quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Ruth Brown - I Don't Know

Mergulho (conto)



Letargia. Perdera a hora e o trabalho hoje. Sabe-se lá mais o que perdera.

Cedo, derrubou o despertador no chão. As pilhas rolaram para os lados. Os olhos semicerrados viam o caminho para a toalete, mas essa não era a saída. Aliás, não sabia mais por onde seguir. 

O celular tocou insistentemente, primeiro seu namorado. Logo depois, do trabalho. Não atendeu nenhum e o desligou.

Manhã alta, a fresta de luz da janela lhe incomodava, apenas isso importava. Cobriu a cabeça com o travesseiro, mergulhou no meio da cama. 

Nunca mais se teve notícias dela.

Ollano - Latitudes (Air Remix)

Helena Noguerra (vocal)
Versão bacana de Latitudes feita pelo Air. Irresistível voz de Helena Noguerra. A performance original pode ser conferida aqui: Ollano - Latitudes

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Volta


Não dormira essa noite, caminhou desde a madrugada por muitas ruas. Depois de tanto sentou-se numa mesa de canto em um bar perto da estação central. Desses que tem um ar úmido, acre de tempo desperdiçado, azedo e sem razões. O lugar para tomar uma cerveja que ninguém espera estar gelada – e nunca está. A longa e estreita porta para rua, mal iluminava o salão. Nos fundos, ao lado do balcão, já na penumbra um corredor estreito seguia para os quartos que serviam de motel. Pensava em como matara suas crenças tempos atrás, todas, inclusive as de afeto. Não fora sempre assim, mas a juventude era uma lembrança bastante gasta, dessas que não valia a pena tentar remontar. Viu alguns casais que ora ou outra entravam e saiam. Estava velho para aventuras, a única coisa que dá alguma razão para vida. Entendia a todos que permaneciam vivos de fato. A cerveja quente naquele bar fedido confirmava que estava fora do jogo. Mais tarde voltaria para seu caminho. Definitivamente, havia sido uma péssima ideia ter voltado para vê-la.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Frito Sampler - Frank Black Meeting Calling Days (Aladins Bakunins, 2015)



Sem Respostas



1944, outono. Ela não tinha notícias de seu jovem marido há meses. Tempos de guerra, não havia respostas para as cartas, restavam as horas, a solidão, a esperança. Mas nenhuma notícia. Casaram-se pouco antes da convocação dele, cerimonia coletiva, terno e vestido emprestados. Lua de Mel no pequeno sótão, que por três dias chamaram de lar. Levava os dias da fábrica, operadora de torno. Tempo que se arrastava, pois envolto no vazio dessa distância. Escrevera mais uma vez para ele há pouco, contara que estava agora no sétimo mês de gravidez. Na cama, sob a pouca luz do quarto acariciava lentamente a barriga, via seus seios fartos e pensava na nova vida a caminho. Em breve não mais estaria só. Seriam dois sobreviventes, haveria muita coisa a fazer. Era preciso mais amor, apesar de tudo. Sentiu-se mais bonita e mais forte do que nunca. Disse tudo isso para ele na carta que acabara de selar. Sabia que as chances de respostas eram cada vez menores. Ou nenhuma.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Aniversário a Flor da Pele




Muito mais do que o normal, estava tomada em euforia. Sua pele estava sensível, havia um formigamento ao toque, sentia graça nas formas dos objetos, ao seguir curvas e linhas, sentir o quente e o frio, o áspero e o suave. Seus ouvidos conseguiam ouvir músicas que não conhecera antes, assim, pelos cantos casa. Havia um perfume novo em suas narinas, tão apaixonante que juraria ter cor. Seus olhos brilharam com a luz filtrada pela cortina, parecia mágica. Tudo era como sábado, tinha torpor e nenhum limite em querer, queria o que não sabia ainda querer. Queria a vida diferente e pronto, não precisava de nenhuma resposta. Apenas lhes serviam os sinais de encantamento que as belezas mais impossíveis lhe mostravam. Vestiu seu vestido de todas as cores, ainda que quase nada vestisse. Foi para rua abraçar o desconhecido, pois era dia de aniversário.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

HashFinger - A1.December.11

Nada Fica

Edward Hopper


Meu bem,

Tenho trabalhado tanto e tanto não tenho feito nada. Pena, nunca consegui encontrar as pílulas de ascese do Dr. Weber. Parece que todos que conhecia as tomaram, estão sumidas do mercado. Tudo melhora às sextas, há o gosto de café e a noite, cerveja. Segunda a labuta tem um gosto de passado, não há como respirar o passado, parece com os sonhos sobre a Escola. Nunca são bons. Já basta a dor de cabeça ao acordar. 
Lembrei que você falava sobre o futuro. Agora nenhum dos meus amigos mais fala sobre o futuro, provavelmente por estar muito próximo, bem ali, poucos anos. Sem prorrogação. Preferem falar dos filhos. 
Há pouco tempo pra todos nós. Nada fica.
Quisera um carnaval como nunca tive na vida. 
E não ter que levantar na quarta-feira.


Sinceramente