quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Algo Mais Sobre Perder-se (conto)


Noite, pouca luz pelo quarto. Quase irreal tê-la ali em suas mãos: todos os cheiros, curvas e pelos. E mais aquele jeito de dizer o nome dele em sussurro, que ela recentemente inventara.
O corpo dela em suas mãos, naquele instante inesperado, parecia trazer algo de religioso, de mágico pelo proibido. O algo que o salvaria, o redimiria por alguns instantes quando lembrasse isso no futuro. Por enquanto, a feitiçaria que existia nos movimentos daquelas ancas o fazia perder-se em danação. Sabia disso. Gostava cada vez mais.
Lia em cada reentrância um sinal, pra ele só o caminho que os peitos dela apontavam poderia levar-lhe para o lugar comum de onde nenhuma vida consegue voltar. Era um caminho sem volta. Ela lhe segurava forte uma das mãos. Com a outra cravava as unhas nas costas dele. E assim o conduzia para sabe-se lá onde. 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

The Coasters - Down in Mexico (1957)

Death Proof (Tarantino, 2007)

Nunca é Dia do Caçador (conto)

Death Proof (Tarantino, 2007)
Na tarde que ele a procurou novamente, depois das primeiras (poucas) vezes que se viram, não fazia ideia o quanto estava se tornando perdidamente apaixonado por aqueles olhos escuros, fala rápida, gestos juvenis e balanço displicente daqueles cabelos longos. 
A pele dela agora lhe parecia ter a textura e cor que combinavam com a foto perfeita que pensou dela sem roupa. A nova estória que ela lhe contaria sobre algo banal e cheio de cores o faria pensar o quanto festejaria pra sempre viver naquele sorriso de lábios vermelhos e fartos. 
Bastaria agora que ela dissesse o seu primeiro oi e ele mergulharia no transe irremediável daquelas pernas, como na cena de Down in Mexico, do Tarantino. Mas ele ainda não sabia de nada disso.
O caçador, coitado, agora era a caça.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Annie Hall (Woody Allen, 1977) - Monólogo

Básico


Conto: A Garota da Imensidão Azul


Sábado à noite e ele resolveu sair. Já era tarde, depois de um dia longo e difícil precisava andar pelas ruas, sentir o frio no rosto, animar-se um pouco coma vista das pessoas envolvidas entre nuvens de fumo e cerveja em copos americanos. Sentar em alguns desses botecos de esquina e tomar algumas geladas ao som dos carros, buzinas impacientes de quem não se importa com a displicência boemia que anda a esmo pelo meio da rua às duas da manhã. Ter pra si um pouco dessa madrugada de berros e falta de medo de estar no mundo.

Entrou em um bar que não conhecia. Paredes vermelhas, mesas antigas, ficou no final do longo balcão, ao lado do dancing interessante, com um piso rebaixado, por trás de uma parede curva que lhe oferecia alguma reserva em relação aos olhares que vinham do saguão. Quase vazio, salvo por uma única garota que parecia ter se aventurado a seguir a música que ninguém mais conhecia ali.

A menina dançava sozinha, olhos fechados, jogando seus cabelos compridos para os lados. Longas tatuagens lhe subiam as costas nuas do vestido branco. Era iluminada por um azulado escuro brilhante, quase extraterrestre, com a luz negra do salão. Fartas sobrancelhas escuras. Peitos proeminentes, definitivos, daqueles que não se esquece nunca. E sua bunda e quadris faziam o movimento certo que ele precisava em sua poética desgarrada de inspiração.
A moça desenhava movimentos suaves repletos de impressionismo. Movia-se como em um ambiente sem gravidade, mergulhada na psicodelia da tristeza retrô que preenchia o ambiente. Flutuava hipnótica nesse seu universo interior, aquático. Repetia pra si mesma a letra minimalista que rolava nos alto-falantes, era possível ler nos seus lábios, inacreditavelmente rubros.

Um momento abriu os olhos e olhou exatamente para ele. Quatro ou cinco segundos entre um e outro movimento bastaram. Chamou-o para perto.

Ela era aquele algo que quebraria seu silêncio interior, que romperia bruscamente a voz em off que narrava sua maçante intolerância com quase tudo.
Desejava menos estar em mais um de seus frames do que apenas um passante descendo bêbado abraçado com ela uma rua de bares barulhentos pela madrugada, pronto para tropeçar em qualquer coisa que o destino lhes colocasse no caminho.

