como se fosse um e-mail inesperado, talvez o último, no qual diga que até a sua cidade agora lhe fazia mal. 

Encolhido nesse canto tomo um gole daquela vodka que você deixou e choro escondido de mim mesmo. A cidade também já me é estranha e não há nem um apelido nosso para lembrar.

Ou sou que já não consigo?

sábado, 3 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

domingo, 8 de outubro de 2017

domingo, 3 de setembro de 2017

terça-feira, 29 de agosto de 2017

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Olhares, Uma Foto, Um Postal

Depois que ela entrou em sua vida seus dias foram tomados de uma euforia sem controle. Ao mesmo tempo, tão escondida quanto facilmente vista por qualquer um que visse a forma como coçava a cabeça quando estava em sua presença. 

Os olhos negros dela o faziam mirar na direção que queriam. Ver o que ela queria. Sua boca e fartos lábios diziam as palavras que ele ouviria sem cansar durante o somatório infinito de minutos que durasse seu sorriso. O balançar de seus cabelos o embalava até todos os próximos encontros que sequer ainda haviam marcado. 

Ouviu com atenção a música que ela ouvia naquele dia, criou para si um vídeo clip que se desdobrou em textos sem fim. Ela nunca disse nada sobre seu amor. Ele nunca fora um passo  além em nada que o denunciasse ainda mais. Ela sabia, ele sabia. Bastava. Depois disso era vida que seguia.

A mágica se dera no encontro, em um ou outro momento em que não puderam mais se desviar do fato que suas vidas nunca mais seriam as mesmas depois daquele passo.


Há muito não se tem noticias deles. Há quem diga que seguiram para um país distante de onde nunca mais voltaram. De lá parece que enviaram um cartão postal e uma foto deles para um amigo mais próximo. 

Quem viu seus olhares naquele instantâneo jura que viverão juntos para sempre.