terça-feira, 12 de abril de 2016

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Orvalho Sobre Flores de Pedra

Lisette Model On Fifth Avenue. New York City. 1940s

Andou pelas ruas do Centro como há muito não o fazia. O movimento rude de antigamente lhe fazia bem, cheiro de diesel, suor. Sons do trânsito e as cores dos velhos prédios que apenas intuía, pois, envolta em seu particular daltonismo.

Há tempos que nos levam para longe, para o lugar onde o esquecimento é máxima lembrança inscrita na pele, como no relance do sonho logo depois de acordar, a imagem da pracinha do bairro, nas horas mortas das tardes de domingo – nada menos distante, nada mais vazio.

O castigo da lembrança se esvaia pelo movimento, sabia disso. Por isso naquele dia desceu de seu prédio, abandonou seu carro, faltou o trabalho e andou até lhe doerem os pés. Não tinha porquês na caminhada, não havia nenhuma meta, e aquela avenida extensa lhe servia muito bem, a impressão que não haveria fim lhe era conveniente.

Encostou-se numa sombra de marquise, pediu um cigarro a um estranho. Riu de uma piada sem graça. Tragou lentamente, quase se esquecera porque parara de fumar, quase já não lembrava porque mudara tanto.

Definitivamente, algo lhe dizia para não seguir.

Não continuou.

No dia seguinte partiu para ser ela mesma. No final, as dores de amor se esvaem pelo caminho, pensou. 

Como orvalho sobre flores de pedra, em poemas dos outros.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Seu Pereira - Hino Contra o Golpe no Brasil



AFINAL, IMPEACHMENT É GOLPE? NARRAÇÃO: JUCA KFOURI



Juca Kfouri narra pra gente, quase desenhando, como nas condições atuais o Impeachment da presidenta Dilma não passa de mais um Golpe à Democracia brasileira.

Não esqueceremos o Golpe de 1964, jamais!

domingo, 20 de março de 2016

I, Monster - Daydream In Blue

Les Amoureux Aux Clair de Lune (1949) - Marc Chagall


segunda-feira, 14 de março de 2016

Alacran — Reflejo de Luna

DITADURA NUNCA MAIS! HORA DO POVO NA RUA.



 O QUE FAZER AGORA?



Reproduzido do Blog Tijolaço, por Fernando Brito. 
Fonte: Aqui



Uma das coisas boas em escrever um blog é que a gente sai do figurino frio do “jornalismo de jornal” onde, quase sempre que você encontrar uma matéria muito carregada de adjetivos, acredite, ela é contra você.

Então, sirvo-me desta licença para dizer que imagino que o leitor deste blog – salvo os trolls espíritos-de-porco que, como não têm ideias a defender, dedicam seu tempo a críticas as alheias – está, tal como eu, entre perplexo e angustiado com os acontecimentos de hoje.

Má hora para longos raciocínios, busca de erros, de razões profundas por termos chegado a este ponto: as ruas cheias por uma multidão que, de rica e remediada e branca que é, não tem nem mesmo os motivos da brutalidade e da deseducação formal para ser assim, odiosa e linchadora.

Hora, apenas, para um cair em si e ver o que devemos a este país, aos que ensaiaram sua modernização soberana, recusando a condição de colônia, aos que nos trouxeram de volta à democracia, às liberdades, ao direito de sermos o que somos e dizermos o que pensamos.

Tempo de medir, apenas, o que podem ser as ruas cheias do Brasil moreno, mestiço, sofrido, se ele perceber que pode voltar a confiar nos que, mal e mal, procuraram falar em seu nome e defender seus interesses.

Eu não vou às ruas defender o que o PT é ou o que foi, mas o que representou para o povo brasileiro, que seja mal e mal.

Porque é isso o que fica na História, como ficaram de Getúlio as conquistas sociais que são um nada, perto do ideal, mas são um infinito para os que eram escravos antes dele.

Vou defender um Lula e, até um PT -embora neste eu creia menos – que necessariamente serão mais incisivos, mais firmes, menos todos e concessivos do que foram.

Porque a fúria do conservadorismo que contra eles se voltou não pode ser pelos defeitos, porque defeitos – e muito mais graves-  vivemos por séculos e isso nunca foi motivo de uma campanha de extermínio como a que assistimos neste momento.

Não, nestes dias não vou procurar falar com quem ache o PT perfeito e a Lula um anjo.
Vou procurar falar com os que reclamam, recheiam-se de senões, falam de decepções e frustrações.