Viram o dia raiar juntos. Chamou-a pra si mesmo de "a garota da imensidão azul".

Não esqueceu mais seu perfume. 

Seu batom não largou mais da gola de sua camisa.

domingo, 3 de agosto de 2014

Moby - Sunday (The Day Before my Birthday)


Dia de aniversário. 

"Sunday was a bright day yesterday..."

Bom domingo!

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Vangelis - One More Kiss, Dear

"Until tomorrow, goodbye..."

Rachel (Sean Young) - Blade Runner (1982)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Talvez Só Cansaço

Ela chegara tarde do trabalho nesta sexta feira. O pequeno apartamento alugado ainda tinha a sala tomada por caixas da mudança já não tão recente. Não que fosse rica, sequer tivesse sonhado com isso na vida, mas pela primeira vez morava perto da praia, da pontinha de sua janela dava para ver um pouquinho do mar a apenas algumas quadras. Em direção à cozinha, passou entre algumas caixas de livros e umas de não-sei-que-lá que talvez fossem de roupas, Leopoldo, o gato abandonado pelo ex namorado, quase a derruba em sua ânsia pela comida da noite. 

Banho frio. Ainda não instalara o chuveiro elétrico, por isso, maldizia-se da preguiça, falta de tempo e ou da falta de saco pra falar com estranhos, um eletricista que viesse resolver a tal coisa. Deixou os pesados óculos sobre a mesa, não precisaria mais deles hoje. Chá verde a mão, alguns biscoitos integrais, sentou no velho sofá laranja devidamente coberto com uma pesada manta e se pôs a pensar na vida. Leopoldo já saciado, agora insistia em passar entre sua cabeça e a parede por trás do sofá. 

Estava muito cansada hoje, pensara em chorar na volta pra casa, não sabia bem o porque. Talvez saudade de algum plano esquecido, de alguma coisa boa do tempo com o ex-namorado, talvez a demora em encontrar outra pessoa, ou, estivesse aprendendo a ser feliz com sua própria nova vida. Sempre desconfiara da felicidade. 

Ela se deu conta que hoje um velho amigo do trabalho parecia flertar com ela. Ele lhe sorrira algumas vezes mais ao falar sobre suas impressões do último filme que falava, óbvio, de amores que acabam e outros que começam do nada. O rapaz de barba rala e óculos, sempre tão gentil. Pensou: Essa bagunça uma hora passa. Convenceu-se que nesse momento só estava cansada. 

Permitiu-se e chorou baixinho. 

domingo, 13 de julho de 2014

A Sorte Conta Muito



“A sorte conta muito”, lera em uma crônica ao final daquela Copa do Mundo.
Alguns dias depois, tarde da noite à meia luz do abajur, se perdera em um instante em que via o fracasso do favorito na Copa como um paralelo do que passava nos últimos tempos. Em outro momento não distante voltara a fumar, coisa que sempre fizera sem jeito, como um eterno iniciante, as escondidas de si mesmo. A garganta seca de nicotina, um copo de vodka, nada no estéreo. Não via motivos pra mover-se até o toca discos e colocar as mesmas músicas que falavam sobre ela. As que restaram depois que ela se foi.

Deitado sobre o assoalho do velho apartamento, a vida sob esta perspectiva era em preto, branco e cinza que se insinuava nos contornos dos móveis, do quadro no chão ainda esperando pra pendurar, dos jarros vazios nas quais as samambaias e suculentas feneciam sem água. “Se não fosse aquela bola que explodiu no travessão na prorrogação”, “se não tivesse entrado aquele maldito zagueiro reserva que marcaria o gol que lhe arrancariam o título”. Lembrou o quanto ela odiava metáforas futebolísticas. Gargalhou pra dentro. Deu um trago no cigarro. Engasgou.

Outro gole de vodka. Bebera mais de meia garrafa desde que começara a olhar as polaroides de quando estavam juntos. Gostava em especial daquelas sacanas, as mesmas que, numa noite, ela pediu para ele que tirasse. Estavam em um quarto de pousada numa praia distante, em uma das primeiras vezes que viajaram juntos.

