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domingo, 21 de setembro de 2014

Liberdade (conto)

Fonte: Insana_Mente, via: Violadreamlover

Nessa manhã de sábado, logo depois de levantar, se via no espelho e pensava o quanto tinha acertado em suas últimas e arriscadas escolhas.  Ela havia deixado para trás sua antiga vida há muito tempo. 
Hoje olhava para si mesma de forma diferente: Seu corpo, suas ideias, algumas imagens da noite anterior que passavam rápido em sua cabeça, seu desejo e a pele ardente, a maneira como se sentia em agitada mudança. 
As coisas que deixou de fazer e que lhe pareciam tão essenciais, as opções que lhe tiraram o sono, agora se perdiam frente ao arrepiar de seus pelos enquanto pensava no que poderia acontecer. Na imagem refletida curtiu seu novo cabelo curto. 
Por sobre o ombro olhou sua cama bagunçada e reparou nas roupas espalhadas pelo chão (formando um tipo de linha desde a porta) e o cara que conhecera no bar perto do seu novo trabalho. 
Ele dormia ainda. No lado esquerdo um dos braços e um pé despencavam pela beirada afora. Sentiu seus peitos emperdenidos. Tornou a deitar-se. Abraçou-o forte pelas costas e embriagou-se de sua própria liberdade.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Juan Carlos Carceres - Darsena Sur (versão eletro)

Darsena Sur - Buenos Aires

Pausa Para o Almoço (conto)

London: Lunch Time - A Time to Think (Source: HERE)

Era sexta feira. Depois de muito tempo, combinaram encontrar-se no intervalo do almoço. Trabalhavam no centro da cidade. Ela, secretária em um escritório de cobranças. Ele, assistente em um depósito de um grande magazine. 

Conheceram-se através de uma amiga em comum, uma prima dela, também em um almoço em restaurante barato pelo centro. Hoje se veriam em um mais arrumadinho, ambos conseguiram mais tempo e saíram ansiosos para o encontro. Ela falava sem parar. E ele controlava-se para não fixar seus olhos nos dela. Impossível não reparar que ela também o olhava, mesmo que muito rapidamente. 

A conversa sobre tudo na vida dos dois se passou em vinte minutos. Antes que tocassem na comida estavam se beijando. Tempos depois confessaram um para o outro terem temido que nunca parassem de falar, e que o beijo jamais ocorresse. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

De Cartas e de Suculentas (conto)

Foto: Katrina Stranger
Sábado, fim de tarde. Havia acabado de tomar banho, trajando apenas a toalha enrolada nos cabelos ainda molhados (coisas dela), arrumara parte da bagunça espalhada pela casa ao longo da semana. Depois café, um tablete de chocolate amargo e um cigarro. Sobre a mesa o bloco de rascunhos de arame com capa preta dura, caneta bic azul, além, à sua frente, um pequeno vaso de cerâmica com alguns pequenos cactos e brotos de suculentas. Ela chamava carinhosamente as suculentas de gulosas (ainda coisas dela). Olhava para o vasinho enquanto escrevia sua última carta para ele.  

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Algo Mais Sobre Perder-se (conto)


Noite, pouca luz pelo quarto. Quase irreal tê-la ali em suas mãos: todos os cheiros, curvas e pelos. E mais aquele jeito de dizer o nome dele em sussurro, que ela recentemente inventara.

O corpo dela em suas mãos, naquele instante inesperado, parecia trazer algo de religioso, de mágico pelo proibido. O algo que o salvaria, o redimiria por alguns instantes quando lembrasse isso no futuro. Por enquanto, a feitiçaria que existia nos movimentos daquelas ancas o fazia perder-se em danação. Sabia disso. Gostava cada vez mais.

