terça-feira, 24 de julho de 2012

Imprecisões afetivas

Na Estrada (Walter Salles)


Meu último poema de amor não deveria ser escrito assim, quando seu olhar já não era uma interrogação, e o meu peito, velho lugar de divagações imprecisas sobre o quase nada das sobras de cartilhas, estivesse vago de saber se existia. Só poderia dizer-lhe de disposições vãs sobre músicas que nunca escreveria por não saber fazer música. Diria também do sobre o que você espera e como devolver-lhe o caos à vida, de desmontar o relógio com ferramentas delicadas feitas a quatro(centas) mãos. Diria pra dentro e com toda força, da coisa imprecisa que antes de fazer-se sentir já buscava a sua outra numa parte remota de um  planeta morto. Meu último poema de amor seria um texto, que se escrito, faria os amantes desistirem de viver, ao mesmo tempo em que te convenceria que valia a pena parar tudo e querer o lado impossível, no qual suas loucuras fossem a cama onde, entorpecida de álcool e restos de velhos amores que nunca te deixaram, sua paixão só seria surpreendida pela velocidade a qual todo fim parece trazer consigo.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Poesia 34 - Eu Não Estarei


 "I get by with a little help from my friends" (Foto: Juliana Seravalli)

Na minha cabeça
Meu bem
Não há como estar
Não há mais o que lembrar
De você

E nessa confusão de tristeza
E distância
Só quero dizer
Que ainda gosto de você

Minha garota
Vou lhe ligar
Sinto, mas disso não vou lembrar
Porque hoje
A cana pegou

Mas, se me ouvir
Saiba que quando acordar
Se quiser voltar
Baby,
Eu não estarei

sábado, 21 de julho de 2012

"E não viveram felizes para sempre"

conto, Czarnecki, de, fadas, morbido, Thomas, tragedia
© Thomas Czarnecki, "Cinderella - Too fast".


Fonte: Obvious: um olhar mais demorado

Artigo interessante assinado por Branca Dias no blog "Obvious: um olhar mais demorado" sobre as fotos de Thomas Czarnecki e sua visão do final trágico dos contos de fadas...
Um trecho:
Conto. Não conto. Conto? Este conto não tem um final feliz. O seu fim é trágico, o ambiente é decadente, obscuro e mórbido. As personagens são figuras femininas da Disney que o leitor talvez reconheça como princesas. O tempo, esse, se mantém: "era uma vez..." E o fim? Como seria de esperar, é “Não viveram felizes para sempre”.

Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2012/06/e_nao_viveram_felizes_para_sempre.html#ixzz21Hr4lbho

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Você está ai?


Marc Chagall

Sua pergunta chegou depois  que ele tomou o último gole daquela vodka da noite anterior,  
- Você está aí? 
Simplesmente não respondeu. Sem querer  recorrer a nenhuma filosofia, não respondeu porque pensou seriamente se estaria. Mas já pensava então, e não respondeu por impulso, hábito, ansiedade ou mania. Não respondeu. Tamanho o silêncio, ouvia o gole do líquido rasgar sua garganta, quase um engasgo. Mas ele não estava lá. Não naquele momento, não saberia quando estaria novamente. Como pensava, preferia não tentar antecipar nada, como também não apelar para nenhuma filosofia, não inventar nenhum sentido. Só não queria mais estar, e assim não respondeu. Desapareceu aos poucos em si mesmo, ouvindo blues e latidos de feras que devoram a alma das horas desperdiçadas com o que não se pode mais.
Hoje foi o dia que ele não resolveu nada. 
Não escreveu um poema. 
Hoje não estaria em lugar nenhum.
E não conseguiu ficar feliz quando seu telefone finalmente tocou.


A sorte faz o ar rarefeito, por onde flutuam os amantes sobre uma cidade sem graça em sua mania de ser sempre a mesma.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Quando Ela Partiu



Aquela manhã parecia estranha por tudo, a noite tão pouco o fora menos. Além da chuva infernal, daquelas que marcariam os editoriais de todos os jornais, seu telefone não tocara. Passara a noite só. Pensava: “seria necessário, qual o sentido disso?” Mas ele não viera. Pela manhã o café, solitário. Uma mensagem de bom dia, um comentário sobre a chuva (o último). Uma vontade infinita de estar junto, dessas de quem pressente o fim, sente o resto da eternidade esvaindo-se nos próximos minutos, enquanto o café esfriava na xícara. Mas ele não veio. O dia veio como o último, nos próximos minutos, a própria vida iria assim mudar de lugar, sem avisar, a ninguém. Pra onde o som da sua voz não estaria mais em lugar nenhum. E o desespero não mais a atingiria.
E ela partiu em seu vestido azul. Faz um mês amanhã. 
Aquela chuva continuou pra sempre, como testemunha de um dia que a graça precisou ser reinventada no mundo.