Nua, fazia poses sobre a cama, sem nenhum pudor, algo entre moleca e a seriedade das mais frias modelos. Fitava-lhe profundamente. Seus olhos intensamente negros, cabelos lisos, franja, compunham sua nouvelle vague particular. Instante infinito congelado no contraste noir dos seus pelos escuros sobre a pele inacreditavelmente branca de sua pélvis. Suas pernas abertas eram o lugar no qual ele tinha o mundo pra si. O sítio no qual durante tanto tempo pensou que nunca chegaria. Chegara. E o tempo e as trapaças da vida encarregaram de levar.

Hoje ouvira de alguém que ela estava viajando, não sabia ao certo por onde. Seguira resoluta seu rumo, aquele mesmo, que um dia confessou para ele na cama antes de adormecer... E ele não quis entender. Parecia-lhe que ela hoje já não estava com ninguém, o que parecia não fazer-lhe a menor diferença. Até escrevera para ele. No verso de um selfie de polaroide disse: “Querido, vi muita coisa que gostaria imensamente ter podido compartilhar contigo, hoje as coisas estão mais claras, vejo o mundo sob as cores de uma tarde mágica, nada parece mais ter fim! Um dia talvez eu volte pra te contar. Fique bem. Com carinho. A. K.”.


Mais um gole. Hora de fechar a caixa de fotos. Não contara com a sorte, como o goleiro daquela seleção que levou o gol da eliminação das oitavas de final na prorrogação. Os primeiros movimentos da rua se faziam ouvir. Logo mais tinha que ir trabalhar. Dormiu com a foto dela sob o travesseiro.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Pelo Canto do Olho

Babe (Hugues Erre, 1986)
Ele disse pra ela que não havia mais como sentir-se tão vazio por amá-la.
Do seu desejo de negar-se totalmente quando ela pausava seu olhar sobre ele,
mesmo por poucos segundos. Desse olhar assustador de canto de olho que sorrateiramente o perseguia e flagrava-o em pleno ato de voyeurismo do que não valia mais a pena.
Antes de usar toda coragem que nunca teve e sair,
Ainda conseguiu dizer do seu desejo doentio,
Sua fixação atormentada pela imagem dos cabelos dela sobre o rosto (que escondiam ainda mais seu olho).

Bateu a porta com força naquela sexta feira a noite.

Pouco depois, sem piedade, deixou-se abater por doses massivas de vodka num bar.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Carta de Intenções

 Hugues Erre

Você me disse sobre o seu medo. Sim baby, você teve coragem. Você é uma sólida parede, um tipo de trator cujas esteiras deitaram perfume por toda a casa. Também chocolate, vodka e sal pelo caminho desse quarto até varanda onde ensaiei meu salto. Escrevi linhas de raiva com as unhas pela parede, quisera você me consertasse, voltaria sempre pra fazer estrago maior, te ter em meus braços em silêncio, sabor de açaí, sentir seu cheiro que já era quase o meu.

Te proporia maiores delícias e dores, maior seria a proposta para qual você nunca recusaria abrir suas pernas. Seríamos comidos pelo futuro que corre ao lado na rua escura e você me teria como nunca imaginou e o trator se perderia no lamaçal inevitável de um aborto de expectativas.
Baby, eu falhei porque sou torto e quero demais. E erro demais ao realizar minhas fantasias. No fundo não sei querer, ninguém me ensinou isso. 

Mas hoje você falou do seu medo, hoje eu era seu medo. Você cruzou a porta para nunca mais. Sem mais, meu corpo começou a padecer da falta de todas as sacanagens que você me prometera quando nos conhecemos.

Um novo tipo de dor, uma síndrome de abstinência pelos cortes nos braços, pela promessa não cumprida do tiro de misericórdia disparado pelo seu sexo cru. Uma dor nova que faz continuar rastejando atrás de ti pelos mesmos cantos da casa, mesmo depois que você se foi. 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Algo Sobre o Amor Antes do Amanhecer

Richard Tuschman, sobre as solidões de Edward Hopper.
Olhou para o lado e ela estava lá, encolhida, braço sob a cabeça. Como um bebê que crescera demais e enrolava-se em si mesma, misturava-se com o travesseiro, cabelos soltos, nua, lençol no chão. Ele virou-se pro lado oposto, incomodado por toda a luz do mundo que vinha da janela aberta lhe cegando os olhos cansados tão cedo da manhã.

