quarta-feira, 4 de julho de 2012

Poemas e Cartas a um Jovem Poeta - Primeira Carta (Rainer Maria Rilke)


Rainer Maria Rilke

O livro se foi, talvez pra sempre, não vale a pena conjecturar se as coisas podem voltar de alguma forma. Ficou a lição de Rilke, lembrei a pouco (em especial para quem ama cartas): 
"O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: 'Sou mesmo forçado a escrever?'"


Paris, 17 de fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

terça-feira, 3 de julho de 2012

Com Carinho


Por esses dias tão absurdos, só a ternura pode reabilitar a humanidade ao tornar-se esperança.
De alguém muito querido:

"...Estava cansado de fugir, esconder-se era um golpe habitual, fatigava muito, hoje doía demais.
Os shows, as viagens, as praias, essas eram lindas, vinha-lhe um sorriso no rosto ao lembrar. Estavam apenas ofuscadas pelo momento..." 

Navidad



Dentro de algum sonho esquecido em um apartamento ao qual nunca mais voltaria, no fundo de uma grande gaveta na sala, havia uma caixa de pequenas e intricadas coisas de fazer rir. Um trancelim de barbantes de graça, uma caixa diáfana de cócegas fáceis, um silêncio antes da risada e uma infinidade de pequeninos versos por serem escritos. Como o vento, essas coisas se foram para se tornarem outras, e juntarem-se a sabores, fotos e lugares imprevistos, visitados com delicadeza em dias de sol, sem que ninguém soubesse. Praias desertas, outros sorrisos, colo e carinhos. 
Ao Sol, a vida pode voltar a correr como a areia daquela praia secreta. Uma forma de espera, um aconchego, pra poder contar uma nova grande novidade. 
O tempo nunca está a favor.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Parada Súbita

Parou de súbito. Quando seu tempo passou não teve a chance de olhar dentro do espelho o que tinha vivido. O espelho havia sido quebrado, as fotos rasgadas e em breve estariam esquecidas. Findo o tempo, não sentiu mais cansaço, não havia mais nervo que respondesse à expectativa do ato. Na última esquina, da última rua, não havia nada. Sob a luz tremeluzente do poste ainda conseguiu acender um cigarro. Sua companheira se fora. “Péssimo isso tudo”, pensou. História que se repete, níveis de drama que se sobrepõem, virou tragédia, e da tragédia, o absurdo. Uma sequência havia sido quebrada ao confirmar que nada dura, a ordem do mundo beirava o caos das cólicas que assolavam seu estomago. Tragou aquele cigarro com a fúria de quem sabe viver seus últimos minutos. Há muito sabia que não viveria o bastante para ser grande coisa, mas tratou o saber como coisa de poeta e esforçou-se nas artes de viver com empenho, mas sem convicção - seu teatro divertia a muitos e o convencia que amanhã as coisas seriam melhores. Bobagem! Não foram, era sua vez. As dores que lhe corroíam as entranhas o derrubaram pela última vez. Ficara parado para sempre fitando o chão, como aquela imagem da moça bonita na página policial, congelado, como que ambalado num fino vestido azul de chuva.

sábado, 23 de junho de 2012

"Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga"...

"Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem"


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Conversava através de músicas



Ela conversava através de músicas. 
Disse-me meio tímida certa vez, assim, como se contasse um segredo. Seu dia, em cada momento, era pontuado por uma melodia cantarolada baixinho, pra dentro. Esteve apaixonada um tempo atrás, mas só percebeu isso bem depois, nesse momento era final de verão e as últimas chuvas de março a acompanhavam enquanto achava um saco chegar molhada aos cantos e não poder ir à praia. Esteve apaixonada um tempo atrás, fora tão rápido, como outra música que conta estórias breves de pessoas que se perderam de si mesmas, e se acharam em finais sem finais. A música que cantarolava era mais ou menos assim, reticente, apesar da enorme vontade de viver; relutante, ainda que uma devoradora voraz das horas. Sua música combinava com estrada, fúria e tempestade – disso não esquecerei, seu jeito de cantá-la sempre era meigo. A melodia brilhava em seus olhos enquanto sua cabeça pousava sobre meu colo.
Perguntou: e o meu beijo?...
Pegou a estrada em seguida, a vida ao longe a chamou, nada podia detê-la. Sua paixão a aguardava além. 
Cantou isso bem alto!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Morreu sozinha a mesa de um restaurante chique



