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domingo, 7 de maio de 2017

A Coisa Certa

Edward Hopper - Room in Brooklyn

Depois que todos saíram: filhos, demais parentes e amigos, terminou de arrumar a casa. Algumas pequenas coisas que ainda ficaram fora do lugar depois que se foram: umas poucas xícaras de café, talheres, cadeiras.

Enfim, silêncio. Ficou algum tempo à janela na sala mirando o horizonte de prédios, momento de rever em segundos sua vida até ali, cada endereço, cada obstáculo vencido, cada incerteza, decisão, algumas alegrias e umas tantas dores.

Seguiu para o quarto, abriu o guarda-roupa, apenas um lado. Lá estavam as roupas dele nos cabides, camisas, calças. Não seriam mais usadas, não mais por ele, pensou em doá-las, era o certo. Mais uma decisão, dessa vez sozinha, como seriam as próximas de sua vida sem ele.


Cansada, suspirou profundamente e enfim, chorou de saudades.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Navidad (reedição)

Reedição de um poema em prosa publicado aqui em 03 de julho de 2012.
Editei os parágrafos e alterei algumas palavras, como também, convidei a sedutora solitude de Edward Hooper para ilustrá-lo.
Espero que gostem.


Edward Hopper

Dentro de algum sonho esquecido, em um apartamento ao qual nunca mais voltaria, no fundo de uma grande gaveta na sala havia uma caixa de pequenas e intricadas coisas de fazer rir. Um trancelim de barbantes de graça, uma caixa diáfana de cócegas fáceis, um silêncio antes da risada e uma infinidade de pequeninos versos por serem escritos.

Como o vento essas coisas se foram para se tornarem outras, e se juntarem a sabores, fotos e lugares imprevistos, visitados com delicadeza em dias de sol, sem que ninguém soubesse. Praias desertas, outros sorrisos, colo e carinhos. 

Ao Sol a vida pode voltar a correr como a areia daquela praia secreta. Uma forma de espera, um aconchego, para poder contar uma nova grande novidade. 

Porém, o tempo nunca está a favor. 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Nada Fica

Edward Hopper


Meu bem,

Tenho trabalhado tanto e tanto não tenho feito nada. Pena, nunca consegui encontrar as pílulas de ascese do Dr. Weber. Parece que todos que conhecia as tomaram, estão sumidas do mercado. Tudo melhora às sextas, há o gosto de café e a noite, cerveja. Segunda a labuta tem um gosto de passado, não há como respirar o passado, parece com os sonhos sobre a Escola. Nunca são bons. Já basta a dor de cabeça ao acordar. 
Lembrei que você falava sobre o futuro. Agora nenhum dos meus amigos mais fala sobre o futuro, provavelmente por estar muito próximo, bem ali, poucos anos. Sem prorrogação. Preferem falar dos filhos. 
Há pouco tempo pra todos nós. Nada fica.
Quisera um carnaval como nunca tive na vida. 
E não ter que levantar na quarta-feira.


Sinceramente 

terça-feira, 17 de março de 2015

Entre os Dedos II (conto)

Edward Hopper - Room in New York (1932)

Os últimos dias foram os mais difíceis para eles até ali. Os silêncios e as tentativas de gestos de boa vontade se esvaziavam no ar. Se ainda havia amor entre eles, já não parecia estar em nenhum lugar daquela sala de estar, nem nas plantas, nem nas fotografias sobre a prateleira, nem além da janela. O desespero de verem-se sem opções, tempo ou paciência tornou-se lágrimas que vinham em qualquer lugar. No colo dele, ela ainda tentou retrucar o imponderável, quis dizer “mas eu te amo”. Não teve forças. Nunca disse. Nunca dirá. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Ela Queria Mais

Morning Sun (Edward Hopper, 1952)
Sua mudança estava completa, uma nova cidade, uma nova vida. Neste novo lugar nem mesmo ela se reconhecia. Ou talvez agora se conhecesse mais do que nunca. Sentia sua pele acesa, vibrante como todo o resto do seu corpo. Ao passar as mãos sobre as pernas, nuca, seios sentia-os ardentes, como espetados por milhares de minúsculos alfinetes que lhe lembravam a cada segundo que tinha pressa, um desejo furioso, uma fome de algo que estava lhe retesando os músculos, criando um permanente sorriso nervoso, incontrolável. Havia voltado pra casa há pouco, do cara que conheceu ontem trazia o pescoço marcado pelo arranhar da barba malfeita e um cheiro de perfume masculino barato. Na beirada de sua cama via as primeiras luzes do Sol. Toca-se excitando-se se como a vida dependesse da continuidade eterna desse entorpecimento. Ela podia tudo. Rufaram os tambores de guerra. Ela queria mais.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Algo Sobre o Amor Antes do Amanhecer

Richard Tuschman, sobre as solidões de Edward Hopper.
Olhou para o lado e ela estava lá, encolhida, braço sob a cabeça. Como um bebê que crescera demais e enrolava-se em si mesma, misturava-se com o travesseiro, cabelos soltos, nua, lençol no chão. Ele virou-se pro lado oposto, incomodado por toda a luz do mundo que vinha da janela aberta lhe cegando os olhos cansados tão cedo da manhã.

Dormira pouco. Até a pouco repetiram o ritual de confrontarem suas indisposições mútuas, suas necessidades incompreensíveis e sensibilidades afetadas pelas dores que ultrapassavam as cada vez maiores fissuras de suas vidas naquele momento. Fragmentos de frases grudaram em sua mente, sabia ter dito pra ela que não poderia mais haver amor entre eles. Ao que ela retrucou não ser o problema, ele não poderia amar ninguém, nem mesmo a si, por não conseguir ter alguma generosidade consigo mesmo.