E perguntar-lhes: é por isso que você vai deixar haver um golpe, vai deixar que o país caia no fascismo, que nossas liberdades sejam aniquiladas e que o povo brasileiro seja despojado daquele pouco que, mal e mal, os governos petistas lhe proporcionaram?

Menos os homens fazem a história do que são feitos por ela.

A resposta à perplexidade só pode ser uma: decisão, na hora em que a liberdade e os direitos do povo brasileiro pedem por ela.

Não sei se Dilma o compreenderá. Sobre Lula, tenho boa dose de certeza.

E se de todos posso ter dúvidas, como você pode as ter, de nós mesmos não podemos tê-las, sem que isso represente uma deserção do que pensamos e sentimos.

É essa a pergunta que todos os dias farei e a resposta que a todos darei.

Não temos a máquina de manipulação da Justiça e da mídia, mas ainda temos a nós mesmos para falar, mostrar e ousar.

A direita encheu as ruas por conta de um longo processo de omissões daqueles que, agora, avança para destruir.

Se não quisermos fazer o mesmo, tudo o que não podemos fazer é cometer o mesmo erro da omissão.


domingo, 13 de março de 2016

segunda-feira, 7 de março de 2016

sexta-feira, 4 de março de 2016

Não Vai Ter Golpe!

Março de 2016 não será outro março de 1964.
Hora de lutar pela Democracia.

NÃO VAI TER GOLPE!





É HORA DE DEFENDER NAS RUAS NÃO LULA — MAS A DEMOCRACIA AMEAÇADA. 

POR PAULO NOGUEIRA (fonte: DCM)


Não é hora de atear fogo às vestes.

Os dados estão rolando. Não estamos vivendo um novo 31 de março de 1964.
Não ainda.

A Operação Aletheia – que deveria se chamar Operação Globo – não define nada. Seu mérito maior, se é possível usar essa expressão, é revelar as intenções da Lava Jato e Sergio Moro, sob  as bênçãos dos Marinhos e, por extensão, da plutocracia.

O objetivo jamais foi erradicar a corrupção, mas derrubar o governo e acabar com Lula. (No triunfo supremo do cinismo, Aletheia é uma palavra grega que significa busca da verdade.)
A sequência dos acontecimentos é clara quanto a isso: o vazamento pela PF da alegada delação de Delcídio, o Jornal Nacional de ontem com conteúdo assassino e, na manhã desta sexta, um enxame de policiais fortemente armados para capturar Lula.

Tudo isso às vésperas de uma manifestação pró-impeachment.

A grande questão, agora, é como os defensores da democracia – não estamos falando apenas de petistas – reagirão.

A verdade estará nas ruas.

Caso os antigolpistas reajam como vigor – atenção: não confundir com violência – o golpe será abortado. Caso corra sangue de brasileiros, o que seria uma tragédia, todos sabemos de quem é a culpa: dos mentores da ação desta manhã.

Não é hora de lamentar a apatia suicida com que o governo tratou a Lava Jato. Como o ministro da Justiça recém-saído pôde cruzar os braços diante das barbaridades cometidas por Moro e pela PF? Como, em nenhum momento, o PT expôs a face real da Lava Jato? Como os governos Lula e Dilma continuaram a dar verbas bilionárias de publicidade para uma empresa com um histórico notável de golpes contra governos populares?

Isso tudo, as bobagens cometidas no meio do caminho, deve ser analisado depois.


Agora é hora de defender nas ruas não Lula, não o PT, não Dilma – mas a democracia.

As Marcas Daquele Lugar (conto)

Richard Tuschman: Woman Reading 

Ela precisava alugar um lugar para aproveitar a breve licença que conseguira na Universidade para concluir seu artigo. Conseguira um apartamento mobiliado no estado vizinho. Não tão distante que não fosse possível voltar rápido de carro caso necessário, nem tão próximo que a colocasse ao alcance das inevitáveis interrupções, sobretudo, familiares. O tempo era curto. Tudo deveria ser intenso e rápido. O texto deveria sair dessa vez de qualquer jeito.

Poucas malas no carro, tomou a estrada muito cedo. Chegou quase pontualmente às dez horas, os poucos minutos de atraso se deveram a algumas voltas que teve dar a mais depois que perdera um acesso na entrada da cidade. Sempre acontecia, se perdia de uma forma ou de outra, odiava dirigir ali. Bairro de classe média alta, ruas limpas e bem pavimentadas, arborizado. Teria a paz que precisava para o trabalho.