Ninguém soube que andava sozinha por tanto tempo. Que trabalhava tanto, que de tanto não parar sua vida provavelmente não perceberia, que nesse dia, morreria sozinha em um restaurante chique da zona Sul. Em uma mesa discreta ao fundo do salão, cumpria seu ritual de todos os dias, pausa para o almoço, um café, um cigarro e o retorno ao trabalho pelo qual seu nome servia de referência para meio mundo de gente que não a conhecia. Nesse dia em especial acordara pensando em quanto tempo ainda trabalharia, para recuar, súbito, ao pensar o que faria quando sem nada pra fazer. Sua vida fora moldada a ferro pelos prazos e cobranças, era alguém rigidamente cumpridora de agendas. Sentiu-se demasiado cansada ao sair para a universidade, se sentiu velha ao espelho, não se reconhecera, sua imagem fugira de si, e ela definitivamente, não se via no reflexo. O cabelo permanecia impecavelmente acaju como há muitos anos, as primeiras rugas se somaram a umas tantas outras e estava nitidamente acima do peso. Não, nessa manhã não fazia ideia quem seria aquela impostora. No almoço,  como sempre, não tinha fome (como também a muito, já não tinha sono), revirava a comida lentamente com o garfo como quem se lembrava de algo inalcançável, talvez, naquele dia, tentando lembrar como seria sorrir, dividir uma alegria, ter algum afeto, menos que formalidades.Teve um ataque fulminante. E ninguém por perto, os filhos que não tivera, nenhum dos amores perdidos, nenhum parente pra lembrar, nem lá, nem em lugar nenhum. Ela trabalhava demais, era reconhecida demais e ninguém por perto nesse dia que seu coração também se foi, e já não cabia mais nenhuma metáfora em sua história.
No dia seguinte, alguém publicou uma nota sobre sua morte em um grande jornal da cidade, sua última referência.

Ninguém soube que escrevia um livro de memórias.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Um Gole de Café



Naquela manhã fria acordara estranhamente feliz, sua completa ignorância sobre esse estado, só rivalizava agora com todas as formas de amor que achava ser capaz de sentir. As paredes não seguravam a ânsia de alguma coisa nova que se desenhava a sua revelia em passado-futuro de uma distância difusa, mas próximo ainda, talvez. As mortes, assassinatos e suicídios em massa perpetrados covardemente pelo seu coração silenciavam agora num único gole de café. Hesitara em colocar o pé na rua, chovia. Já fora apaixonado por chuvas, frio e melancolia. Hoje desconfiava mais da chuva: pessoas deixam de se ver e o cheiro do mar ficava mais longe, aprendera isso recentemente, sob a chuva. Resolveu escrever sobre outras coisas e ansiou grafitar desconexas palavras de amor em um quarto estranho, recém pintado, que nunca conheceria. Nessa inusitada sessão de mudez e fuga interior pensou por alguns segundos em qual música ela estaria ouvindo no momento que o seu celular tocasse. Saiu e foi olhar a chuva nos olhos. Não se tem notícia dele ter voltado. Nem que tenha feito a tal ligação.

31/05/12

terça-feira, 22 de maio de 2012

De Salas e Varandas Vazias: um registro



Depois que suas últimas caixas foram levadas para o carro de mudanças ele ficou um tempo parado à porta da saída, sozinho, observando a agora vazia sala de estar do seu antigo apartamento. Durante aqueles últimos anos vira sua vida sendo inscrita ali. E quase sem nenhum esforço, podia reviver cada primeira cena, como também cada última. 
Além da sala, sua visão percorria a varanda, a cozinha, o quarto. O silêncio e o vazio de agora não eram compatíveis com os sorrisos, amores, alegrias, esperanças, dores, tristezas, chegadas e partidas que se desdobraram entre aquelas paredes. 
Na varanda já não havia mais a redinha, da qual obervara as estrelas tantas vezes, em noites tais que o som do mar parecia reverberar dentro de casa. 
Na cozinha nenhum cheiro de um prato especial feito para cada ocasião única, sempre como ritual, no qual o sabor demarcaria as expectativas de prazer do que viria. 
O quarto já não trazia o estimulante frescor da aventura, do gozo, da descoberta e do sonho (mesmo os breves, os vãos e os desfeitos). O vazio e o silêncio de agora não faziam justiça a tudo que acontecera ali, a tudo que se perderá inexoravelmente frente ao futuro. 
Fechou a porta. Já no hall, resignado, parou por alguns segundos e pensou o quão impossível seria dividir tudo que pensara naquele breve momento. Quis ligar para alguém, mas seria inútil. Pensou em escrever algo, apenas para desistir imediatamente. Quis chorar e se sentiu incapaz. Fez a única coisa que podia frente a tudo aquilo, seguiu e tomou o elevador para a portaria. 
Aquele lugar já não mais lhe pertencia. 


