quinta-feira, 16 de junho de 2011

Bonifrate: um futuro inteiro



Disco bacana do Bonifrate, Um Futuro Inteiro. Excelentes letras, boa poesia. Musicalidade delicada e desafiadora. Vocês devem lembrar de Bonifrate da trilha do filme Apenas o Fim. Pede um bom vinho. Pode ser hoje, que chove lá fora e a noite de quinta ganha contornos de domingo...
Algo delicado, inexplicável, perdido em algum tempo no passado ou no futuro, tudo incerto, nostalgia e poesia sem fim.
 
No fundo do mar 
Jazem todos os tais naufrágios 
Frouxos adágios 
Dos corações


CURTAM!

Naufrágios

Na casa de Val, lá na beira do rio, eu ouvi da estrada uma freiada de bicicleta e me lembrei de vocês. 
Mas não tem nada de nostalgia, não! 
Afino e só invento o tempo 
Que só eu sei como passa 
E anéis de fumaça 
Em formação perene 
Mas não me encene 
Um amor assim sem se acabar 
No fundo do mar 
Jazem todos os tais naufrágios 
Frouxos adágios 
Dos corações

quinta-feira, 17 de março de 2011

Poesia 16: Dentro dos teus olhos


Van Gogh: Sun Flowers
Dentro dos teus Olhos

Quão fundo olhei dentro dos teus olhos
Pra encontrar uma imensidão de dobras,
Cores e sombras.
Amor, tu dissestes
De um tempo onde nada fazia sentido,
Que me querias.
E tua luz arrancou-me os olhos.
As órbitas vazias,
Alegrei-as com flores,
As mais vivas e coloridas.
Mas o tempo morde
Mesmo as flores desbotam.
Minha mente errática
A sua, indo.
E a liberdade virou um salto no vazio:
Às cegas, de costas pra tudo, pra cima, pra antes
Pra dentro
Em meio a um colorido de sombras, e sons de futuros incertos
Esgueirando-se da lembrança e de sentimentos
Arrancou-se toda a pele.
E assim, pulsante, em sua nova carne viva
Deitou suavemente sobre o corpo nu,
O sangue de que são feitas todas as cores
Do amor.

Van

sábado, 12 de março de 2011

Poesia 15



Outro Carnaval que Acaba
                                                      
De quantos finais são feitos um querer?
De quantas maneiras não me deixei dizer?
E de quantas outras não sonhei,
Junto?
Talvez o lado mais certo de tudo seja o avesso
Nele há um aceno não visto,
Uma ligação perdida,
Um sorriso congelado,
Uma vontade secreta,
No tempo
Dos quereres de que são feitos os finais
Ficam sim sonhos e coisas que não passam
Ficam dores e desmantelos
Ficam flores e segredos
Os cortes profundos de onde brota poesia ruim
Que seria da poesia sem finais?
E do mundo sem Pierrots?
Óbvio,
Um lugar mais feliz!
A estrada apenas segue 
E o carnaval que nunca veio,
Apenas acaba
Mesmo
Ainda que com música e poesia


                                                                          Van



PS: bom FDS!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Poesia 14: MINGUANTE



MINGUANTE

É lua minguante.
a estrada se perde
no seu próprio correr.
É grande a noite,
ando só pelo extenso
e é só pó
e mato escuro.
Indo pela sombra,
piso e me entranho
entre cobras e aranhas no meio de folhas secas
e penso:
sonham as cobras?
Os insetos, todos os bichos peçonhentos?
Eu não.
Rio-me, quase acredito
na minha própria piada.
Mas continuo e crio um delírio:
uma velha feiticeira,
a essa hora,
Já se faz ver no tronco seco tombado.
Gargalho! Eco.
Só sonho da estrada,
Só alegoria do caminho,
Das cortinas do acaso
Que descortinam esquecimentos.
Passos ermos e lentos,
O caminho me desfaz.
Não sem dor, não sem um meio sorriso,
coleções de despedidas e poesia ruim.
Enquanto isso todos dormem,
o mesmo conto de fadas,
que não vejo pelo caminho.

                                              Van

domingo, 30 de janeiro de 2011

Poesia 13: Em Cada Momento que Te Desejei

Milo Manara
Em cada momento que te desejei, colhi uma flor pra te dar
Em todo desvairo, não via, um jardim se desfazendo
Cada contorno e cada cerca, tudo quedava
Num outono prematuro
Dentro de mim, onde não brilhava o sol, onde nada crescia
Onde te sentia
Ao longe
Em cada flor colhida
Em uma promessa e um suspiro, um alívio e uma agonia
Falta de ar, falta de chão
Amar era ter as rosas e atravessar-me de espinhos
Quase uma canção triste de mil alegrias perdidas
E promessas inalcançáveis em sonhos de criança
De cada momento que te tive quedei-me em não saber onde ia
Em cada flor colhida do jardim que pisei
Matava parte de mim enquanto já não mais te sentia
E ao longe, tua beleza declinava, quando eu não mais te via
Sem euforia,
Sem desespero,
Sem flores,
Sem espinhos,
Só.
                                                                     


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Poesia 12: Era um Cara Qualquer

Gostei do "Don't try"!