"Pode ser a eternidade má
Eu ando em frente pra sentir saudade" (Marcelo Camelo)

Lucas Santtana - O deus que devasta mas também cura

"Ó Sol! Proteja o menino..."

 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Na Estrada

Paris, Texas  (Win Wenders)
Estava longe. Aquela estrada que tomara não o conduzirá a lugar nenhum que não ao ponto onde suas escolhas apontavam para a realidade na qual não escolhera nada, a vida o fizera. 
Dizia para si mesmo um tempo atrás enquanto tomava um café: 
- O futuro só pode ser o passado com toques de surpresa, não há outra matéria no mundo capaz de gerar nada. 

Seu vaticino, por demais pretensioso, não alterou em nada a ordem de vai-e-vem lento naquele Café barato do Centro daquela cidade pequena. Estava há tempos na estrada, suas desilusões se juntaram a um ponto no qual sua mente, como sua pele clara, estavam curtidas, sem elasticidade, quebradiças, se soltando ao vento.

Não acreditava muito no que dizia, enfim. Nem isso. Sobrava pouco depois de tanto tempo. Sua memória era falha demais, descobrira um tempo atrás. Os lapsos como grandes crateras, lhe causavam um assombro terrível pelo medo de perder ainda mais enquanto avançava. 

A estrada permitia o luxo de pensar bastante, o amor, a perda, a sorte, o destino, a loucura, o vazio. Muitos passarão a vida sem experimentar quase nada de todas essas situações e as sensações que lhes correspondem. Por azar, pensou, experimentara todas. Alquebrou-se na tragédia, desistiu-se no vazio. 

Passou então a andar pelo mundo, um perdido entre estradas de terra e cidades quase que esquecidas. 

Seu último poema de amor seria escrito de barro e milhas percorridas em noites de luar. 
Em seu último suspiro provavelmente, ele lembrou, e chamou sozinho pelo nome dela.


ps: não sabia fazer poemas, escrevia apenas...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Assíncrono


Hoje é dia de festa, comemoração, rock, aniversário. Ou seria. Dia no qual sentir-se só é apenas mais um detalhe diante de maquinismos tão ruidosos da vida. Parte de um caminho onde o medo passa a existir, onde coragem se mede por pequenos gestos ao levantar, antes de escovar os dentes e dizer-se com toda convicção de quem mente: que é preciso acreditar em algo. Hoje me perguntaram se estou bem, não estou, gostaria, por todos que me querem bem, pra sentir o que devo sentir, para amar quem devo amar. Quero calor, abraço, riso, mar. Tenho medo de lembrar, mais ainda de esquecer. Medo de perder ainda mais. Quero cantar aquela música da nossa conversa, sorrir, receber afagos e não sair mais. Medo que seja tarde. O tempo é assíncrono e pode ser muito perverso. Há coisas que simplesmente não voltam. Mas vida pode ser verde de esperança.

baixinho ela lhe disse: tudo vai ficar bem, meu bem... E levou pra ela todas as dores que um coração poderia carregar.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Micro Conto: O Dito e o Não Dito


Cartier Bresson
O Dito e o Não Dito

Coisas não ditas que esperei ardorosamente não ouvir. Meias palavras em silêncio de uma conversa a um. Discursos subliminares proferidos pra dentro.
Saliva seca na garganta, havia muito ainda a ser dito, nos dois segundos seguintes.
Em que você não estava mais lá...

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Mas ele não a ouvia


Ela começou a noite sorridente, como sempre, mesmo com a vida em descompasso com tudo que deveria ser o certo. Era seu jeito de lidar com as coisas que não podiam seguir à sua vontade, sorria. Situações, tempos, idas e vinda de uma ciranda improvável, gestos não calculados de uma vontade que não podia ser expressa. Não agora, não ali, talvez, não com ele. Mas ela não sabia. Não sabia de cada coisa que podia advir de uma ou outra palavra solta, de um ou outro sonho que teve sem contar a ele, nem a ninguém. Ela não sabia de seus sentimentos, ou sabia demais, para não querer ouvi-los agora. Nem mesmo expressá-los. Tudo que queria era que ele a ouvisse, mas ele não a ouvia. Não dessa vez, pois estava surdo de seus olhos castanhos, de sua pele morena, e de uma promessa esquecida um tempo atrás. Sumir naquele momento seria o certo a ser feito, ir para algum lugar remoto onde a espera fosse companhada de calma, onde pudesse haver um merecido momento para os dois ao final. No qual deitar sua cabeça em seu colo e sentir as mãos dele passearem languidamente por seu cabelos fosse a única verdade a ser escrita na próximas linhas de um novo texto, ansioso para ser lido.