Lia em cada reentrância um sinal, pra ele só o caminho que os peitos dela apontavam poderia levar-lhe para o lugar comum de onde nenhuma vida consegue voltar. Era um caminho sem volta. Ela lhe segurava forte uma das mãos. Com a outra cravava as unhas nas costas dele. E assim o conduzia para sabe-se lá onde. 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

The Coasters - Down in Mexico (1957)

Death Proof (Tarantino, 2007)

Nunca é Dia do Caçador (conto)

Death Proof (Tarantino, 2007)
Na tarde que ele a procurou novamente, depois das primeiras (poucas) vezes que se viram, não fazia ideia o quanto estava se tornando perdidamente apaixonado por aqueles olhos escuros, fala rápida, gestos juvenis e balanço displicente daqueles cabelos longos. 

A pele dela agora lhe parecia ter a textura e cor que combinavam com a foto perfeita que pensou dela sem roupa. A nova estória que ela lhe contaria sobre algo banal e cheio de cores o faria pensar o quanto festejaria pra sempre viver naquele sorriso de lábios vermelhos e fartos. 

Bastaria agora que ela dissesse o seu primeiro oi e ele mergulharia no transe irremediável daquelas pernas, como na cena de Down in Mexico, do Tarantino. Mas ele ainda não sabia de nada disso.

O caçador, coitado, agora era a caça.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Space - Magic Fly (1977)

Mais futuro do pretérito.

Jane Fonda em Barbarella (Roger Vadim, 1968)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Annie Hall (Wood Allen, 1977) - Monólogo

Básico


Uma gravura: Bicicleta Sem Freio

Coletivo Bicicleta Sem Freio (Douglas de Castro, Victor Rocha e Renato Reno)

Conto: A Garota da Imensidão Azul


Sábado à noite e ele resolveu sair. Já era tarde, depois de um dia longo e difícil precisava andar pelas ruas, sentir o frio no rosto, animar-se um pouco coma vista das pessoas envolvidas entre nuvens de fumo e cerveja em copos americanos. Sentar em alguns desses botecos de esquina e tomar algumas geladas ao som dos carros, buzinas impacientes de quem não se importa com a displicência boemia que anda a esmo pelo meio da rua às duas da manhã. Ter pra si um pouco dessa madrugada de berros e falta de medo de estar no mundo.

Entrou em um bar que não conhecia. Paredes vermelhas, mesas antigas, ficou no final do longo balcão, ao lado do dancing interessante, com um piso rebaixado, por trás de uma parede curva que lhe oferecia alguma reserva em relação aos olhares que vinham do saguão. Quase vazio, salvo por uma única garota que parecia ter se aventurado a seguir a música que ninguém mais conhecia ali.

A menina dançava sozinha, olhos fechados, jogando seus cabelos compridos para os lados. Longas tatuagens lhe subiam as costas nuas do vestido branco. Era iluminada por um azulado escuro brilhante, quase extraterrestre, com a luz negra do salão. Fartas sobrancelhas escuras. Peitos proeminentes, definitivos, daqueles que não se esquece nunca. E sua bunda e quadris faziam o movimento certo que ele precisava em sua poética desgarrada de inspiração.
A moça desenhava movimentos suaves repletos de impressionismo. Movia-se como em um ambiente sem gravidade, mergulhada na psicodelia da tristeza retrô que preenchia o ambiente. Flutuava hipnótica nesse seu universo interior, aquático. Repetia pra si mesma a letra minimalista que rolava nos alto-falantes, era possível ler nos seus lábios, inacreditavelmente rubros.

Um momento abriu os olhos e olhou exatamente para ele. Quatro ou cinco segundos entre um e outro movimento bastaram. Chamou-o para perto.

Ela era aquele algo que quebraria seu silêncio interior, que romperia bruscamente a voz em off que narrava sua maçante intolerância com quase tudo.
Desejava menos estar em mais um de seus frames do que apenas um passante descendo bêbado abraçado com ela uma rua de bares barulhentos pela madrugada, pronto para tropeçar em qualquer coisa que o destino lhes colocasse no caminho.

Viram o dia raiar juntos. Chamou-a pra si mesmo de "a garota da imensidão azul".

Não esqueceu mais seu perfume. 

Seu batom não largou mais da gola de sua camisa.