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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Savages - You're My Chocolate

Não Lugares (conto)


A porta da sala se fechara há pouco. Tomava uma última taça de vinho na varanda, encostada no parapeito.

Enquanto olhava para suas plantas, esperava uma resposta para os dilemas de seus descompassos afetivos. Queria que seu coração se tornasse prático, assim como ela era a maior parte do tempo com suas obrigações. Parecia não haver jeito. Essa noite era prova disso.

Eles se deviam essa fala, esse olho no olho, esse mergulho no desejo, insolúvel em um meio que não fosse o das relações imaginárias. Durante alguns momentos naquela noite falaram como ia vida. Entre um caso e outro ou uma confissão, foi-se uma garrafa de vinho e alguns cafés.

Nesse reencontro não tocaram no que os fazia querer estar ali e evitaram cuidadosamente suas antigas diferenças, como também, mais ainda o que parecia os unir. Cuidado apenas traído pelo riso bobo no qual se viram envolvidos, revivendo algumas piadas antigas e batidas.

Abraçaram-se longamente na despedida. Novamente aquele beijo perto da boca, a medida do não lugar, do que talvez nunca tenha estado, do que talvez nunca estará. Do que deveria ser.

Tudo o que parecia dizer aquela música antiga e com melodia triste, que estava no CD que ele lhe gravou como recordação.

Depois que ele saiu e a música terminou, fez-se um silêncio para o qual ela não estava preparada. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

The Cotton Jones Basket Ride - Chewing Gum

Pequenas grandes coisas perdidas no meio de tudo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Watcha Clan - We Are One

“Last night i've had a dream...”

Sutilezas


Morreria pra sempre. 
A morte não é má.

Fernanda Meireles

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Severinas (Eliza Capai, 2013)

A dura realidade das mulheres que recebem o "bolsa-família" e a perspectiva de mudança em suas vidas a partir do benefício.


Severinas from Agência Pública on Vimeo.

Para saber mais:

Vozes do Bolsa Família - Autonomia, Dinheiro e Cidadania. 
Walkiria Leão Rego e 
Alessandro Pinzani
Editora UNESP, 2013



Os resultados do Bolsa Família na vida dos usuários

Os dados empíricos que fundamentam a análise presente no livro são as vozes das mulheres beneficiárias do Programa Bolsa Família, perspectiva essencial e oportuna para quem quer se debruçar sobre essa realidade complexa que é viver em condições de pobreza extrema, o que vem acompanhado de formas de exploração e violência de toda natureza.
 
Mais instigante ainda se torna a realidade aqui apreendida porque envolve um par de pesquisadores composto de forma pouco usual na literatura das ciências sociais voltadas ao mundo empírico. Não se trata somente de uma pesquisadora e um pesquisador, mas da combinação de suas especialidades: ela, cientista política; ele, filósofo.
 
O resultado do trabalho dessa dupla é um livro instigante a partir do olhar de cada um sobre uma realidade por eles vivida e da qual foram extraídos dados provenientes de 150 entrevistas realizadas com essas mulheres, no período de cinco anos.
 
Vozes do Bolsa Família apresenta uma estrutura perspicaz: mescla capítulos de teor teórico com outros de caráter eminentemente empírico. Assim, são tratadas nos dois primeiros capítulos questões relativas à Teoria Crítica, da perspectiva ética, que funcionam como bases teóricas da pesquisa de campo e análise dos dados. O objetivo do trabalho fica claro: “(...) investigar os efeitos políticos e morais (...) do BF sobre os usuários, à luz de uma concepção de autonomia individual baseada no capability approach desenvolvido por Amartya Sen e Martha Nussbaum, assim como da conexão entre renda monetária e autonomia individual teorizada em particular por George Simmel” (p. 15).
 
E é a partir da perspectiva de Sen que o quarto capítulo aborda a questão da pobreza enquanto conceito multidimensional. Aí são tratadas várias de suas dimensões, contrapostas à Constituição de 1988, ressaltando-se em especial as dimensões da vergonha, da desigualdade interna às famílias, da invisibilidade e da mudez, para além das dimensões propriamente econômicas e materiais.
 
No entanto, é no terceiro capítulo do livro que se concentra a riqueza dos cinco anos em que foram realizadas as entrevistas. As mulheres aparecem com sua força e lucidez, provocadas pelos entrevistadores para falar sobre os resultados do programa na vida de cada uma. Os discursos são entremeados por análises dos autores e, mais frequentemente, pelos relatos do impacto que as diferentes – nas relativamente homogêneas – situações de pobreza e exposições ao risco social causaram sobre eles próprios.
 
Quanto aos resultados, há de se destacar dois principais: o primeiro, dar voz e visibilidade a esses sujeitos sociais – as mulheres pobres e miseráveis beneficiárias do BF que vivem em áreas de extrema pobreza –, que no livro encontram, graças à sensibilidade dos autores, um espaço de visibilidade e uma oportunidade de ser ouvidas.
 