A dona do apartamento a recebeu com euforia, achou ser um traço dela, um condicionamento pela frequência com a qual recebia inquilinos temporários. Talvez tivesse uns 65 anos, não mais do que isso. Apesar da voz acelerada, como quisesse sair dali o mais rápido, mostrou em detalhes o que era fundamental para a operacionalidade do lugar. Durante o briefing, pôde perceber pelos livros na estante do gabinete de trabalho que ela era de uma área de pesquisa pela qual também se interessara quando estava no doutorado um tempo atrás. Muito provavelmente, professora de alguma universidade. Tentou puxar conversa sobre isso, sugeriu conhece-la de algum lugar, pois parecia-lhe familiar, talvez até, que ela conhecesse seus orientadores de mestrado e doutorado. Em vão, o máximo que conseguiu foi assentimento da mesma sobre a coincidência de interesses, apesar das óbvias referências que o lugar sugeria.

Em torno de poucos minutos tudo estava concluído. Depois que se instalou começou a se dar conta que apartamento além de completamente mobiliado, ainda contava com toda decoração sobre as estantes, mesa de centro da sala, nos quartos, fotos dos filhos nos porta-retratos, jarros com plantas na varanda, roupa de cama, mesa e banho, apetrechos de cozinha. Tudo parecia lá como se os moradores estivesse todos no cômodo ao lado, ou, tivessem saído para visitar alguém e logo retornassem.

Ela não conseguiu não pensar como o tempo parecia ter parado ali, pensou isso com certa aflição, pois parecia-lhe estar em uma cápsula do tempo: o estilo construtivo e os materiais caros dos anos 80, os móveis projetados em cerejeira, piso de madeira corrida marrom, luminárias. Tudo parecia gasto, mas com discrição, o gasto pelo tempo, inevitável, ainda assim, com uma conservação admirável. O fato que lhe incomodava, apesar das evidências de presença, era um lugar vazio, quase um museu. Ninguém saiu apenas para que o imóvel fosse alugado. Todo lugar era organizado para preservar a memória dos anos, como se as pessoas das fotos nos porta-retratos continuassem a viver ali.

Com o silêncio do lugar e da vizinhança, em uma pausa para um café na primeira tarde passou em revista sobre os títulos nas estantes do escritório, material de trabalho em aula e de pesquisa, claro que ela era professora. A questão era, seria aposentada? A pergunta surgiu quando reparou nas caixas de arquivo que datavam de seis anos, com xerox de textos utilizados em algumas disciplinas. Todos os livros tinham edição desse último ano limite, bem como, as revistas científicas ou revistas periódicas jornalísticas sob a mesa de centro na sala. Algo acontecera que mudou tudo ali, não apenas, o fato de mudar-se para outro lugar e dispor deste para aluguel, mas o tempo havia sido deliberadamente aprisionado. Parecia que nada deveria sair dali, além do que, contra tudo que pudesse fazer a época, tivesse partido.

No dia seguinte, após o café da manhã percebeu mais evidências do grande ponto de mudança na vida dessa mulher. Além das fotos dos filhos, quando crianças e já adultos se graduando no ensino superior, e suas mesmo em viagem por lugares distantes, não havia, além de nenhuma referência ao presente destes, também, não havia sinal do pai e, ou, marido. Ele não estava em lugar nenhum. Nas paredes da sala e do corredor, haviam marcas que denunciavam a existência de quadros ou fotos naqueles lugares durante muito tempo e que foram retirados depois. Como cicatrizes do tempo, as paredes traziam esmaecidas, as marcas da pintura produzidas por anos em que foram cobertas pelos quadros que já não estavam mais lá.

Nos dias que se seguiram dedicou-se ao trabalho a que se propusera. Só encontrou novamente com a proprietária no final do período combinado para devolver-lhe as chaves. Novamente deu-se a conversa simpática com toques de euforia (quase) contida. Claro, não comentou nada com ela sobre suas questões e hipóteses sobre os sinais (evidências?) que o ambiente suscitava. Mais tarde já estrada, aliviada pela sensação de dever cumprido pela conclusão do trabalho, pensou que a mensagem contida no apartamento fosse ele mesmo, daquela forma, sem legendas, sem explicações. Fechado para qualquer tipo de arqueologia afetiva que resultasse em algum mínimo sucesso.

No final a verdade estava ali para ser compartilhada por pessoas como ela, estranhos, que sempre recusariam a perceber o óbvio, que o apartamento era o corpo do tempo marcado pelas partes que faltavam, um apelo para dividir o sentido do peso dos anos.


E de todas as coisas sobre as quais não vale mais a pena falar. Nem esquecer.

Ann Peebles - Trouble Heartaches & Sadness

Ann Peebles