sexta-feira, 22 de maio de 2020

Antes que Venha Alguma Praga

Frans Zwartjes, Gelatine Zilverdruk, 1972 

Sentaram juntos no sofá. A TV ligada como mero cenário, ponto de fuga. As mãos mal se tocaram.

Era hora do silêncio final dizer mais do que qualquer das conversas que tiveram sobre o que não mais aguentavam carregar consigo. De Todas as vezes que as lágrimas foram embargadas, toda tristeza dissimulada para que a vida continuasse de algum modo.

Nessa noite as mãos se soltaram como se não tivessem nunca se encontrado. Como se a tristeza dominasse o mundo, o que também era verdade, e o amanhã, não mais viesse por causa de alguma praga que separaria para sempre as pessoas.

Coisas que acontecem no momento em que pessoas estão prestes a se perderem para sempre.

Cidade do México 
(seilámaisquediadequarentena)

sexta-feira, 27 de março de 2020

quinta-feira, 26 de março de 2020

O Sol Não Nasceria


Se reencontraram porque era impossível que não se vissem de novo, apesar das promessas de esquecimento e afastamento definitivo. Saíram pra dar uma volta de carro perto mar, pois ela dissera cedo que queria ver a Lua.

As mãos dele suavam ao volante, já não havia nada mais imperativo do que o silêncio enquanto trafegavam rumo à praia naquele domingo a noite.

Sentaram em um ponto afastado da areia, o mais afastado das pessoas, sob a luz lânguida de um poste de rua que mal os alcançava. O silêncio era quebrado apenas pelas ondas. O luar criava uma atmosfera fantasmagórica de medo da perda, arrependimento, dúvida. Enfim, apenas a mágoa emoldurava o quadro imponderável do fim.

Ela, sempre ela, enfim quebrou o silêncio. Falou da primeira vez que o viu, ao que ele emendou o mesmo sobre ela. Não que já não tivessem dito isso um para o outro várias vezes. Mas aquele era o ponto irretocável de suas vidas onde nenhum rancor jamais os alcançaria.

Enlaçaram as mãos. Se beijaram. Tiraram as roupas e se lançaram ao mar. Não precisava haver um amanhã. Poderiam viver na Lua como ela queria. O Sol não mais nasceria, porque nada mais importava.


25.03.20
Cidade do México
10º dia de quarentena

terça-feira, 24 de março de 2020

Quando o Mundo Acaba

Fonte: Violadreamlover


Meu Bem,

Quando nosso mundo começou a acabar, mal percebemos que tudo tinha mudado. Do nada tudo derrete, escorre, desaparece. As barreiras estão agora onde não percebíamos, na cama vazia, na solidão do café, TV ligada sem ninguém. Lugares vazios, não lugares que se desprendem do tempo, ignoram o espaço e se fincam em um lugar comum, onde tudo desaparece. Sem voz, sem lágrimas, sem conversa com amigo, o fim de todo o mundo é só isso, a imprecisão em explicar a crise, o ponto de não retorno, o colapso. No final as memórias são como um museu cada vez menos visitado. Na última ala está a foto de quando você me ignorou na rua. Na penúltima, a imagem de quando, em pleno desespero, arrancamos nossas roupas e fizemos sexo como se o mundo acabasse ali. Sim sabíamos, era a ultima vez. 

Cidade do México. 
9º dia de Quarentena.

segunda-feira, 2 de março de 2020

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Desencontros com Gosto de Café



De todos nossos desencontros o final foi o nosso maior momento. Ali flertando com o abismo, olhado fundo no olho vermelho do outro, de quem não fomos, e agora sabemos em meio à cólera, não seremos jamais.

Naquele dia entre entre a sala e a cozinha, nos fuzilamos com técnica e precisão usando tudo que nosso amor sabia ser o pior do outro. Como fomos longe o suficiente na embriaguês mórbida da destruição que o desgostar reserva pra dor. Fomos perfeitos ali. O nosso mundo podia acabar enfim.

Amore, de tudo que não passa, seus atropelos, meu destempero, seus vazios que escaparam do divã do seu analista, minha insegurança em insistir, sua beleza, seus cabelos sobre meu rosto, seu cheiro agudo de tristeza me levam sempre ao mesmo lugar, aquele longe, onde bebíamos café no fim de tarde, amargo, como aprendi com você.


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

terça-feira, 23 de abril de 2019

Infinito de Cacos de Futuro


mr-feelgood-stuff:
“ Mr-Feelgood-Stuff – “Take Your Pleasure Seriously” ”
FONTE: Viola Dream Lover

Você estava certa, você sempre esteve. Por isso não estamos mais juntos, não havia como errar mais do que continuarmos, até nisso você acertou. Você foi o vaticínio, a profecia que dizia que o sonho não só morreria, mas o faria até o infinito, enquanto eu acreditasse.

Vivo chafurdando nesses cacos que formam esse caleidoscópio de giletes, que abrem os vasos dos meus olhos até sangrar as órbitas como poços de petróleo, até a perda do juízo, final. Você me corta e expõe as vísceras do meu desejo, sabe que eu nunca deixaria de querer, sabia, sempre soube. 

Quando me abriu as pernas pela última vez, seu corpo não mentia, dizia o que eu queria acreditar, como nunca, mas nada mais importava, até mesmo de que você não estava mais ali de fato. Você estava apenas se despedindo, preparando naquele mesmo momento seu primeiro e último postal, o mesmo que enviaria de longe pra dizer que me esquecera.  

Lembro das coisas sujas que dissemos. Os gritos, os gemidos e a agonia vã de querermos ser ouvidos pelo destino, de que o futuro pudesse parar pra sempre enquanto você segurava forte minha cabeça entre suas pernas.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Air- Casanova 70


Sugestão para um começo de noite de sexta-feira.