21.05.12

terça-feira, 15 de maio de 2012

Lucas Santtana - Para Onde Irá Essa Noite?



Clipe novo de Lucas Santtana para a música "Para Onde Irá Essa Noite?", do álbum "O Deus Que Devasta Mas Também Cura" (2012). 
Outro grande acerto do diretor Emílio Domingos, o mesmo que assinou o clipe de "Cira, Regina e Nana" (veja aqui).
Arriscaria uma continuidade entre as duas estórias e das duas pegadas. Recortes breves da vida de qualquer um, de um momento desses que a maior delicadeza tem o peso de um planeta. 
Grande registro, sensível por demais.
Curtam! 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Entre as Ondas do Mar


Então ela desceu as pedras em direção à praia. Disse apenas que era hora, que voltaria naquele momento para seu mundo. Mais abaixo, as ondas quebravam e desenhavam inefáveis cortinas de fim de tarde no caminho que o olhar dela perseguia. O destino estava traçado, desde sempre, tudo aquilo estava pra acontecer, daquele único jeito. Trazia seu vestido de prata de finas contas transparentes, translucido, deixava antever seu corpo, pernas, peitos, ancas. Ultima visão que viraria memória pra sempre naquela urgente despedida de tão poucas linhas. Havia um mar infinito lá embaixo. Nesse fim de tarde o canto de Iemanjá se fazia ouvir límpido ao longe, as danças as quais não tive tempo de desfrutar ficarão para um dia de festa no futuro. A moça cruzou as pedras da barra e sumiu devagar em meio as ondas. Estava em casa.

sábado, 5 de maio de 2012

Micro Conto Lunar


 - Quero morar na luaaaaa! Disse a moça para ele (assim mesmo, com muito "a"s) e com um sorriso de orelha a orelha.
 - Pois venha! Respondeu a ela. 
Quando ele emendou
- Já estou aqui.
Dela nunca mais se soube. 
Um astrônomo sustenta, que pelo telescópio potente de Monte Palomar, viu alguém sentado em uma rocha na superfície cinza brilhante da última Lua cheia.
Ninguém deu crédito a ele. Teria sido São Jorge a ser avistado? Seria o rapaz? 
Onde estaria a moça?...
Hoje tem super Lua no céu. Todos olharão pra lá e poderão tirar suas próprias conclusões.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Longe do Mar

Perto do mar - Vancarder
Desde a última vez que a encontrara não podia deixar de pensar em suas ultimas palavras. Duas ou três coisas falavam de quatro ou mais vidas possíveis, um caleidoscópio onde ele se encontrava girando, colorido, como por efeito de sua presença. Totalmente imerso em sua presença. Depois de sua ida, aquelas coisas tomaram de assalto sua poesia, sua vida. Nessa ausência, sua imaginação se impregnou de sua cor, de seu cheiro, da forma que seu corpo desenhava recostado ao dele. Não sabia para onde ela ia, não quis perguntar, a mágica continuaria enquanto houvesse mistério e um motivo para um grande sorriso quando voltasse. Enquanto ele mesmo estivesse perdido. Depois que ela se foi, se deu conta, que quando estava feliz, sentia mais forte um cheiro de mar, quando por alguns instantes, se via na areia da praia, solto de tudo, preso a ela pela linha do horizonte...

terça-feira, 1 de maio de 2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Vodka



Não ouvira seu adeus na despedida. A partida fora em silêncio numa madrugada em que a rua dormia um sonho que não era seu. Ao amanhecer uma escova de dente sobraria para sempre sobre a pia. Um vidro de perfume nunca mais seria aberto e um bom dia não seria mais ouvido. Não haveria recado nenhum, nem de batom, nem bilhete, nada fora do lugar, nada faltando, além daquele cheiro, daquele jeito. Mas sobrando, aquela falta, aquele espaço interminável do apartamento que se fazia ao mar, que morria na praia. Primeiro sol, primeiro dia, um café e um motivo pra escrever. Espalhar tinta pelo papel como quem canta um blues engolindo as letras, engasgando com sons que não podem mais serem ditos. Se esforçando a cada passo, pra chegar ao dia que tudo seja apenas saudade e, mais além, esquecimento e a vida pra levar. Feliz? Apagara essa noite da memória com uma boa garrafa de vodka. Estava tudo bem.