segunda-feira, 23 de março de 2015

Um Tipo de Adeus (conto)

Atribuído a Thomas Eakins (fonte: Les Yeux Clos)
No dia em que ela se despediu o fez como quem não quisesse ir. Na verdade não sabia que aquele sorriso que ensaiou para ele, beirando o mais natural que podia, seria sua última imagem. No fundo sabia sobre o que tudo significava. O fim é irreversível, seus gatos sentiam, o mundo agora ganhava outra forma, fluida, numa arquitetura sem ponto de fuga. E sua casa já não era um porto seguro. Aquele era seu momento definitivo, a partir do qual tudo mais seriam lembranças, e os sonhos, presságios apenas da manhã na qual não estaria. Sorriu no vídeo que deixou para ele antes de partir. Aquele sorriso dela seria para ele sua forma de dizer eternidade.

Em memória de minha mãe.

domingo, 22 de março de 2015

terça-feira, 17 de março de 2015

Entre os Dedos II (conto)

Edward Hopper - Room in New York (1932)

Os últimos dias foram os mais difíceis para eles até ali. Os silêncios e as tentativas de gestos de boa vontade se esvaziavam no ar. Se ainda havia amor entre eles, já não parecia estar em nenhum lugar daquela sala de estar, nem nas plantas, nem nas fotografias sobre a prateleira, nem além da janela. O desespero de verem-se sem opções, tempo ou paciência tornou-se lágrimas que vinham em qualquer lugar. No colo dele, ela ainda tentou retrucar o imponderável, quis dizer “mas eu te amo”. Não teve forças. Nunca disse. Nunca dirá. 

domingo, 15 de março de 2015

Entre os Dedos (conto)


Na noite anterior nenhum dos dois dormira em casa. Se viram apenas pela manhã, dia alto, enquanto tomavam um café na cozinha. A maquiagem pesada dela ainda marcava os olhos, as olheiras dele denunciavam a bebedeira que ainda não passara. Havia um silêncio pesado entre eles, nos últimos dias chegaram ao ponto mais profundo que podiam ao tentar atingir um ao outro. Não conseguiam mais entender como chegaram até ali, como os verdes anos de paixão, que pareciam tão próximos, caíram tão rápido no esquecimento. Ela sussurrou: “o que nós fizemos com a gente?”. Seguiu-se uma longa respiração. Pausa. Se abraçaram de uma forma que não se deixassem mais ir. Não bastou. Escaparam-se entre os próprios dedos, como o tempo que não conseguiram ver passando. Ao final do mês colocaram o apartamento à venda.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Se Vestiu de Sábado (conto)

Fonte: Zabava

No dia que finalmente o esqueceu não se deu conta disso. Foi à rua de vestido floral, pernas ao vento. Nesse dia também não usava sutiã, também esquecera que um dia quisera muito por silicone nos seios, “não muito, mas pelo menos um pouco para não precisar usar sutiã com enchimento”, pensava. No dia que o esqueceu também não precisou mais lembrar, seja por nostalgia, desejo ou raiva de nenhum dos belos rapazes com quem deitou-se nos últimos tempos. Todas as promessas de amor instantâneas. Todas as farras e ressacas que a traziam para a mesma terra de ninguém da lembrança. No dia em que tudo isso acabou ela andava pela rua com o sorriso mais lindo e magnético que nenhuma mulher jamais teve. Seus cabelos refletiam o sol em uma cor nunca vista. Os meninos pararam o jogo de bola para ver suas costas nuas. Os homens deixaram o bar e se perderam no movimento de sua bunda rua  abaixo. No dia que ela o esqueceu lembrou-se como era se vestir de sábado.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Morre Leonard Nimoy - Homenagem do Blog

Leonard Nimoy: 1931 - 2015.

Vida longa e próspera, Spock.

Obrigado.





Uma Forma de Partida

René Groebli (via: Violadreamlover)

Daquela vez não pensou. Seu cansaço era a medida de sua impaciência. E de seu desejo. Cansara de se interrogar porque explicava tanto sobre ele. Cansou de ouvir de si mesma por que precisava de tantas palavras. Essa noite ele não estava. Ela também não, não mais. Se sentiu mais bonita do que nunca ao toque daquele recém chegado. Apenas as roupas dela pelo chão lembrariam em algum momento quem fora. Talvez ela retorne ao que era pela manhã. Talvez não.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Galus - Futura

Brassaï- La plage d’ Antibes,France,1934.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Ela Queria Mais

Morning Sun (Edward Hopper, 1952)
Sua mudança estava completa, uma nova cidade, uma nova vida. Neste novo lugar nem mesmo ela se reconhecia. Ou talvez agora se conhecesse mais do que nunca. Sentia sua pele acesa, vibrante como todo o resto do seu corpo. Ao passar as mãos sobre as pernas, nuca, seios sentia-os ardentes, como espetados por milhares de minúsculos alfinetes que lhe lembravam a cada segundo que tinha pressa, um desejo furioso, uma fome de algo que estava lhe retesando os músculos, criando um permanente sorriso nervoso, incontrolável. Havia voltado pra casa há pouco, do cara que conheceu ontem trazia o pescoço marcado pelo arranhar da barba malfeita e um cheiro de perfume masculino barato. Na beirada de sua cama via as primeiras luzes do Sol. Toca-se excitando-se se como a vida dependesse da continuidade eterna desse entorpecimento. Ela podia tudo. Rufaram os tambores de guerra. Ela queria mais.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

sábado, 31 de janeiro de 2015

E Se Devoraram

Arthur Leipzig - Subway Lovers (New York, 1949)

Naquela noite dançaram livres como da primeira vez que pensaram na possibilidade de ter um ao outro. A cada volta, seus rodopios os levavam além do limite já quase nulo que havia entre eles. Em meio ao tempo acelerado pela tequila chegaram ao ponto onde sabiam, teriam suas vidas postas ao avesso por eles mesmos. O cheiro do suor dela, a nota amadeirada do perfume dele. Em uma frase perdida, sussurrada, ela tentou articular um sentido qualquer pra tudo que sentia. Queria um atalho, um precipício, uma justificativa para lançar-se para dentro dele, para mais profundo naquilo que a queimava por dentro, que a fazia querer suas entranhas. Uma mordiscada de leve na ponta da orelha dela. Não precisavam dizer nada. Quase em silêncio se devoraram.