Ela ouviria cada linha com olhos fechados...

domingo, 8 de julho de 2012

Poesia 33 - Perto Demais


Estavas ali tão perto
De mim quase só um palmo
Só uma nuvem havia que nos desencontrasse
Só a sua boca havia
Para que não me houvesse a paz
E era assim que nada fazias
Só assim de meu nada mais havia
E do que me davas só no estar
Vinha com um frio arrepiador da tez
Do alto da montanha onde vives
Onde o muito frio gera neve
Vira de branco suas costas
Onde nada toca além do vento
Onde só seus movimentos
Pretendiam rivalizar com o voo
Brevidade eterna daquele momento
A desfazer o pouco que pretendia guardar de mim

sábado, 7 de julho de 2012

L. Wells - Franz Ferdinand

Fechando essa noite de sábado...


"If you have some sort of secret
If you need someone to tell
You can tell me because my memory always fails
I will forget and your secret will remain
Yes, the secret, your secret will remain"


Poesia 32 - Amores em Sal


Saudade - Almeida Júnior
Amores vertidos em sal,
Olho,
Mas todas as ruas estão vazias.
O olhar persegue fantasmas
E abandona as imagens das ruas.
Os prédios vazios têm janelas sem histórias,
Onde olhos claros sem alma
Derramam lágrimas sem verdades,
E sem mentiras de um outro tempo. 
Anjos do passado querem roubar as lágrimas do mundo,
Todas elas.
Querem também a retina,
E o cristalino olhar vazio.
Tornarem-se donos do futuro,
Enxugar as faces,
Não mais permitir os amores
Virarem sal.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

No Último Momento: um beijo



Noite. Sob o vento frio daquela praia, nenhuma distância havia entre os dois que confirmasse o que ela dizia sobre as tempestades de "e se" que inundaram a cidade a apenas poucas horas atrás. Das idas e vindas suaves, embora inquietas, de seu corpo enquanto tentava preencher a iminência do silêncio, no momento decisivo, restava o que resta quando o silêncio se faz por imposição de tudo que precisa acontecer: um beijo. Beijo dele, o beijo dela, o texto que deviam um ao outro, escrito de fugas, dúvidas, desejo, encontros e desencontros. Nenhum plano, nenhuma promessa, apenas o tempo parado enquanto perdiam o folego, a voz e as horas se viam derretidas em líquidos toques, suaves de uma ou outra coisa que recuperavam de tanto tempo distantes. Na profundidade dos seus olhos, aquela frase guardada para a ocasião, se perdeu. Era ela, nada mais, nem que fosse o último beijo, nem que fosse o fim do mundo, que explodia em fogos, gosto de mar e açaí. Conseguiram enganar o tempo que sempre jogou contra? Não sabiam, ninguém nunca sabe. Ficou um gosto bom, "que nunca acaba", por alguns instantes eram o que queriam, o depois não importava. Em silêncio seguiram, seus segredos encheriam ainda muitas linhas de um roteiro nos quais se achavam cada vez mais, a medida que pareciam sempre se perder.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Novidades, cansei.



Enfim, ando cansado de novidades. Das minhas, da vida, do mundo. Não ver a Lua pode ajudar, não há lembranças, não há o "e se?"... Ando cansado de despedidas, cansei de colecioná-las, as mudas, as diretas, as ternas, as que não houveram. Cansei de fazer diferença em algo ou para alguém, cansei de pensar se faço.  Farto de entrar pra história de algum modo. Hora de fazer o que sempre faço nessas horas, pegar a estrada. De ja vù! Por que os finais de semestre são sempre assim? Vou em busca de uma casa que sei não estar mais lá. Mas vou, na volta, tudo pode estar diferente. 
Meu jeito de viajar no tempo, onde nem sei se estarei lá.
Amo o amarelo.



O Lobisomem (Décio Pignatari)


"O amor é para mim um Iroquês
De cor amarela e feroz catadura
Que vem sempre a galope, montado
Numa égua chamada Tristeza.
Ai, Tristeza tem cascos de ferro
E as esporas de estranho metal
Cor de vinho, de sangue, e de morte,
Um metal parecido com ciúme..."