Dormira pouco. Até a pouco repetiram o ritual de confrontarem suas indisposições mútuas, suas necessidades incompreensíveis e sensibilidades afetadas pelas dores que ultrapassavam as cada vez maiores fissuras de suas vidas naquele momento. Fragmentos de frases grudaram em sua mente, sabia ter dito pra ela que não poderia mais haver amor entre eles. Ao que ela retrucou não ser o problema, ele não poderia amar ninguém, nem mesmo a si, por não conseguir ter alguma generosidade consigo mesmo.

A partir desse momento dois monólogos sobre a solidão que se constituía há tempos entre ambos começou a desenrolar: dele, a falta de generosidade para consigo, dela, o sentimento que se esvaia numa distância que se materializava como um salto de um trapézio absurdo entre eles, sem rede de proteção. O teatro de falas exaltadas intercalados por silêncios corrosivos durou toda a madrugada. Sabiam que o fim estava logo ali. Desistiram enfim. Ela foi para o quarto, ele para o sofá. Passados alguns minutos ela o chamou para cama. Sem cerimônia, ele ascendeu. Não mais se falaram, adormeceram vencidos pelo excesso de adrenalina.

Agora, com toda atenção na própria respiração para não acordá-la, tentava juntar em sua cabeça as peças de suas vidas largadas nessa confusão de distâncias. Sem aviso, ela mudou de posição na cama, virou-se para o lado dele, passou o braço ao redor do seu pescoço e aninhou-se ali, bem perto de sua orelha.


Ele emudeceu a respiração e os pensamentos, Abraçou-a ternamente e voltou a dormir. 

O inevitável ficaria pra mais tarde.

domingo, 13 de abril de 2014

O Grande Engarrafamento

  Xiau-Fong Wee

O trânsito estava infernal naquele início de noite de sexta feira. A cidade enlouquecera com a avalanche de carros que tomara as ruas nos dois últimos anos. Ouvira de um comentarista da TV outro dia, tudo culpa do Governo que baixara os juros e os impostos. Nesse momento as razões não interessavam muito, já estava bastante atrasado para pegar Patrícia que saia do trabalho e o esperava. O engarrafamento, as ruas lotadas de carros guiados por pessoas desejando matarem-se umas às outras, o dia de trabalho especialmente ruim, e a iminência do reencontro desde a briga que tiveram no café da manhã.

Pensava, não conseguiam mais se entender. Eles estavam há semanas muito distantes, talvez meses, custava admitir, enquanto ouvia entediado qualquer música de uma dessa FMs metidas a sofisticadas, que repetem à exaustão que só tocam música de bom gosto. De uma forma secreta e corrompida quase amava o engarrafamento pelo retardo de minutos daquele encontro. Sabia que sua falta de paciência estava em um nível absurdo, o vazio amargo era uma das coisas mais difíceis de trazer engasgada por um dia inteiro. Sabia que com ela não teria sido diferente, mulher teimosa, birrenta. Mais do que isso, ela era inteligente e observadora astuta da temática “o que fora feito de nós”, sabia descrever perfeitamente o lugar de cada detalhe que fazia a decadência do que fora o amor deles.

Parou o carro, ela entrou. Beijo rápido na face, quase na boca. Dava pra sentir o cheiro de perfume e suor do dia, agridoce. Seguiu-se um pesado silêncio nos intermináveis e congestionados quarteirões seguintes. Ele não aguentou e cedeu, começou a falar quase sem controle sobre qualquer coisa a respeito do stress e a miséria que tomaram conta da cidade, sua desgraça irreversível, sua crença resoluta numa espécie de ética de que "vamos todos morrer", assim, num grande caos, em meio ao desespero de um grito cósmico. De súbito, e já sem nenhuma paciência ela o interrompeu. Perguntou-lhe se pensara em sua proposta de dar um tempo. Novo silêncio e ele explodiu numa sequência de frases que traduziam sua revolta contra tudo que acontecia entre eles naquele momento, ao mesmo tempo, que reforçava inadvertidamente, tudo que passavam.

Sem aviso, Patrícia saltou do carro enquanto esperavam um sinal de trânsito. Para surpresa dele, ela não dormiu em casa esta noite. Também não atendeu seus telefonemas. Apareceu apenas dois dias depois para pegar suas coisas. Sequer se despediram.

Lembrava então daquela sensação, de que a cidade iria se acabar em um grande grito cósmico, em meio ao grande engarrafamento.