Era Um Cara Qualquer


Já sabiam, não queria muita coisa
Pouco sabia do amor
E sua dislexia o impedia
De compor frases mais complexas
Coisas bestas
Sabia que não podia ter futuro nenhum
E por isso sobrevivia
Sem insistência
Parou um dia de pensar na vida
E desapareceu em meio a uma noite qualquer
Com uma última garrafa na mão
Menos mal
Sua vida era como a linha do meio-fio
Que sumia quando encontrava o bueiro
                                                              Van

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Poesia 11: Complicadice


Guardo um segredo,
Revelar apenas as bordas:
As sombras da imensidão,
Dos mistérios de coisas ínfimas,
Meus dois mil desatinos
E alguns desafetos.
Ser um sujeito normal
Na minha esquisitice.
E desfazer as certezas em mais mistérios,
Pra assim guardar,
Dentro de mim
Um mundo.


Van
11/02/99

domingo, 9 de janeiro de 2011

Poesia 9: Corações de Pedra

                                                               Imagem do filme The Squid and the Whale



CORAÇÕES DE PEDRA



Corações de pedra sem
Suspiros frente ao passado
Ordens desfeitas quando
Menos por vontade
Algo se mexia e
Violentamente
Se dissolvia
Na tela de suas vidas

Menos verdades
Mais desejos, gostos apurados por nada
Num ímpeto, um salto até aqui
Pulando o passado
Revertendo os sentidos do presente
Acumulando votos de incertezas
Para o futuro

Negligências preferenciais
Formam corações de pedra
Os sorrisos mais intensos
Não remetem a nenhuma glória
Pobre imagem a que ficou
Um espelho frente a outro
E nenhum dos dois se vê

Sonho em preto e branco
O futuro acena finalmente
De través
Pelos cortes nas mãos e dos calos na vista
Do que não se vê
Do que não será jamais
Das coisas improváveis e inauditas
Palavras de amor esquecidas e desejadas
Em segredo

Corações de pedra e cimento
Desassossego em cinza
Pelo que se foi
Revolução silenciosa
Pelo que virá


                                                  Van

                                                     05/05/2001

domingo, 2 de janeiro de 2011

POESIA 8: Nada a Dizer



Nada a dizer

Nenhuma palavra dita lembrava o amor de antes
Seus silêncios não foram quebrados
Um choro foi contido no toque de mãos que se seguiu
Eram os maiores amantes que caíram de suas próprias vidas
E de vida ficaram coisas pra lembrar em prateleiras de livros
E fotos em alguma caixa escondida
Registros de uma vida que poderia ter sido as suas
Sim, eles se tocaram, ninguém morrera
E as coisas gritavam isso de todos os cantos
Hora de partir.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Poesia 7: Olhos de Puro Amor



Olhos de Puro Amor
                                             Van

Amei-te com puro ódio
Com a mesma cólera afetiva perfurei teus olhos
Vi em minha vida perdida
Os descaminhos que tu nunca me ofereceste
Era hora de seguir
Arrumei o cabelo no reflexo da lâmina
Beijei-te os lábios frios pela última vez
Antes que, faminto, o gato os comesse.



Para o amigo Lenildo.

domingo, 7 de novembro de 2010

POESIA 5: Hotel



Hotel

Observo a paisagem
Sem casa
Minha cabeça é um quarto de hotel
Só passagens
Muitos vazios
Nenhum aceno
Muitos apertos
No peito


Van

O filme: My Blueberry Nights (tristemente traduzido para o Brasil como "O Beijo Roubado"). 


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Poesia 4: CHOCOLATE!



CHOCOLATE


Amores secretos em caixas de chocolate
Formas antigas de
Com a boca, sem a fala
Dizer as mesmas coisas

Feitos diversos, gestos pausados
Sabores intensos, bocas sedentas
Há chocolate pelos cantos

Línguas febris
Suas procuras não findam
Se desdobram em ânsias
Em reentrâncias e curvaturas
É o chocolate que escorre

Percorre junto e adentro
Realçando com todos os líquidos
Um corpo
Os contrastes entre branco e negro
De um mistério meio-amargo
Profundo
Devassável
Pulsante
Em desmantelar num momento
O próprio tempo

Van

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Poesia 3





O Dito e o Não Dito
Coisas não ditas que esperei ardorosamente não ouvir
Meias palavras em silêncio de uma conversa a um
Discursos subliminares proferidos pra dentro
Saliva seca na garganta
Havia muito ainda a ser dito
Nos dois segundos seguintes
Em que você não estava mais lá
  
Van

domingo, 24 de outubro de 2010

Poesia 2

NA ESTRADA

Escute o som dessa paz que vem como um trovão
O cheiro de pó da chuva que secou seus sonhos
O bilhete é apenas de ida
E na chegada já sabemos o que nos espera
E o bilhete é apenas de ida
O silêncio dessa estrada perfurou meus ouvidos
Levou-me pra além daquelas montanhas
E fui ver o mar
Você estava por lá
Pensei ser o final
Mas você me disse que nada havia acabado
E que a estrada ia além
Você me disse quase sem convicção
Você me disse dessa paz que não chegará
E me embalou em seus braços

Van