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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Volta


Não dormira essa noite, caminhou desde a madrugada por muitas ruas. Depois de tanto sentou-se numa mesa de canto em um bar perto da estação central. Desses que tem um ar úmido, acre de tempo desperdiçado, azedo e sem razões. O lugar para tomar uma cerveja que ninguém espera estar gelada – e nunca está. A longa e estreita porta para rua, mal iluminava o salão. Nos fundos, ao lado do balcão, já na penumbra um corredor estreito seguia para os quartos que serviam de motel. Pensava em como matara suas crenças tempos atrás, todas, inclusive as de afeto. Não fora sempre assim, mas a juventude era uma lembrança bastante gasta, dessas que não valia a pena tentar remontar. Viu alguns casais que ora ou outra entravam e saiam. Estava velho para aventuras, a única coisa que dá alguma razão para vida. Entendia a todos que permaneciam vivos de fato. A cerveja quente naquele bar fedido confirmava que estava fora do jogo. Mais tarde voltaria para seu caminho. Definitivamente, havia sido uma péssima ideia ter voltado para vê-la.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Frito Sampler - Frank Black Meeting Calling Days (Aladins Bakunins, 2015)



Sem Respostas



1944, outono. Ela não tinha notícias de seu jovem marido há meses. Tempos de guerra, não havia respostas para as cartas, restavam as horas, a solidão, a esperança. Mas nenhuma notícia. Casaram-se pouco antes da convocação dele, cerimonia coletiva, terno e vestido emprestados. Lua de Mel no pequeno sótão, que por três dias chamaram de lar. Levava os dias da fábrica, operadora de torno. Tempo que se arrastava, pois envolto no vazio dessa distância. Escrevera mais uma vez para ele há pouco, contara que estava agora no sétimo mês de gravidez. Na cama, sob a pouca luz do quarto acariciava lentamente a barriga, via seus seios fartos e pensava na nova vida a caminho. Em breve não mais estaria só. Seriam dois sobreviventes, haveria muita coisa a fazer. Era preciso mais amor, apesar de tudo. Sentiu-se mais bonita e mais forte do que nunca. Disse tudo isso para ele na carta que acabara de selar. Sabia que as chances de respostas eram cada vez menores. Ou nenhuma.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Aniversário a Flor da Pele




Muito mais do que o normal, estava tomada em euforia. Sua pele estava sensível, havia um formigamento ao toque, sentia graça nas formas dos objetos, ao seguir curvas e linhas, sentir o quente e o frio, o áspero e o suave. Seus ouvidos conseguiam ouvir músicas que não conhecera antes, assim, pelos cantos casa. Havia um perfume novo em suas narinas, tão apaixonante que juraria ter cor. Seus olhos brilharam com a luz filtrada pela cortina, parecia mágica. Tudo era como sábado, tinha torpor e nenhum limite em querer, queria o que não sabia ainda querer. Queria a vida diferente e pronto, não precisava de nenhuma resposta. Apenas lhes serviam os sinais de encantamento que as belezas mais impossíveis lhe mostravam. Vestiu seu vestido de todas as cores, ainda que quase nada vestisse. Foi para rua abraçar o desconhecido, pois era dia de aniversário.