Já no que diz respeito ao segundo deles, tão relevante quanto o primeiro, o fato de constatar, a partir dos discursos dessas mulheres, que a condição de beneficiárias do BF está longe de significar, na sua condição concreta de vida, que mergulhem nos preconceitos que políticas de combate à pobreza, em especial de transferência de renda, se vêm envolvidas pela sociedade, em particular pelos seus segmentos não pobres. “No caso brasileiro, o debate sobre o Bolsa Família é um bom exemplo de repetição histórica do preconceito e da força dos estereótipos” (p. 225). É isto que o texto combate de forma minuciosa e com fundamentação teórica e empírica: nossos preconceitos sociais arraigados numa sociedade patrimonialista. Assim é que somente duas das 150 entrevistadas declararam ter deixado de trabalhar depois de passarem a receber o benefício (portanto, o BF não estimula o “não trabalho”); o gasto do recurso é dirigido à alimentação (principalmente das crianças), e não ao consumo de bens supérfluos; boa parte delas consegue se libertar da violência doméstica, a partir do momento que contam com uma fonte de renda; a educação das crianças é valorizada, assim como sua saúde.
 
Finalmente, há a dimensão “libertadora” do acesso ao dinheiro, que abre espaço para a construção da autonomia desses sujeitos sociais, uma vez que representa uma base material imprescindível para tanto. Afirmam os autores: “(...) constata-se que o programa BF garante o direito à vida a milhões de brasileiros; não resolve, contudo, o problema da pobreza. Isso se destaca particularmente quando observamos a situação dos homens pobres no quesito renda regular e aumento de autoestima. Na verdade, os maridos, normalmente, não têm nenhuma perspectiva de trabalho e de melhora de vida; não possuem futuro nessas regiões nas quais se realizou a pesquisa. (...) São pessoas de vida precária em todos os sentidos: precariedade de vínculos, de sentimentos, de relações sociais sempre provisórias, pois provisórios são seus subempregos” (p. 185).
 
Vozes do Bolsa Família, pelo rigor teórico que fundamenta o tratamento dado ao discurso dessas mulheres, associado à sensibilidade dos pesquisadores, traz preciosos elementos para pensar em que consiste, efetivamente, a democracia social e política neste país. E mais que isso: que os caminhos até aqui trilhados apontam de certa forma na direção correta, mas ainda há muito a percorrer para que sejamos uma sociedade mais justa, que permita aos indivíduos terem projetos de futuro, para si e seus descendentes. Eis aí, portanto, uma leitura obrigatória.
 
Amélia Cohn é professora aposentada da USP e bolsista sênior do CNPq

terça-feira, 7 de outubro de 2014

domingo, 5 de outubro de 2014

Embarque (Conto)


Aqueles estavam sendo tempos difíceis para ela. Entre as coisas que teimavam em não dar certo, suas contas vencidas e o dinheiro pouco do novo recente trabalho, tinha na cabeça apenas a certeza de que tudo aquilo seria passageiro. 
Roupa de dormir e uma xícara de chá. Colocou para tocar uma trilha de filme que seu pai ouvia quando ela ainda era criança. No clima nostálgico e embevecido pela música pensou em seu sonho da noite anterior, no qual tudo era diferente, e ela contava para um atento rapaz de olhos ternos que conhecera há pouco, o quanto tinha certeza que algo maravilhoso estava para acontecer. 
Na manhã seguinte ao chegar ao trabalho abriu um e-mail do mesmo rapaz, perguntava por ela e se poderiam se ver novamente. No final de semana combinaram um encontro. Foi um curto e intenso romance. No mês seguinte pediria demissão, entregaria o apartamento e cruzaria o país. Iria resolver seu sonho em uma terra estranha. 
Ao rapaz no aeroporto jurou nunca esquecê-lo. Agradeceu a ele por naquele sonho tê-la ouvido, beijaram-se pela última vez e ela se perdeu entre as outras pessoas por trás do portão de embarque. 
Hoje, depois de tanto tempo, ele tem quase certeza de que tudo aquilo não passou de um sonho. Dele.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Calendário (conto)

Via: Naked Women Drinking Coffee

Acordou. Acarinhou o gato. Ainda de camisola foi à varanda e regou suas plantas. Só então escovou os dentes e olhou-se no espelho. Entre seus compridos cabelos de um sempre fiel castanho-escuro, agora lhe escapavam alguns rebeldes fios brancos. Sem jeito. Tomou um café preto forte. 
Olhou o calendário, lembrou-se que era seu aniversário. Ficou sem graça por tê-lo esquecido. Definitivamente não gostava de aniversários, em especial, do seu. 
Não havia mais tempo. 
Sem mais, enrolou uma echarpe vermelha no pescoço e foi trabalhar.
Se desse compraria uma garrafa de vinho na volta.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

domingo, 21 de setembro de 2014

Liberdade (conto)

Fonte: Insana_Mente, via: Violadreamlover

Nessa manhã de sábado, logo depois de levantar, se via no espelho e pensava o quanto tinha acertado em suas últimas e arriscadas escolhas.  Ela havia deixado para trás sua antiga vida há muito tempo. 
Hoje olhava para si mesma de forma diferente: Seu corpo, suas ideias, algumas imagens da noite anterior que passavam rápido em sua cabeça, seu desejo e a pele ardente, a maneira como se sentia em agitada mudança. 
As coisas que deixou de fazer e que lhe pareciam tão essenciais, as opções que lhe tiraram o sono, agora se perdiam frente ao arrepiar de seus pelos enquanto pensava no que poderia acontecer. Na imagem refletida curtiu seu novo cabelo curto. 
Por sobre o ombro olhou sua cama bagunçada e reparou nas roupas espalhadas pelo chão (formando um tipo de linha desde a porta) e o cara que conhecera no bar perto do seu novo trabalho. 
Ele dormia ainda. No lado esquerdo um dos braços e um pé despencavam pela beirada afora. Sentiu seus peitos emperdenidos. Tornou a deitar-se. Abraçou-o forte pelas costas e embriagou-se de sua própria liberdade.