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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

No Chão da Praça (conto de Carnaval)



Tantas vezes revisitei aquele dia de carnaval em que nos reencontramos.

Sua inescapável beleza foi o suficiente para encontrá-la na multidão. O imediato impulso foi ir até você, desesperadamente pegar sua mão e falar qualquer bobagem (para a qual você demonstrou pouco ou nenhum interesse em ouvir).

Definitivamente você não estava a fim de me emprestar sua atenção, sua mão, nem tão pouco que eu a seguisse, não ali, não naquele momento, talvez não outra vez. E assim se foi espalhar seus encantos por todas as ruas e praças onde eu não estaria. Embora arredia, bastou o segundo em que mirei seus olhos para entender porque não ficaríamos, afinal era carnaval, além do suor, havia muito brilho, muitos braços e beijos a se encontrar.

Talvez nos falássemos bem mais tarde, ou no outro dia. Talvez a gente voltasse a se ver depois do carnaval. Talvez nunca mais nos víssemos.

Em uma madrugada ainda lhe liguei e você não atendeu, no outro dia o carnaval acabou.
Foi assim, que não ouvimos juntos aquele frevo do Fausto Nilo e Moraes Moreira que lhe mostrara um tempo atrás. Nem tão pouco nos deixamos levar pela parte quente que canta Caetano.

No fim, mais uma estória de Carnaval. Tudo vira inspiração para algum poeta compor um novo frevo que não ouviremos juntos.


Mas depois de tudo, tenho que confessar, foi a melhor fantasia de todo aquele dia. 

E cá estou eu escrevendo, "você é que faz minha a vida variar".



terça-feira, 1 de abril de 2014

Evoluções de Carnaval


Ela acordou com espírito de samba. O carnaval irrompia através das venezianas do apartamento e a semana no fim. Ela resolvia cada um de seus afazeres com a pressa de quem achava que veria o fim do mundo, ao mesmo tempo, com a lassidão própria dos que já se achavam espraiados no tempo mágico do desperdício momimo. 
Agora, emergencialmente, era partir para o trabalho nessa sexta feira. Antes, porém, regar suas plantas, colocar comida pro peixe e torcer pro tempo passar rápido, se necessário pendurar-se nos ponteiros pra horas amolecerem e sair pra bailar. Antes das cinco já deixara o trabalho, correu pro Beco da Ladeira no bairro antigo. 
O bloco estava se organizando, primeiras cervejas e acordes da banda. O cordão fora gestado durante anos com a maior preguiça, estava saindo pela primeira vez. Ela Levaria o estandarte. Entre detalhes em rosa, maquiagem brilhante, batom vermelho e o sorriso maior do ano, ria-se de todo o povo feliz, especialmente do moço bonito que saltou em sua frente durante sua evolução. 
Não havia mais nada em si que contivesse o que a alegria poderia trazer. Reencontrou o mesmo rapaz em outra dança mais tarde. Terminaram a primeira noite de carnaval de corpos entrelaçados em meio à multidão. 
Não havia lua no céu. Não há lua no Carnaval. Nem precisava, em sua cabeça giravam os versos de Gabriela, “Chega mais perto moço bonito...” . 
Bastava-lhe.