A partir desse momento dois monólogos sobre a solidão que se constituía há tempos entre ambos começou a desenrolar: dele, a falta de generosidade para consigo, dela, o sentimento que se esvaia numa distância que se materializava como um salto de um trapézio absurdo entre eles, sem rede de proteção. O teatro de falas exaltadas intercalados por silêncios corrosivos durou toda a madrugada. Sabiam que o fim estava logo ali. Desistiram enfim. Ela foi para o quarto, ele para o sofá. Passados alguns minutos ela o chamou para cama. Sem cerimônia, ele ascendeu. Não mais se falaram, adormeceram vencidos pelo excesso de adrenalina.

Agora, com toda atenção na própria respiração para não acordá-la, tentava juntar em sua cabeça as peças de suas vidas largadas nessa confusão de distâncias. Sem aviso, ela mudou de posição na cama, virou-se para o lado dele, passou o braço ao redor do seu pescoço e aninhou-se ali, bem perto de sua orelha.


Ele emudeceu a respiração e os pensamentos, Abraçou-a ternamente e voltou a dormir. 

O inevitável ficaria pra mais tarde.

sábado, 2 de novembro de 2013

Toda poesia é falsa

Edward hopper - Sunlights in Cafeteria

Sábado, fim de tarde morno. Cidade estranha, escala numa viagem de trabalho.  Nada pra fazer, ninguém pra ligar, canso do barulho monótono do ventilador de teto. Melhor ir para o Centro ver as pessoas.
Paro em um café antigo, hora de brincar o velho jogo de adivinhar roteiros possíveis dos passantes. Imaginar destinos pros que ficam às mesas. Tentar acertar o motivo pelo qual o jovem casal discute efusivamente. Fantasiar o que me diria a garota de profundos olhos negros – olhar distante, chuvoso, desses que induzem poemas de despedidas a cada piscada – caso sentasse aqui comigo.
Ela lê um livro de poesias. Uma coletânea de capa dura, marrom e amarela, bastante surrada. Talvez vindo de algum dos sebos que vi no caminho, quem sabe, comprado nesse mesmo dia.
Ela se levanta, paga a conta e desaparece rua abaixo. Pude ver de relance o nome do autor: Dave Bowman.
Levanto-me também e procuro num sebo vizinho o tal livro. Encontro-o numa edição mais atual, abro-o no primeiro poema:

Deite seu peso em meu colo
Fique comigo
Experimente de perto meu desespero
Tente ver por dentro dessa escuridão
Seu cheiro tem algo de medo
Seu medo, algo de você
Ainda lembro
Agarro-me a isso
Com a força de uma relutância infinita
Não posso dizer-lhe mais nenhuma verdade
Talvez só reste uma
Só a dor é real
E toda poesia é falsa

Dessa forma inusitada aquela garota de inalcançáveis olhos de melancolia me fez saber : “Só a dor é real, e toda poesia é falsa”.
Volto para o hotel.
Noite, 27º. 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

E Pegou a Estrada

"Compartment C, Car 293" (1938), Edward Hopper

Hoje ela queria sair dali, assim, de súbito. Ir, escafeder-se, melhor, teletransportar-se. Revirar a realidade por suas dobras sobre si mesma, ver por dentro das coisas invisíveis, experimentar um pouco do impossível, sentir a calma do olho da tormenta, dormir um sonho inesquecível. 

Ela queria apenas partir. Pra onde a levaria o coelho branco não interessava. Chegara a hora, ela o seguiria. Como não tinha rumo, escrevia em sua mente roteiros como melodias: suas melhores bandas, suas músicas secretas, um som que ainda estava por conhecer, aquele, que em segredo lhe fazia arrepiar a nuca, no mesmo instante em que voltava à realidade. 

Transgredir-se-ia sem pensar, a partir de hoje a vida não careceria de descanso, o Mundo seria seu pouso.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Bater a porta e sair

Edward Hopper - Nighthawks (1942)

Dentro de sua mente, ainda podia ouvir o som da porta ao bater daquela última vez. Daquele canto da sala de onde lhe parecera nunca mais sair, nada lhe era mais presente. Havia uma mudança lenta dos tons da parede à medida que o Sol era filtrado pelas cortinas claras, e as horas iam passando ao longo do dia. Cada detalhe daquele arranjo de flores sobre a mesa de centro fora cuidadosamente analisado sob aquele inusitado ângulo de observação no qual se encontrava agora.

Em certo instante, dentro de um looping eterno, entre o sorridente início de tudo e os fatos descontrolados que os levaram até o momento da contagem das hastes de margaridas sobre a mesinha de centro, houve a consciência que já se passavam pelo menos 12 horas que não pronunciava palavra. Nem consigo, muito menos com ninguém. Pensara isso ao olhar a xícara de café, ainda pela metade, sobre a mesma mesa de centro e que esfriara tanto tempo atrás – Percebeu seus lábios secos, colados, sedentos de saliva que os tirasse da prisão do silêncio. Parecia que daquela vez em diante nunca mais haveria diálogo, aparentemente, mesmo os monólogos haviam sido encerrados.

Noite. Súbito, levantou-se. Cuidou minimamente da aparência de cansaço. Lançou-se à rua. Minutos depois trocava ideias sobre a vida com o simpático senhor que atendia no antigo Café da esquina, do amargor da frustração à insistência que algo maravilhoso pode estar sempre pra acontecer. Passavam os anos e seu José continuava infalível em acompanhar histórias dos outros. Alguns cafés e pães de queijo depois – mal se dera conta o quanto estava com fome - aquela seria sua vez de bater a porta e sair pra vida.